Uma janela sobre o mundo bíblico

Na oração de Jesus pedindo ao pai que passase dele "o calice", qual é o verdadeiro significado do "calice"?



  • Pergunta de Gilherme, Marilena
  • 35682
  • 10/02/2008
Luiz da Rosa

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A atitude de Jesus diante da morte não é de completa indiferença, mas ela lhe perturbava. É veredade que Jesus morreu em completa liberdade e encarou a morte como um dom e oferta de si mesmo, mas ao mesmo tempo a sua angústia e medo parecem serem profundos. Os evangelhos sinóticos sublinham isso e também o evangelho de João diz: “Minha alma está agora conturbada. Que direi? Pai, salva-me desta hora? Mas foi precisamente para esta ora que eu vim.” (João 12,27). Lemos ainda em Hebreus 5,7-8: “É ele que, nos dias da sua vida terrestre, apresentou pedidos e súplicas, com veemente clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte; e foi atendido por causa da sua submissão”.

Agora consideremos de perto a passagem a qual você se refere, tomando o Evangelho de Marcos (14,33-25). O evangelista introduz assim a oração de Jesus: Começou a apavorar-se e a angustiar-se. E depois continua: “Minha alma está triste até a morte”. Depois a oração segue por duas estrada, uma indireta, do narrador ( caiu por terra, e orava para que, se posssível, passasse dele essa hora) e outra direta, de Jesus (”Abba! Tudo è possível para ti; afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que tu queres”)

Observando as duas formas de descrição da oração, aquela do evangelista e aquela colocada na boca do próprio Cristo, vemos claramente que “cálice” está em relação à “hora”.

Falando de sentido teológico da oração no Gêtsemani, precisamos lembrar a angústia típica dos profetas, que não é somente um sentimento psicológico, mas exprime uma agonia, como se fosse uma luta entre o profeta e Deus: o profeta gostaria de desistir da sua missão, mas Deus quer que ele prossiga. O profeta é dominado pela angústia e não tem coragem. Portanto a angústia está diretamente ligada com a missão profética. Também Jesus se depara com a falta de sucesso de sua pregação. O convite contínuo à conversão, a “orar e vigiar” (também aos apóstolos) se revela utópico e não se concretiza, mesmo se não devemos reduzir a causa da angústia de Cristo à falta de sucesso e ao desconforto humano. Então se deve a quê? Ele tem medo da morte? Provavelmente não é isso, pois foi ao encontro da morte voluntariamente, como dom extremo de si mesmo. Ele não sofre por si mesmo, mas pelos homens, pelo povo que quer salvar. Portanto a angústia è sinal da caridade infinita de Deus para com o ser humano.

O que nos perturba nesta passagem é o fato que parece que Jesus queira “afastar” de si a morte. Porém poderíamos ler em outra perspectiva. As palavras de Jesus não visam escapar da sua missão, mas é um pedido para atrasar aquilo que deve acontecer, o cálice, a hora da paixão, para prolongar a missão e salvar o povo da sua falta de fé.

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