União estável?

Estudo de Eurides Vaz, em 18/05/2011


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A comunhão originária

Nos encontramos no primeiro tópico de nosso artigo que trata sobre a união estável. Nada mais certo do que partir de um fundamento bíblico para a nossa reflexão. A palavra de Deus é clara: “edisse o Senhor Deus: não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliar que lhe corresponda” (Gn 2,18). Aqui não devemos entender por auxiliar apenas alguém que deva executar tarefas, como por exemplo, aquelas do lar. Trata-se sim de um complemento.

Depois de ter criado todas as coisas, Deus decidiu criar o homem: “pois as Sagradas Escrituras ensinam que o homem foi criado ‘à imagem de Deus’, capaz de conhecer e amar seu Criador, que o constituiu senhor de todas as coisas terrenas para que as dominasse e usasse, glorificando a Deus” (GS, 237). E o fez à sua imagem e semelhança: “e disse Deus: façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” (Gn 1,26). Contudo, Deus concluiu que não era bom que o homem estivesse só: “Deus não criou o homem solitário. Desde o início, ‘Deus os criou varão e mulher’ (Gn 1,27). Esta união constituiu a primeira forma de comunhão de pessoas. O homem é, com efeito, por sua natureza íntima, um ser social” (GS, 238). A saída encontrada pelo Deus criador foi a de preparar-lhe um complemento.

Deus não disse: vou criar duas, três, quatro, cinco ou mesmo várias mulheres para o homem, mas sim uma só (Hortal, 28).

A partir da palavra de Deus podemos dizer que ele não decidiu criar um outro homem que seja o complemento para outro homem. E muito menos dois, três, quatro ou vários homens para um homem.

Deus também não decidiu criar uma mulher que complementasse uma outra mulher. Segundo a fundamentação bíblica não se fala ainda da criação de duas, três ou várias mulheres para uma mulher.

O Criador não disse nem mesmo que iria criar para o homem uma criança que o complementasse ou satisfizesse.

Longe de tudo isso, Deus disse assim: vou criar para o homem uma mulher (cf. Gn 2,18). O que nos possibilita concluir que não existem duas ou várias mulheres para um homem e nem mesmo vários homens para uma mulher. O que existe sim, no Plano da Criação de Deus, é uma mulher para o homem.

Trata-se, então, do Plano salvífico de Deus. Não é difícil concluir que Deus não criaria um homem para várias mulheres e, nem mesmo uma mulher para vários homens. Até mesmo nas culturas onde predomina a poligamia existe uma que é a mulher legítima. A mesma é considerada como sendo a primeira dentre todas as outras. Ela é a mulher oficial, por assim dizer. Contudo, “a unidade do matrimônio significa a impossibilidade de uma pessoa ficar ligada simultaneamente por dois vínculos conjugais. Por isso à unidade opõe-se a poligamia” (Hortal, 28).

No fundo, Deus fez um para o outro. Não fez o homem e, depois da união matrimonial legítima disse-lhe: agora eu quero que você se separe e arrume uma outra mulher para você. É por isso que muitas mulheres, depois que o marido morre, dizem: “eu amei somente um homem em toda minha vida”. E concluem: “só existiu um homem em minha vida que trago comigo no meu coração até hoje”. Sendo assim, muitas viúvas tiram a aliança do dedo do marido já morto, e a colocam junto com a aliança que trazem na mão esquerda como sinal de que não existiu e não existirá outro complemento para elas. Porém, são livres para se casarem de novo: “a indissolubilidade é a impossibilidade da dissolução do vínculo conjugal a não ser por morte de um dos cônjuges. Inclusive na antiguidade houve autores, como Tertuliano, que negavam a possibilidade de segundas núpcias para os viúvos, o que, porém, não correspondia à doutrina comum da Igreja” (Hortal, 28). Contudo, dentro do Plano de Deus continua a existir apenas um para cada uma.

Se Deus decidiu criar para o homem uma única mulher, quer dizer que se trata de um Plano perfeito. Assim, o homem encontrará seu complemento somente naquela que foi formada para ele. Uma outra será apenas uma outra. Será uma qualquer. Constituir-se-á em uma amiga, uma companheira, mas jamais aquela única que Deus criou para ele. Não será jamais a carne de sua carne e o sangue do seu sangue: “e disse Adão: esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada” (Gn 2,23).

O homem pode até mesmo querer mudar o Plano de Deus e separar aquilo que ele uniu. Contudo, não o conseguirá fazer, pois a união está no coração. Diz respeito a uma união interior. O matrimônio é o momento público onde esta aliança é confirmada: “portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e se unirá à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gn 2,24). A confirmação se dá diante de Deus. O que quer dizer que é uma aliança sagrada: “dessa maneira, do ato humano pelo qual os cônjuges se doam e recebem mutuamente, se origina, também diante da sociedade uma instituição firmada por uma ordenação divina” (GS, 350). Trata-se, então, de um compromisso assumido diante do sagrado. Portanto é eterno! Da parte de Deus eles estão unidos para sempre, porque desde o início já estavam unidos: “ele, porém, respondendo, disse-lhes: não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu o homem não separe” (Mt 19,4-6; CIC, 2364).

No fundo, a união já se concretizou desde quando um foi criado para o outro. É por isso que o homem não deve separar o que Deus uniu. Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o ser humano é chamado a não mudar o Plano salvífico de Deus (Mt 19,6). Está é a mensagem que todos os casais ouvem no dia do seu matrimônio: “o que Deus uniu, o homem não separe!” (Leers, 22).

O conselho é dado pelo próprio Jesus Cristo: vocês não devem separar o que Deus uniu, pois interiormente já estão unidos desde a criação do mundo: “Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas desde o princípio não era assim” (Mt 19,8). Na verdade os dois, por mais que tentem, ou por mais que outras pessoas tentem, não conseguem alterar o Plano de Deus (GS,48). A separação é apenas exterior: “ao instituir o casamento Deus formou sua natureza essencial, que é inalterável, imutável” (Clemens, 46).

No fundo, os corações estão integrados. Ninguém consegue separar dois corações. Por isso, o divórcio é apenas uma saída exterior que não consegue separar a união interior feita por Deus: “a aliança livremente contraída pelos esposos lhes impõe a obrigação de mantê-la una e indissolúvel” (CDC, 1056). Se um foi criado para o outro, então somente encontrará seu complemento no outro. E complemento neste caso não quer dizer perfeição, pois os dois são diferentes um do outro. A partir dessas diferenças eles podem se complementar ou não. Isto porque as diferenças geram intrigas e separações. O que fazer, então, quando o casal entra em crise?

 

A via da reconciliação

O perdão como oportunidade de reconciliação

Vimos que originariamente Deus criou um para o outro. Eles estavam unidos e não conheciam a separação. Estavam no Paraíso e não deviam desobedecer a Deus: “pode comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer” (Gn 2,17). Conselho que foi dado por Deus antes da sua decisão de criar a mulher como complemento do homem (cf. Gn 2,18).

Contudo, eles desobedecem a Deus: “tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o também a seu marido, que com ela estava e ele comeu” (Gn 3,6). A partir disso, um começa a jogar a culpa no outro, não assumindo o próprio erro ou não aceitando o outro como ele realmente é: “a mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!” (Gn 3,12). Assim, um passa a se separar do outro. Isso não se deu apenas no princípio da Criação, pois a comunhão se dá também quando os dois se encontram um dia no universo. Contudo, por causa das diferenças, começa a separação: “mas é também possível que, com o passar do tempo, se encontre dificuldade em aceitar o marido ou a mulher, como realmente cada um é” (Heggen–Marlet, 137).

Deste modo, a via a ser percorrida para que se possa chegar à comunhão quando o outro erra é a do perdão: “então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?” (Mt 18,21). A resposta do Senhor é desconcertante: “Jesus lhe disse: não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete” (Mt 18,22). Trata-se de um perdão infinito. Perdoar não apenas sete vezes. O número sete simboliza a perfeição na bíblia. Jesus pede para que se perdoe não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete. Deve-se multiplicar o número da perfeição por setenta. O resultado não é apenas o número quatrocentos e noventa, mas sim o infinito. Quer dizer que o perdão deve ser dado infinitas vezes, sem se preocupar com a quantidade: “é a oferta divina de perdão pela nossa culpa que sustenta a nossa capacidade de perdoar. O perdão cristão deve assemelhar-se ao de Deus Pai, que tudo perdoa, seja que mal for, e sempre” (Martini, 141).

Assim, o homem deve perdoar a sua única mulher infinitamente para que a comunhão possa ser restabelecida: “Oséias descobriu o perdão de Deus através de sua própria capacidade de perdoar à esposa infiel. Este é um elemento chave do laço que se funda na aliança. Assim como Deus nos perdoa sem cessar em virtude de seu grande amor – e que é a história dos homens senão uma história de contínuas rupturas de sua aliança com Deus? – da mesma forma deveremos cotidianamente perdoar todas as faltas e fraquezas do outro” (VV.AA., 22-23).

Mas como o marido é chamado a perdoar a sua esposa? Ou ainda, como o namorado é convocado a perdoar a sua namorada? Por meio de palavras, dizendo-lhe: “eu te perdôo!” Ele pode perdoar a sua alma gêmea, dizendo-lhe: “oi!” Na verdade ele pode e deve perdoá-la por meio de um “bom dia!” A mulher pode restabelecer de novo a comunhão perdida, dizendo ao seu marido: “muito obrigado!” Ou mesmo: “como você está?” Ele pode até mesmo dizer-lhe: “desculpe, eu estava nervoso!” Ou ainda: “desculpe se fiz alguma coisa que ti feriu”. Ou mesmo: “desculpe se ti disse alguma palavra que ti magoou!” A mulher pode ajudar a restabelecer a comunhão perdida sem muita disposição. Às vezes perdoa até mesmo forçadamente, sem vontade de fazê-lo. Pode pedir desculpas por pedir, dizer um “oi” ou desejar “boa tarde” por desejar. Contudo, é chamada a fazê-lo para que não se feche em si mesma.

Assim, uma das grandes chances do restabelecimento da comunhão é o diálogo (MFC, 34-43). Já foi comprovado cientificamente que o fechamento do marido em si mesmo o prejudica. O que não deixa de prejudicar os outros que estão ao seu lado. E isso pode gerar também problemas de saúde. Já é comprovado até pela medicina que o ódio que uma pessoa vai acumulando no seu coração pode gerar até mesmo doenças. O coração pode ir se fechando até conhecer o infarto. Uma úlcera pode ir se formando por causa da indisposição do esposo em perdoar a sua outra metade. Uma gastrite pode aparecer por causa da indisposição da esposa em ceder um pouco. Problemas psicológicos podem surgir se um não sabe renunciar um pouco ao seu orgulho. O fechamento em si mesmo ou à indisposição em perdoar pode levar à loucura: “e se na família não há entendimento e afetividade entre seus membros, o que resta? Apenas uma família enfraquecida para enfrentar os desafios de um mundo. E é nesta família desguarnecida que, muitas vezes, um erro cometido poderá causar um transtorno psicológico irreversível na vida das pessoas que a compõem” (Silva, 37).

Mas se deve perdoar também por meio de obras. Perdoar não apenas por meio de palavras, mas também por meio de obras quer dizer não desejar o mal ao próximo: “os outros mandamentos se referem ao próximo. Estes estão ligados de maneira indissociável com os primeiros. Não se pode separar o amor de Deus do amor dos homens” (CNBB, 196). Quem diz que ama a Deus que não vê, também é chamado a amar o seu próximo. E quem é o próximo mais próximo da esposa senão o seu marido.

Assim, o esposo é chamado a perdoar a esposa procurando rezar por ela. Na oração ele diz no interior do seu coração: “que Deus nos abençoe e nos proteja!” Ele pode também dizer a Deus no momento de ira contra aquela única criada para ele: “me ajude a aceitá-la do jeito que ela é!” Ou ainda: “me ajude a amá-la de todo o coração!” Uma outra forma de oração seria: “me ajude a gostar do meu matrimônio, da minha família!” Isto porque “o que reza não visa a satisfação de seus interesses mesquinhos e particulares. Muitos dizem que fazem muita oração ao apresentarem a Deus uma lista interminável de pedidos na linha da saúde, sucesso nos estudos, resolução de problemas” (CNBB, 203).

Deste modo, o marido está aproveitando os momentos de ódio e rancor para rezar por si mesmo e pela sua outra metade. Em vez de se autodestruir por dentro, ele aproveita para combater o Mal com o Bem. Se ela merecer a oração irá beneficiá-la. Senão, a mesma voltará para ele. Caso contrário, se ele a amaldiçoar, então a maldição pode prejudicá-la e voltar também contra ele mesmo. É por isso que São Paulo diz: “abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis” (Rm 12,14). Jesus também dá um conselho que deve ajudar a esposa a perdoar o seu esposo, o qual pode ir se tornando para ela um inimigo: “bendizei os que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam” (Lc 6,28).

É através da ação concretizada interiormente por meio da oração que a esposa pode e deve demonstrar que perdoou o seu esposo. São Francisco, um santo que viveu em Assis, na Itália, também ajuda os casais nesta hora a reencontrar a via da reconciliação, dizendo: “ama verdadeiramente o seu inimigo aquele que não se contristar pela injúria dele recebida, mas por amor de Deus não se aflige com o pecado que está na alma dele, e por meio de obras lhe manifesta sua caridade” (Adm,9,2-3). É por meio do amor que se chega à reconciliação. Quer dizer que o perdão também faz parte do amor. E perdoar para que se possa receber o perdão de Deus. É assim que os casais rezam na oração da família, o Pai-Nosso: “e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12).

Se quisermos o perdão de Deus, então devemos também perdoar o nosso próximo. Além da esposa, o próximo mais próximo do esposo são os filhos, bem como os outros membros da família. Fazer a experiência do perdão quer dizer para o casal a antecipação do céu aqui na terra. Os dois reencontram o Paraíso perdido. Fazem de novo a experiência da verdadeira comunhão originária, onde um foi feito para o outro. Mas, atenção! A comunhão não será jamais perfeita, pronta e acabada. De novo o casal pode voltar a viver uma situação de purgatório causada pelos tormentos da diferença entres os dois. Então, é necessário novamente que um ceda diante do outro. É necessário que um abra mão do seu orgulho para que humildemente possa pedir o perdão. Contudo, mesmo se o casal estiver em conflito, o matrimônio pode subsistir por si só: “dessa forma, um casamento pode perdurar sem amor, pois os laços institucionais são tão fortes e vigorosos, que conseguem dar estabilidade a um casamento que não esteja mais animado pela força vivificadora do amor. O eixo é a legalidade do contrato conjugal” (VV.AA., 56).

É por isso que a nossa vida é um eterno recomeço. Os casais também devem recomeçar a cada dia buscando viver em comunhão. Contudo, se fracassarem, devem recomeçar por meio do perdão recíproco. Ainda mais, um é chamado a reconciliar-se com o outro por meio da oração recíproca.

Mas o perdão pode e deve ser dado também por meio de um convite. O marido pode convidar a esposa para sair, para passear um pouco. O perdão pode e deve ser experimentado por meio de diferentes atitudes como, por exemplo, um cartão de aniversário. A mulher pode e deve demonstrar que perdoou a sua outra metade por meio da lembrança da data de casamento ou mesmo preparando-lhe algo especial. O esposo pode trazer-lhe flores e assim por diante. Tudo isso ajuda a manter viva a chama do amor e a não tentar separar inutilmente o que Deus uniu.

Assim, podemos dizer que a única possibilidade de reconciliação não é apenas aquela diante do sacerdote: “os sacerdotes, ordenados para o ministério da reconciliação, ouvem o penitente e concedem o perdão que refaz o estado de santidade de vida. O momento essencial deste sacramento é a absolvição sacerdotal” (CNBB, 184). Esta também deve ser feita pelo casal, pelo menos uma vez ao ano, onde confessam as falhas que provocaram a desunião. O esposo pode dizer ao sacerdote que ofendeu a sua esposa e vice-versa. Mas isso não basta! Como foi dito, é necessário que ele reconheça suas falhas também diante dela, pedindo-lhe perdão ou perdoando-a por meio de palavras ou gestos concretos.

Afinal de contas além do sacerdote, o casal também tem o poder de perdoar. Deste modo, o sacerdote não pode perdoar a esposa para o marido, caso os dois tenham discutido. Somente um tem o poder de perdoar o outro, e são chamados a fazê-lo para que a vida matrimonial não se transforme em um Inferno. Este é antecipado aqui na terra quando o casal não faz a experiência da reconciliação. E podem se fechar de tal modo um para o outro que a situação de Inferno tende a continuar depois. Por hora é possível sair do mesmo por meio do perdão, do diálogo, do amor. Depois, será tarde demais: “e, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá” (Lc 16,26). Então, o casal é chamado a se converter e reencontrar a via da reconciliação enquanto é tempo, aqui e agora, ainda mais porque só existe um para o outro.

O esposo também pode pedir perdão diretamente a Deus através de um exame diário de consciência. A esposa pode ainda pedir perdão durante o Ato Penitencial no início da Missa. Mas isso não é tudo! E é até fácil demais se reconciliar assim. A questão crucial é que um é convocado a perdoar o outro, caso contrário não receberão o perdão de Deus: “se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas” (Mt 6,15). Quer dizer que o perdão dado ao próximo é fundamental para que se possa receber o perdão de Deus.

Em resumo, o esposo é chamado a pedir perdão a Deus por ter ofendido a sua esposa por meio de um exame diário de consciência. Pode fazê-lo também durante o Ato Penitencial e por meio do Sacramento da Confissão. Mas ele é chamado também a pedir-lhe o perdão por meio de palavras ou ações. Se os dois estiverem reconciliados um com o outro, então estarão reconciliados com Deus. O contrário, não é verdadeiro: “portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta” (5,23-24). O que não quer dizer apenas que o esposo deve se levantar e sair da Igreja para procurar a sua esposa e se reconciliar com ela. Ela pode estar ali, do seu lado, dentro da Igreja. Então, a reconciliação se dá também quando um não guarda ódio do outro no coração. O importante é que o coração esteja livre, aberto, para que o próprio Deus possa penetrar nele através da Comunhão. Ainda porque muitas vezes o próximo não quer saber de reconciliação.

É por meio do perdão que o casal pode novamente participar da Comunhão. E é a Comunhão que os sustenta e anima para que possam continuar vivendo em comunhão consigo mesmos, com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Por isso, o casal não deve deixar de comparecer diante de Deus para comungar pelo menos aos domingos. O domingo é o dia do Senhor: “neste dia, pois, os cristãos devem reunir-se para, ouvindo a palavra de Deus e participando da Eucaristia, lembrarem-se da Paixão, Ressurreição e Glória do Senhor Jesus e darem graças a Deus que os ‘regenerou para a viva esperança, pela Ressurreição de Jesus Cristo entre os mortos’” (1Pd 1,3; SC, 698). O marido e a esposa têm toda a semana para cuidar de suas coisas. Eles trabalham, talvez estudam e realizam diversas atividades semanais. Mas, no dia do Senhor, devem reservar pelo menos uma hora para ir à Igreja: “sem dúvida, são poucos os casais de noivos que, quando se casam ‘pela Igreja’, como comumente se diz, possuem um conhecimento sério do sentido profundo e peculiar do sacramento do matrimônio que mutuamente dão e recebem. Talvez nem mesmo saibam que eles se comprometem com Cristo, n’Ele e por Ele, a trabalhar para que o amor que os une seja um visível reflexo do mesmo amor divino que o Pai, em Cristo e por seu Espírito, oferece a todos os seres humanos” (Fabbri, 25). Assim, estarão recordando o próprio exemplo de Jesus Cristo que tinha o costume de ir à sinagoga, em dia de sábado: “e, chegando a Nazaré, onde fora criado entrou num dia de sábado, segundo o seu costume, na sinagoga, e levantou-se para ler” (Lc 4,16).

E é fundamental que participem da Missa juntos: “sendo a graça e o conhecimento religioso-moral do casamento e da família tão básicos, o papel da Igreja na reconstrução da família é igualmente básico” (Clemens, 291). Família que reza unida permanece unida. Se um vai para um lado e o outro para o outro, então a divisão já começa a se fazer presente. Se eles ouvem a palavra de Deus juntos, logo terão a força necessária para vivenciá-la no dia-a-dia, principalmente depois do sacramento eucarístico: “por ele, perpetua pelos séculos, até que volte, o sacrifício da Cruz, confiando destarte à sua Igreja, sua dileta Esposa, o memorial de sua morte e ressurreição: sacramento da piedade, sinal da unidade e vínculo da caridade, banquete pascal, em que Cristo nos e comunicado em alimento, o espírito é repleto de graça e nos é dado o penhor da futura glória” (SC, 47).

Os antigos dizem que se um boi vai para um lado e o outro para o outro, então o carro não anda. Ele pode parar, acontecer um acidente. É através da participação da Missa que eles entendem o valor da Comunhão e da Confissão: “Jesus não é acaso um dom gratuito? – ‘Deu-nos o seu próprio Filho’. Não só na cruz, mas na Eucaristia. E não uma vez apenas. Quantas... não só a você, mas também a sua esposa e a seus filhos. E não só a Eucaristia, como também o perdão dos pecados. Quem jamais pagou pelo perdão? Deus perdoa gratuitamente e cumula o coração de profunda consolação” (Pastore, 7).

Durante a celebração eucarística eles fazem as pazes por meio do Abraço da Paz. Eles comungam juntos. Com isto, dão um testemunho para a comunidade: “por isso, eles não ‘recebem’ o amor de Cristo tornando-se comunidade ‘salvada’, mas antes são chamados a ‘transmitir’ o amor de Cristo aos irmãos, tornando-se comunidade ‘salvadora’. Dessa maneira, enquanto fruto e sinal da fecundidade sobrenatural da Igreja, a família cristã converte-se em símbolo, testemunho e participação da maternidade da Igreja” (Martini, 63). Se forem de religião diferente, então, cada um é convocado a participar da sua no dia consagrado ao Senhor. Ao gerarem filhos colaboram com a Criação: “a fecundidade é o florescimento, o dom da conjugalidade. Não podemos entender a fecundidade isolada da conjugalidade. A procriação é a redundância – no sentido de fruto conseqüente – da conjugalidade. Este é o sentido que tem a fecundidade dentro da compreensão antropológica do Concílio Vaticano II” (Vidal, 129).

Os filhos também são influenciados pelos pais que rezam unidos. Oração que deve ser continuada no dia-a-dia não apenas no sentido religioso. O que corresponde também à educação que são chamados a dar-lhes: “os cônjuges sabem que no ofício de transmitir a vida e de educar – o qual deve ser considerado como missão deles própria – são cooperadores do amor de Deus Criador e como que seus intérpretes. Por isso desempenharão seu múnus com responsabilidade cristã e humana e, num respeito cheio de docilidade para com Deus, formarão um juízo reto, de comum acordo e empenho, atendendo ao bem próprio e ao bem dos filhos, seja já nascidos, seja que se prevêem nascer, discernindo as condições sejam materiais, sejam espirituais dos tempos e do estado de vida e finalmente levando em conta o bem da comunidade familiar, da sociedade temporal e da própria Igreja” (GS, 50).

O terço em família é fundamental para a comunhão entre o casal: “a oração é basicamente súplica para que a vontade de Deus se realize, que seus projetos ganhem corpo em nossa vida, que nos tornemos instrumentos seus no mundo a fim de que o Evangelho seja conhecido e vivido. Por isso o melhor programa de oração aparece na súplica do Pai-nosso” (CNBB, 203). Oração que auxilia o casal a não separar a união que está no coração desde o dia que um foi feito para o outro.

A leitura e meditação da bíblia ajudam a reencontrar a cada dia o caminho a ser seguido. A leitura e meditação de um livro de espiritualidade auxiliam na reconciliação entre os dois (Charbonneau, 20-25). É dentro da Igreja que eles podem se engajar na vida da comunidade eclesial: “existem vários grupamentos e associações de leigos que buscam a vivência da espiritualidade conjugal e familiar e procuram prestar serviços às famílias em termos de orientação conjugal, planejamento familiar etc” (CNBB, 216). Podem também ajudar em uma Pastoral. Passam a servir a Deus em sinal de gratidão: “não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?” (Lc 17,18). Se um dia eles escolheram o altar de Deus para comparecem juntos, então, depois do casamento, são convidados a continuar fazendo o mesmo, pelo menos a cada domingo (Borsato, 9-19). Um é chamado a conduzir o outro a Deus. E devem fazê-lo até que a morte os separe, dando sempre glória a Deus pela criação de um para o outro. No fundo, não devem procurar a Igreja somente no dia do casamento: “no tempo de namoro, e mesmo depois de casados, iam à missa. Até que veio a primeira gravidez, a primeira criança. Aí começaram a se afastar da Igreja. Novos filhos e a prática religiosa ficou reduzida ao mínimo: iam à Igreja para o batizado dos filhos, o casamento de amigos e missas de sétimo dia” (Fernandes, 52).

No fundo, assim como em vida um conduziu o outro a Deus e prometeu-lhe amor e fidelidade não somente na alegria, mas também na tristeza, após a morte terão que comparecer diante do Criador para prestar contas da outra metade: “a fidelidade exprime a constância em manter a palavra dada. Deus é fiel. O sacramento do matrimônio faz com que homem e mulher entrem na fidelidade de Cristo por sua Igreja. Pela castidade conjugal testemunham este mistério diante do mundo” (CIC, 2365). A partir deste amor a união conjugal se torna fecunda: “um amor conjugal fecundo exprime-se num serviço à vida em variadas formas, sendo a geração e a educação as mais imediatas, próprias e insubstituíveis. Na realidade, cada ato de amor verdadeiro para com o homem testemunha e aperfeiçoa a fecundidade espiritual da família, porque é obediência ao profundo dinamismo interior do amor como doação de si aos outros” (FC, 41). Assim como o esposo prometeu amor e fidelidade não apenas na saúde, mas também na doença, após a morte ele terá que dizer para o Senhor: eis aqui a mulher que me destes como complemento: “dentro deste bem da fidelidade é que ganha sentido a castidade conjugal, a qual inclui como algo moralmente bom todas as manifestações de carinho e afeto conjugal realizadas de acordo com a natureza”(Filho, 123). E não deverá fazer como Caim quando o Senhor lhe perguntou: “onde está Abel, teu irmão?” (Gn 4,9a). A resposta foi: “não sei; sou eu guarda do meu irmão?” (Gn 4,9b).

O esposo deve saber onde está a sua esposa. Ele é chamado a honrá-la e respeitá-la em vida para que, depois da morte, possa de novo conduzi-la até ao altar eterno de Deus onde não haverá mais divisão. Viverão eternamente em Comunhão. Portanto, não haverá mais necessidade de se unirem em matrimônio: “mas os que forem tidos como dignos de alcançar o mundo vindouro, e a ressurreição dentre os mortos, nem hão de casar, nem ser dados em casamento; porque já não podem mais morrer; pois são iguais aos anjos, e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição” (Lc 20, 35-36). Estarão eternamente unidos, assim como já estavam desde a origem (Guimarães, 9-17). Mas antes eles devem percorrer este vale de lágrimas. Contudo, não estarão sozinhos.

 

Jesus Cristo como fundamento da vida matrimonial

O fundamento do casal deve ser Jesus Cristo. E não apenas o Jesus glorioso, mas também aquele crucificado. Como foi dito, inicialmente tudo parecia perfeito. O casal não conhece a divisão. Os anos de namoro e noivado, os primeiros anos de casamento podem parecer o paraíso antecipado aqui na terra (Scheid, 3-30). E realmente o é enquanto vivem em integração. Contudo, com o passar dos anos eles começam a enjoar um do outro. O casamento que antes era um sonho se torna um pesadelo. Aquela que era amada, passa a ser odiada. O príncipe se transforma em um “sapo”. A princesa encantadora se transforma em uma “bruxa”. É o que acontece não apenas nos contos de fada, mas também na vida real. A que era vista como única no mundo passa a dar lugar a outras.

É em Jesus Cristo que o casal pode superar a sua solidão. É por meio dele que os dois aprendem a perdoar. Com efeito, Jesus Cristo ensinou aos seus discípulos a perdoar: “e, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas” (Mc 11,25).

Mas Jesus não apenas ensinou a perdoar. Isso seria muito fácil de fazer. As palavras dele se concretizaram em obras. Depois de ter feito somente o Bem, ele recebe em troca o Mal. Seus adversários o injuriaram (Lc 23,35). Ele foi coberto de escárnios. Foi preso como um ladrão: “e disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes, capitães do templo e anciãos, que tinham ido contra ele: saístes, como a um salteador, com espadas e varapaus?” (Lc 22,52). Foi humilhado: “e os homens que detinham Jesus zombavam dele, ferindo-o” (Lc 22,63). Deram-lhe como prêmio uma coroa, não de glória, mas de espinhos: “e, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-na na cabeça, e em sua mão direita uma cana; e, ajoelhando diante dele, o escarneciam, dizendo: salve, rei dos judeus” (Mt 27,29). Recebeu em face um tapa: “e, vendando-lhe os olhos, feriam-no no rosto, e perguntavam-lhe, dizendo: profetiza, quem é que te feriu?” (Lc 22,64).

Aquele que comia com ele no mesmo prato o traiu: “e foi, e falou com os príncipes dos sacerdotes, e com os capitães, de como o entregaria” (Lc 22,4). Seu primeiro discípulo e apóstolo o renegou três vezes: “e, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe havia dito: ‘antes que o galo cante hoje, me negarás três vezes’” (Lc 22,61). Seus adversários zombaram dele na cruz: “salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar-se. Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz, e crê-lo-emos” (Mt 27,42).

Os que são chamados ao matrimônio podem se perguntar: qual foi a vingança de Jesus Cristo? Ele poderia ter pedido ao seu Pai que o libertasse e destruísse todos os seus inimigos: “ou pensas tu que eu não poderia agora orar a meu Pai, e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?” (Mt 26,53). Mas a sua vingança foi o perdão: “edizia Jesus: ‘Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem’. E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes” (Lc 23,34). Somente um Deus podia agir assim. Mas nós somos filhos deste Deus. E um filho procura seguir o exemplo do pai: “Jesus nos salva. Salva-nos não a partir do exterior, mas se faz um de nós. Assume cada uma das nossas realidades humanas a fim de libertá-las do mal, revestindo-as dessa vida nova. Os cristãos estão bem convictos disto” (CNBB,109).

Então, o esposo é chamado a seguir o exemplo de Cristo que na cruz perdoa por perdoar. A esposa é convocada a reconciliar-se com seu esposo incondicionalmente. É bem verdade que às vezes o esposo humilha a sua outra metade no universo. É visível que a esposa às vezes se torna uma cruz para o seu marido. Pode acontecer até mesmo a traição entre eles, embora essa não seja a vontade de Deus. Um pode até mesmo renegar o outro. Pode acontecer que a esposa receba um tapa na cara do seu marido. Ela pode chegar ao ponto de crucificá-lo vivo, deixá-lo sem saídas, de mãos atadas. Contudo, nesta hora eles não têm desculpas. O remédio para curar estes males já existe.

Geralmente, quando alguém está doente a primeira coisa que faz é procurar um médico. Este lhe dá uma receita. Uma vez tomando o remédio prescrito, pode-se obter a cura da enfermidade. A receita para sanar a chaga provocada pelo ódio não é comprada na farmácia, mas já se tornou acessível. O caminho, a verdade e a vida já foram indicados: “disse-lhe Jesus: eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14,6). Basta seguir o exemplo de Cristo que na cruz perdoa a todos (Lc 23,34). Ele conquista toda a humanidade, não por meio da violência, mas sim pela via do perdão. Basta olhar para o que fizeram com ele: “porque, se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?”(Lc 23,31).

Basta concentrar-se na cruz para que o esposo possa perdoar a sua esposa e recomeçar tudo de novo. E perdoar não apenas uma vez, mas infinitamente (Mt 18,22). Afinal de contas um é tudo para o outro. Sem ele a vida perde o sentido para ela. Pela experiência que os casais separados nos transmitem, tudo fica triste, sem sabor! A saída é uma só: a reconciliação. E um dos dois deve dar o primeiro passo. Quem ofendeu é chamado a ceder. E às vezes até mesmo quem foi ofendido é chamado a abrir-se ao diálogo: “o homem não é coisa, mas pessoa. É ser aberto, é feito para a comunicação. Precisa de outros e incessantemente busca comunhão, comunicação, troca de experiências mais ou menos profundas. Tem necessidade de dar e receber, de estabelecer intercâmbio entre as pessoas. Se o homem é destinado ao encontro precisará viver em atmosfera de diálogo. Somente no encontro, fomentado pelo diálogo, é que o homem se realiza” (CNBB, 142). O diálogo proporciona o reconhecimento do erro. A quem for pedido o perdão, o mesmo não deve ser negado. O que se constituirá num bem mútuo entre o casal. Será um bem também para os filhos, para a família, para a Igreja, enfim, para o mundo: “o que mata o amor é o silêncio. Não sei o que farão outros casais: nós dialogamos. Falar é muito importante. É a chave. Ainda que a gente esteja com a ‘cara fechada’ e o outro esteja antipático, é preciso falar. O silêncio, a falta de diálogo, é o que destrói os matrimônios” (Cifuentes, 46).

Mas o casal não deve ter Jesus Cristo como fundamento somente quando se trata de reconciliação.

 

Jesus Cristo como fundamento da perseverança do casal

O casal assume diante de Deus um compromisso de perseverar até o fim, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença: “desde modo, tornam-se templo do Espírito. As alegrias e as dores, as dificuldades e as desilusões, o nascimento e a morte etc, tudo se torna sacrifício espiritual agradável a Deus, em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo” (Martini, 62). O sofrimento não será em vão, pois existe um prêmio no final. E não se trata de uma promessa, mas de uma certeza: “esereis odiados por todos por amor do meu nome; mas quem perseverar até ao fim, esse será salvo” (Mc 13,13).

Jesus tinha uma missão a cumprir: dar a vida pela salvação da humanidade. E ele a cumpriu até o fim. E não quer dizer que foi simples para ele ser fiel até as últimas conseqüências: “e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). Ele chegou à extrema agonia antes de ser crucificado para a nossa salvação. Chegou ao ponto de pedir ao seu Pai que afastasse dele aquele cálice: “edisse: ‘Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice’” (Mc 14,36a). E se tratava do cálice do seu sangue que estava para ser versado na cruz. O sangue da nova e eterna Aliança derramado por todos para a remissão dos pecados. Suou sangue antes de passar por tal morte, a mais cruel de todas na época: “e, cheio de angústia, orava com mais insistência ainda, e o suor se lhe tornou semelhante a espessas gotas de sangue que caíam por terra” (Lc 22,44).

O casal também pode chegar ao ponto de querer jogar tudo para cima. O que geralmente não acontecia no tempo de namoro, noivado e primeiros anos de matrimônio. A esposa pode dizer: “Senhor eu não suporto mais a minha dor!” Ela pode pedir a Deus que afaste dela aquela angústia provocada pelo peso da cruz. Ou pode dizer ainda: “não dá mais, eu prefiro voltar atrás. É melhor desistir de tudo!” A pergunta dela pode ser: “por quê tenho que continuar suportando o meu esposo?” Também pode perguntar: “por quê tenho que continuar dando a minha vida para salvar o meu matrimônio?” O esposo pode perguntar ainda: “por quê tenho que me sacrificar para manter a minha família? Onde foi que eu errei?”

Jesus Cristo, na hora de sua última agonia no Getsêmani, não entregou os pontos. Por isso diz em seguida: “porém, não seja feito a minha vontade, mas a tua” (Mc 14,36b). Do mesmo modo, a esposa que antes de tudo se dispôs a seguir Jesus Cristo é chamada a imitar o seu exemplo: “o cristão vive em comunidades de fé, esperança, caridade, oração. Vive com irmãos e para os irmãos. Acredita na presença do Senhor e seu Cristo no meio da comunidade do mundo. O cristão é, sobretudo, o seguidor do Mestre do sermão das bem-aventuranças” (CNBB, 108). Na hora de sua dor deve perseverar até o fim pedindo a Deus para que seja feita a vontade dele e não a dela. Isto porque “quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reino dos céus” (Lc 9,62).

A vontade da esposa nesta hora seria abandonar tudo e separar o que Deus uniu desde o princípio. A vontade do esposo pode ser a de se separar da sua outra metade. Porém, a vontade de Deus já foi demonstrada no dia do matrimônio. Neste dia os dois assumiram um compromisso por toda a vida. E Deus confirmou este bom propósito quase que dizendo: “de minha parte é isto que eu quero para vocês!” É como se Deus dissesse: “eu criei um para o outro e por isso vocês já estão unidos desde o ventre materno!” No Deus de Jesus Cristo está, acima de tudo, o fundamento da vida familiar.

 

O adversário que provoca a separação

A voz que clama por separação não é a de Deus. A voz de Deus não é pronunciada para dividir, mas sim para unir ou confirmar o que ele uniu. Nem Deus separa o que ele uniu. De quem é esta voz então? É a do seu adversário, o diabo. A palavra diabo, em grego diá-bolos, quer dizer justamente aquele que divide. Ele vem então para dividir o que Deus uniu. É ele que interiormente diz para a esposa: “não vale a pena, não tem sentido o seu sofrimento!” Ele também pode provocar a divisão através da consciência do esposo: “você está sofrendo em vão, separe-se de sua esposa!” Ou pode dizer ainda para a esposa: “por quê você não se livra desta cruz, deste matrimônio, pois está acabando com sua saúde em vão, está destruindo a sua vida?” A proposta do diabo pode ser: “salve-se enquanto é tempo!” Ele pode também falar ao casal por meio de uma outra pessoa: “eu já me separei, separe-se você também!”

Uma vez que acreditamos na existência de Deus, devemos acreditar também na existência do seu adversário, o demônio. Foi ele quem tentou Jesus antes do início do seu ministério público, dizendo-lhe: “dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares, tudo será teu” (Lc 4,6-7). Ele queria facilitar as coisas para Jesus Cristo. Disse-lhe que não precisava suar para entrar na glória eterna. Bastava adorá-lo. Disse-lhe que não era necessário iniciar seu ministério tendo que pagar com o preço da própria vida para receber a coroa eterna. Bastava prostrar-se diante dele que tudo seria facilitado.

Porém, a resposta de Jesus Cristo é: “vai-te para trás de mim, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Lc 4,8). Quase a mesma resposta dada a Pedro quando este não queria que Jesus sofresse a morte de cruz: “para trás de mim, Satanás! Tu me serves de pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens!” (Mt 16,23). Jesus não tenta a Deus! Ele não duvida da sua vontade, mesmo que tenha que dar a sua própria vida para cumpri-la, portanto se entrega em suas mãos para que o seu Plano se cumpra (Lc 22,42). Por isso, seu verdadeiro alimento consiste em fazer a sua vontade: “eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou” (Jo 5,30).

Depois de vencida as tentações do seu adversário, Jesus inicia seu ministério e dá a sua vida para a nossa salvação. Mostra a todos os casais o que se deve fazer na hora da tentação. E depois disso Deus o ressuscita e, aí sim, lhe dá como recompensa todos os reinos da terra. Mas somente depois de pedir a Deus que fosse feita a vontade dele (Lc 22,42). Somente depois de muito sofrimento ele chega à glória eterna. Não existe vitória sem sofrimento e até mesmo derrotas!

O diabo vem para tornar acessível todas as coisas. Vem para oferecer uma recompensa sem sofrimentos. Para ele a recompensa deve ser conquistada a preço baixo e aqui e agora. É essa voz interior ou exterior que diz para o esposo ou para a esposa: “não vale a pena, não tem sentido!” Ou ainda: “por quê você não parte para a traição?”

Assim como permitimos que Deus entre no nosso coração para fazermos o Bem, podemos também permitir que o demônio entre dentro de nós para fazermos o Mal. Foi assim que ele entrou no coração de Judas induzindo-o a trair Jesus: “entrou, porém, Satanás em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, o qual era do número dos doze” (Lc 22,3). E Judas se deixou levar por ele e o resultado final foi a sua perdição: “eele, atirando para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar” (Mt 27,5).

Do mesmo modo que satanás fez de tudo para acabar com a missão de Jesus Cristo, ele também faz de tudo para destruir um lar. E ele vem justamente depois de alguns anos de casamento. O tombo é maior neste momento. O contra-testemunho para a comunidade se torna um fermento que destrói a vida dos filhos e de muitos outros lares. É um fermento que vai destruindo aos poucos. Mas o adversário de Deus vem de maneira especial quando o casal está se aproximando da morte. E ele não age livremente, mas com a permissão de Deus. Foi assim com Jó. Contudo, satanás não o tentou sem a permissão de Deus: “edisse o Senhor a satanás: eis que tudo quanto ele tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do Senhor” (Jó 1,12).

São Francisco de Assis não se casou, mas estava para concluir a sua missão de seguir Jesus Cristo de modo pobre, obediente e casto (1Rg, 1,1). Dois anos antes de sua morte, precisamente no monte Alverne, em Assis, na Itália, ele entra na sua maior agonia: “se os frades soubessem tudo o que os demônios me fazem sofrer, nenhum deles deixaria de sentir a maior compaixão e piedade de mim” (LP, 93). Parecia que ele tinha errado tudo. Que tinha sido tudo em vão. O demônio já tinha falado com ele por meio de alguns de seus confrades que diziam que sua forma de vida era dura demais: “mas, ao apresentá-las depois a seus frades, eles achavam-nas insuportáveis e duras, porque ignoravam o que se ia passar depois na Ordem, após a sua morte” (LP, 68).

Por fim, o adversário de Deus induz são Francisco ao suicídio. Até hoje existe no monte Alverne o precipício onde o demônio induziu o santo de Assis a se atirar do alto. No fundo ele queria que ele se precipitasse, que jogasse tudo para cima, que destruísse num segundo tudo o que fizera com tanto sacrifício para a salvação da humanidade. E, se ele tivesse ouvido a voz do diabo teria destruído tudo o que tinha construído com suor e lágrimas, num passe de mágica. Mas o que ele faz?

A atitude do santo de Assis foi a de ir para os pés do crucificado e pedir-lhe que falasse com ele. Pede a Jesus que lhe dê uma resposta. E a resposta de Deus ao demônio foi dada através dos estigmas. Ironicamente a capela dos estigmas de são Francisco está construída, até hoje, há mais ou mesmo dez metros do lugar onde ele foi tentado pelo diabo. No mesmo morro onde ele recebeu as chagas de Jesus Cristo.

Tudo aconteceu como se Deus dissesse ao seu adversário, o demônio: “ele não errou. Ele fez tudo tão Bem que se conformou ao meu Filho. O sinal são as mesmas chagas que o meu Filho recebeu ao morrer na cruz!” E este já era um desejo antigo do santo de Assis que surgiu quando ele estava no início de sua missão. Ele queria sentir o mesmo amor que o seu Senhor sentiu ao morrer na cruz. Então, “suas mãos e pés pareciam atravessados bem no meio pelos cravos, aparecendo as cabeças no interior das mãos e em cima dos pés, com as pontas saindo do outro lado. Os sinais eram redondos no interior das mãos e longos no lado de fora, deixando ver um pedaço de carne como se fossem pontas de cravos entortadas e rebatidas, saindo para fora da carne. Também nos pés estavam marcados os sinais dos cravos, sobressaindo da carne. O lado direito parecia atravessado por uma lança, com uma cicatriz fechada que muitas vezes soltava sangue, de maneira que sua túnica e suas calças estavam muitas vezes banhadas no sagrado sangue” (1C, 94).

Deus agiu assim para não deixar são Francisco sem resposta e, para que o mundo soubesse que ele existe e que não abandona os que nele confiam. O fez para que os casais saibam que ele estará do lado daqueles que prometem amor e fidelidade diante dele até que a morte os separe: “essa união íntima, doação recíproca de duas pessoas, e o bem dos filhos exigem a perfeita fidelidade dos cônjuges e sua indissolúvel unidade” (GS, 350). Ele estará com eles todos os dias. Deus realiza estes prodígios para que o esposo e a esposa saibam que, mesmo que cheguem a experimentar a última agonia, mesmo que suem sangue, ele não deixará de cumprir as suas promessas. Se não o fizer nesta vida, o fará ressuscitando-os para a vida eterna, como fez com seu próprio Filho.

Então, é isso que o esposo deve fazer quando está para separar-se: ir para os pés do crucificado e pedir para que ele o ajude. Não deve pedir ajuda àqueles ou àquelas que vão desorientá-lo do caminho da fidelidade até o fim, mas sim a Deus.

A resposta de Deus já é conhecida: “eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mt 28,20). E por fim: “na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar” (Jo 14,2). É o mesmo que se Deus dissesse: “suportem tudo até o fim! Mantenham a palavra de vocês: “o par conjugal forma uma íntima comunidade de vida e de amor fundada e dotada de leis próprias pelo Criador. Ela se estabelece sobre a aliança dos cônjuges, quer dizer, seu consentimento pessoal e irrevogável” (GS, 350). No final haverá uma recompensa eterna.

Mas se o esposo se deixar levar pela voz do diabo e abandonar sua esposa, a recompensa pode ser o sofrimento eterno! O mesmo começa  desde já! Se ele abandona sua cruz por achá-la pesada demais, a outra cruz que deverá assumir será mais pesada ainda. Se a esposa quiser salvar a sua fvida na hora de sua agonia, o resultado será a sua perdição: “porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á” (Mt 16,25).

Mas como explicar quando o casal se separa e a mulher se une a um outro homem e é feliz com ele? É porque no fundo o primeiro matrimônio não existiu. Tanto é que ela pode conseguir a nulidade matrimonial e se casar novamente. Contudo, só existe um para ela. Se o matrimônio foi nulo é porque não era aquele o homem de sua vida. Mas pode acontecer que tenha sido.

Portanto, somente o coração de cada um ou cada uma poderá dizer quem é. E é difícil entender um Deus que depois de alguns anos de matrimônio diz para a esposa: “não é esta!” Ou mesmo que diga depois dos filhos já criados: “eu errei, separe-se que eu apresentarei uma outra que criei para você!” Deus não joga conosco! Ele não brinca em serviço! Ele fala uma vez só. Não morreu na cruz para nos iludir. Ele não iria dizer ao casal, depois de ter gerado dois ou mais filhos, que não vale mais a pena continuar.

 

SUMÁRIO

Como vimos ao longo do presente artigo, Deus criou para o homem uma única mulher como complemento. Dentro dessa união estável não é Deus quem diz que é melhor voltar atrás, começar tudo de novo: “aquele que põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reino de Deus” (Lc 9,62). O conselho de Jesus, o Deus que se fez carne e veio habitar em meio a nós, consiste em convidar a caminhar em frente, sem olhar para trás depois do compromisso assumido. A separação pode acontecer por causa da dureza do coração dos dois (Mt 19,8). A divisão pode se fazer presente por que os dois não superam as dificuldades em aceitar as diferenças um do outro.

O orgulho que impede ceder, perdoar, pode contribuir para a mesma. O que não é obra de Deus. E mesmo que se separem, o seu Plano não muda, pois para o homem foi criado uma única mulher (Gn 2,18). Portanto, é melhor seguir a voz do coração e fazer de tudo para não separar o que ele uniu (Mt 19,6). Pois, se um foi criado para o outro, a separação será apenas exterior. Diante de Deus eles continuam unidos. É uma chance única! É como encontrar uma agulha no palheiro.

E se o homem perder de vista a sua outra metade, poderá encontrar outra mulher. Mas não será jamais a carne de sua carne e os ossos de seus ossos (Gn 2,23). Será uma amiga, uma companheira. Ela não o complementará em todos os sentidos, até mesmo naquele religioso. É assim que Deus entende a união estável. Por isso, posteriormente pretendemos apresentar uma reflexão religiosa e psicológica sobre o tema tratado no artigo que ora terminamos, mas que abre caminhos para outras abordagens.

 

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