Uma janela sobre o mundo bíblico

Li o artigo da Ombretta sobre o Sábado. A autora citou apenas o AT. No NT Jesus parece preocupado com outras coisas e frequentemente aparece trabalhando no Sábado. Paulo diz: Meu Deus não é um Deus de comida ou bebida e nem dos dias de Sábados. Shabbat é o dia do descanso, que deve ser o sétimo dia não exatamente Sábado. Eestou certo ou errado?



  • Pergunta de Paulo Roberto Favero, Ponta Grossa
  • 3798
  • 03/12/2007
Ombretta Pisano

Leia mais sobre Sábado |


A sua pergunta dá oportunidade para voltar sobre um tema interessante e importante, ou seja, aquele que se refere à relação de Jesus com o Sábado e, em consequência, dos cristãos com o Sábado (e o Domingo).
Elemento básico para compreender em modo correto esta relação, sobretudo para compreendê-lo HOJE, é considerar um fato sobre o qual não costumamos refletir: o cristianismo nasce do mistério pasqual de Cristo, da sua paixão-morte-ressurreição. Traduzindo em termos mais diretos e claros, isto significa que Jesus não era cristão. A fé EM Jesus como Filho de Deus nascru a partir da sua ressurreição, mass a fé DE Jesus era o judaísmo. É como judeu que ele viveu e, portanto, freqüentava a sinagoga e o templo, realizava as peregrinações a Jerusalém prescritas para as solinidades judaicas. Como judeu, observava também o Sábado (como vamos ver mais adiante).
O que interessa aos cristãos é COMO Jesus vivia tudo isso, pois a partir do modo com o qual observava os preceitos da sua fé, nós aprendemos ensinamentos úteis para a nossa salvação. Vamos ver, então, os textos do Novo Testamento e analisar como Jesus observava o Sábado.

Em Mateus 12,1-14 (e nos paralelos Marcos 2,23 – 3,6; Lucas 6,1-11) encontramos dois episódios emblemáticos: a colheita das espigas e a cura do homem com a mão seca. Os dois episódios são realizados no dia de Sábado. Nos dois casos. Jesus mostra claramente de compreendr a observância do preceito como uma oportunidade dada para a afirmação do valor da sua dignidade e da sua vida. Há situações, como a fome e a doença, diante as quais a fidelidade ao mandamento deve ser fidelidade criativa, que saiba tirar do preceito o sentido favorável à pessoa, à sua vida e ao seu bem. Portanto, quando aparentemente parece que se transgride o mandamento existe, no fundo fidelidade a ele. Na verdade a aparente transgreção é praticada para afirmar o valor que fundamenta o preceito e não significa absolutamente uma contradição. Não se trata, por isso, de uma transgressão em obediência a um ímpeto de rebelião, ou à preguiça, ou à conveniência. Jesus não desobede à lei do Sábado, mas a observa.
É óbvio que diante de tal liberdade soberana, de uma tal criatividade, quem não tem a profundeza adecuada de juízo, quem confunde a fidelidade ao espírito da lei com aquela à letra da lei, fica escandalizado e condena símile iniciativa. Por isso Jesus, sempre em relação ao Sábado, em João 7,24 diz: “Não julgais segundo as aparências, mas com um juízo justo”.

Em Lucas 13,14-15 temos uma outra cura, onde se apresenta um confronto entre dois tipos de libertação: aquela do boi e do asino e aquela da ‘filha de Abraão’. Os animais domésticos dependem do homem para suas vidas; por isso também no dia de Sábado é necessário providenciar as coisas necessárias às suas necessidades antes que às próprias necessidades. Porém, ainda mais uma ‘filha de Abraão’ (veja o uso deste apelativo, voluntariamente enfático) submissa por satanás depende de Deus e de quem convive com ela, para a sua vida. Ficar parado diante desta necessidade por causa de uma fidelidade errada à letra da lei, na verade é uma compreensão errada do mandamento, o que impede a observância em modo perfeito do preceito. Jesus ensina, neste e em outros episódios, que o amor é a verdadeira e inegável observância (“E não podiam responder nada diante destas palavras”).

Em João 5,9-18, a liberdade de Jesus em relação ao Sábado fala da sua proximidade com o Pai. Neste episódio existe um fado estranho; Jesus oferece a seguinte justificação ao seu comportamento: “o meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho”. Estamos diante de um aparente paradoxo. O Sábado não é o mandamento que lembra o ‘repouso’ (o vocábulo ‘shabbat’ tem esse significado) de Deus no sétimo dia da criação? Sim, pois em Êxodo 20,11 este é o motivo do preceito. Porém existe também uma outra justificação do mandamento em Deuteronômio 5,5. Nesta citação a causa do repouso no Sábado é a memória de uma ação de salvação de Deus para com o seu povo: escravo no Egito é libertado pelo Senhor ‘com mão potente e braço estendido’. É a memória da Pásqua hebraica, visto que Deus ‘vigia’ junto com seu povo na noite de Pásqua para libertar-lo e dar-lhe vida nova. Quem sabe é em base a esta fundamentação apresentada pelo Deuteronômio que se baseia Jesus para justificar o seu comportamento durante o Sábado: como Deus com Israel na noite pasqual, assim Jesus com um infermo que ele cura. Fazendo assim Jesus se equipara a Deus na sua obra de salvífica e isto escandaliza os chefes religiosos, que pensam em justiciá-lo.

Como se vê nos textos, Jesus observa o Sábado e o observa em modo criativo, respeitando o seu significado. Através da observância do Sábado, Jesus nos ensina que aquilo que conta é a liberdade criativa do amor. Quando, depois da ressurreição, torna-se evidente para os discípulos a obra salvífica de Deus realizada em seu Figlho, eles recorderão o ‘dia do Senhor’ (‘kyriaké emera’, em grego, ‘dies dominicus’, em latim), do domingo.

Os primeiros cristãos que vinham do mundo judaico continuavam observando o Sábado (Atos dos Apóstolos 2,46; 5,12). No domingo se reuniam para recordar a ressurreição e celebrar a Eucarístia. É importante frisar que o domingo traz o seu valor essencialmente da celebração eucarística e não representa um valor como dia em si, como é o caso do Sábado para os judeus. Para os cristãso a observância do Sábado foi substituída pelo domingo somente depois de algum tempo. Foi expressamente proibida a celebração do Sábado no Concílio de Elvira, em 300 depois de Cristo. O domingo se consolida como a única celebração a ser observada no Catequismo de Trento, promulgado pelo papa Pio V, em 1566. Esta separação e distinção apareceram progressimente, com o desaparecimento de cristãos de origem judaica e com a consequente perda do conhecimento do significado do preceito sabático. De qualquer forma, com certeza o domingo, para os cristãos, não tem o mesmo significado que o Sábado para os judeus, no sentido que, como já dissemos, no centro da celebração do domingo está a Eucaristia, a memória da morte e ressurreição de Jesus. E é exatamente a Eucaristia que cria a Igreja, sendo a sua identidade profunda. Além disso, o domingo é o primeiro dia da semana, que relembra o início de uma nova criação. Por isso os primeiros cristãos celebravam o domingo e aqueles que vinham do judaísmo não viam concorrência com a observância do preceito sábatico.

Por que, então, os cristãos chegaram ao ponto de rejeitar completamente a observância do Sábado? Cristo, como vimos nos textos do Novo Testamento, nunca ensinou a não guardar o Sábado, mas sim a observá-lo no seu significado mais profundo, observando a primazia da dignidade humana sobre o próprio repouso. A rejeição do Sábado provavelmente aconteceu durante os séculos posteriores, na medida em que ficou mais profunda a fratura entre cristianismo e judaísmo – mesmo em sentido violento – pois a partir deste momento houve uma rejeição radical a tudo aquilo que se relacionava às práticas judaicas.

Em todos os casos, também a observância do mandamento dominical hoje está em crise, a tal ponto que os cristãso continuam a perguntar-se sobre o sentido da frequência à Eucaristia, ao culto, como se fosse um mandamento que se observa passivamente. Neste sentido, como propõe o estudiosos francês J. Dujardin, talvez fosse melhor que também os cristãos considerassem que, precedendo o domingo, o Sábado pode ser visto como ‘um convite a preparar-nos a acolher a Palavra de Deus, a celebrar como convém a eucaristia (domenical), mistério da morte e da ressurreição e início da nova criação”.

A tradição secular da Igreja nos ensinou a celebrar o Dia do Senhor, o domingo, em memória da sua ressurreição e do seu dom eucarístico. Mas o conhecimento do sentido do Sábado não nos impede, ou melhor, nos convida a apreciar o seu valor.

3798 visitas


A resposta dos autores do site se encontra aqui acima.
Eventuais comentérios postados abaixo, via FaceBook, não representam o nosso parecer,
mas são de exclusiva responsabilidade dos seus autores.


Comentários

Os comentários são possíveis somente através da sua conta em FaceBook