Uma janela sobre o mundo bíblico

O texto original da Bíblia



  • Estudo
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  • 02/10/2010
Luiz da Rosa

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A crítica textual é um tema muito conhecido entre os biblistas e praticamente ignorado pelo público. Já tentamos dar alguma linhas introdutivas ao tema e inclusive apresentamos um exemplo, João 6,47.

Não existe mais a Bíblia original, o texto escrito pelas mãos dos autores sagrados. Existem, invés, diversos manuscritos, alguns mais recentes outros mais antigos, que trasmitem o texto bíblico, em pedaços. E a curiosidade é que se poderia dizer que não existem dois manuscritos, sopretudo do Novo Testamento, que sejam exatamente iguais e interamente idênticos. Alguém que quer estudar bem um texto bíblico, uma das primeiras coisas que precisa fazer é ter certeza que o texto que tem diante de si concorda com aquele saído das mãos do escritor inspirado. Esse é o trabalho da crítica textual, que atingiu um grau de especialização muito elevado. Não precisamos começar esse trabalho, pois temos a disposição excelentes obras que recolhem o resultado dos esforços dos cientistas, sobretudo as obras “Biblia Hebraica Stuttgartensia” para o Antigo Testamento e “Nestle-Aland” para o Novo Testamento.

A Bíblia, antes de ser um conjunto de textos, era pequenas obras individuais. E antes de ser um livro de tipo moderno, como aqueles que saem das editoras, era papiro ou pergaminho, manuscritos. Antigamente todos os manuscritos eram copiados à mão, por pessoas mais ou menos preparadas e professionais, que faziam esse trabalho durante diversas horas. Por isso é óbvio pensar que o trabalho deles teve erros técnicos involuntários e casuais que fazem parte do processo normal de transmissão manuscrita dos documentos. Podemos também encontrar erros que aos nossos olhos parecem ser questões gramaticais, mas, quem sabe, são frutos de antigas pronúncias regionais.

Quando se copia um texto à mão de um manuscrito, contendo milhares de palavras, é inevitável e compreensível cometer erros de transcrição. Esses erros podem ser erros gramaticais ou omissões de palavras, ou inteiras frases, por causa de distrações ou trocas acidentais de letras e pulos de linhas durante a cópia de um texto. Às vezes, por distração, algumas palavras ou letras foram substituídas na cópia por outras muito parecidas. Alguns textos copiados também podiam estar em péssima condição de conservação e a leitura então era difícil. Também o cansaço podia afetar os escribas que copiavam livros inteiros.

Ao lado dos erros “técnicos”, que representam a maioria das diferenças entre os manuscritos, existem as alterações voluntárias, particularmente significativas nos casos dos textos religiosos, por diversos interesses. As alterações voluntárias são as manipulações mais perigosas que se produziram durante o processo de cópia, pois conduziram a uma transmissão anormal do texto. A razão de ser dessas alterações, por um lado, é por que os copistas não se limitavam a copiar o texto, mas pretendiam melhorar a prosa do texto e o estilo e, por outro lado, alguns escribas inseriam no texto bíblico modificações por razões doutrinais e teológicas, ou ainda, para resolver contradições e problemas.

Todos os manuscritos antigos eram escritos usando a técnica da escritura continua, ou seja, todas as palavras eram grudadas umas às outras e sem nenhum acento ou sinal gráfico. Isso, além de tornar a leitura muito pesada, podia gerar involuntariamente confusões e dilemas na interpretação do escrito.

Por exemplo, em Marcos 10,40, temos, no final do versículo, a frase em grego: ALLOICHTOIMACTAI (alloisetoimastai). Em português pode ser traduzida como “mas é para aqueles aos quais isso foi destinado”. Todavia, essa sequência de palavras poderia também ser interpretada simplesmente como alloi to mastai, que significa “foi preparado para outros”, que tem outro sentido. Normalmente o versículo de Marcos 10,40 é traduzido conforme a primeira hipótese: “O assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não cabe a mim concedê-lo, mas é para aqueles aos quais isso foi destinado”. Invés, se fosse traduzido conforme a segunda hipótese, a frase seria mais ou menos assim: “O sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não cabe a mim concedê-lo; foi preparado para outros”.

Outro erro clássico provem do inserimento acidental de notas à margem do texto. Antigamente não existia o conceito editorial de notas ao pé da página como temos hoje. Por isso, acontecia que o proprietário de um texto escrevia notas pessoais ou observações sobre a sua folha, no meio do texto. Depois, quando estes manuscritos eram usados como fontes para copiar o texto para outro manuscrito, podia acontecer que o copista colocasse essas notas como texto, embora elas não pertencessem ao documento original.

Um provável exemplo deste engano encontramos em João 5,2-4, cujo texto diz: (2)Existe em Jerusalém, junto à Porta das Ovelhas uma piscina que, em hebraico, se chama Bethzata, com cinco pórticos. (3)Sob esses pórticos, deitados pelo chão, numerosos doentes, cegos, coxos e paralíticos ficavam esperando o borbulhar da água. (4)Porque o Anjo do Senhor se lavava, de vez em quando, na piscina e agitava a água; o primeiro, então, que aí entrasse, depois que a água fora agitada, ficava curado, qualquer que fosse a doença.

A segunda parte do texto, o versículo 4, não aparece em todos os manuscritos e em algumas traduções é colocada entre colchetes. No contexto do discurso parece, de fato, uma nota ou uma consideração, que foi inserida como parte do texto por um copista. Bastou que um escriba realizasse uma cópia deste texto e assim ele chegou até nós.

As alterações voluntárias representam o maior inimigo contra o qual a crítica textual tem que combater. Não é simples estabelecer se uma alteração foi inserida voluntariamente para forçar um texto a dizer certa idéia ou se efetivamente a frase é autêntica e existia também nas primeiras cópias do texto e foi desejada pelo autor. A este propósito, já no século III e V, Origem e Jerônimo escreviam sobre esse tema:

Origem (185-250 d.C.), Commentário a Mateus, 15.14 – As diferenças entre os manuscritos dos Evangelhos se tornaram grandes, seja pela negligência de alguns copistas, seja pela malvadeza de outros; esses ou deixaram de corrigir aquilo que transcreveram ou, enquanto corrigiam, alongavam ou abreviavam, segundo seus juízos.

S. Jerônimo (340-420 d.C.), Epístola LXXI, 5 – Os copistas transcreviam não aquilo que encontravam, mas o que consideravam ser o significado e, enquanto tentavam corrigir os erros dos outros, revelam os próprios.

Algumas alterações voluntárias podem parecer inócuas: mudança de estilo de algumas passagens na forma, mas não na substância, melhoramento da lógica do texto que se tornou arcaico. Mas grave, invés, são as harmonizações que acontecem quando existem muitos manuscritos que se diferenciam entre si em diferentes pontos: muitas vezes a tendência é construir um novo texto que englobe todas as variantes e, assim, ao material original se mistura muitos textos não autênticos, com o resultado que o texto fica mais corrompido. Sabe-se, por exemplo, que Origens mudou o texto grego da Bíblia dos LXX para harmonizá-lo com aquele hebraico que existia naquele tempo, pois entre os dois tipos de textos se notavam diferenças que começam a ter um certo peso.

Mudanças deliberadas foram introduzidas em muitos textos da antiguidade. No caso dos livros religiosos logicamente existe sempre o problema das modificações introduzidas por motivos doutrinais e teológicos ou mesmo para esconder certos problemas difíceis de resolver. Uma coisa é copiar e transmitir uma poesia ou uma tragédia de um autor clássico, que não abrange pontos chaves tais como a fé ou interpretações de fatos sobrenaturais. Nesses casos é normal encontrar erros normais de transmissão e poucas variações inseridas voluntariamente no texto. Não teria motivo para mudar um texto de uma poesia. Mas, no caso dos textos tidos como sagrados, é evidente que existiu a tentação de modificar uma passagem para sustentar o ponto de vista teológico de uma determinata escola de pensamento sobre problemas de grande influência moral e filosófica.

A tal propósito, é emblemático uma das passagens conclusivas do Apocalipse (22:18-19): A todo o que ouve as palavras da profecia deste livro, eu declaro: “Se alguém lhes fizer algum acréscimo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. E se alguém tirar algo das palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará também a sua parte da árvore da Vida e da Cidade santa, que estão descritas neste livro!”

Também na Seconda Carta de Pedro lemos (3:15-16): “É verdade que em suas cartas se encontram alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes torcem, como fazem com as demais Escrituras, para a própria perdição”.

Citando um exemplo, quem dispunha de um manoscrito sem o fim de Marcos que hoje conhecemos, vendo que os outros evangelhos descreviam as aparições de Jesus depois da ressurreição, podia ser levado a harmonizar o fim daquele livro inserindo um lembrete sobre essas diversas conclusões, modificando o texto de Marcos, inserindo uma conclusão que não pertencia ao evangelista.

Hoje não podemos estudar materialmente os textos originais da Bíblia. Graças à Qumran, alguns textos do Antigo Testamento que temos são bem antigos. Em relação ao Novo Testamento, do I e do II séculos, nada foi conservado. Existem somente pequenos fragmentos de papiro. O mais antigo, aceitado de forma unânime pelos expertos, é o papiro Rylands P52, que se encontra na John Rylands Library, em Manchester, que foi publicado em 1934. Esse papiro traz algumas palavra do diálogo entre Jesus e Pilatos antes da crucificação. A sua data se coloca entre o ano 125 e 175.

Há alguns problemas de crítica textual que precisam ser considerados na hora de interpretar a Bíblia. Mas temos a segurança de pesquisas importantes que nos indicam qual conclusão tomar diante dos problemas textuais que o longo período de transmissão da Palavra de Deus não pode evitar.

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