O Serm√£o da Montanha √© o serm√£o do Reino de Deus. Um Reino que se op√Ķe ao reino humano e √†s suas perspectivas ego√≠stas. Mateus pede no Serm√£o da Montanha, atitudes diferentes das atitudes mundanas, isto √©, amor aos inimigos e ora√ß√£o para aqueles que os perseguem. Este √©, segundo a mensagem mateana, o sentimento que deve perpetuar no cora√ß√£o daquele que fizer a op√ß√£o pelo reino dos c√©us, isto √©, reino dos pobres. ‚??Voc√™s ouviram o que foi dito: ‚??Ame o seu pr√≥ximo e odeie o seu inimigo‚??. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem...‚?Ě (Mt 5, 43-44). Ou ainda: ‚??Bem-aventurados os perseguidos por causa da justi√ßa, pois deles √© o Reino dos C√©us‚?Ě (Mt 5, 10).

Desse modo, ‚??Tudo o que est√° no serm√£o da Montanha encontra-se igualmente no Talmude e bem mais ainda‚?Ě (JEREMIAS, 1976, p. 10). Contudo, n√£o h√° paralelo entre o Serm√£o da Montanha e o Talmude acerca da ‚??bem-aventuran√ßa dos pobres, da proibi√ß√£o do div√≥rcio, do tapa no rosto, da f√≥rmula breve e clara ‚??amai vossos inimigos‚??, da alegria na penit√™ncia (Mt 5, 3. 32.39.44; 6, 16-18) e de in√ļmeras outras palavras‚?Ě (JEREMIAS, 1976, p. 11). Al√©m do mais, Jesus chega a se opor √† Tora quando a critica nas seis ant√≠teses em que se op√Ķem a antiga Lei em oposi√ß√£o √† nova vontade de Deus: ‚??Ouvistes... eu por√©m vos digo...‚?Ě. A Lei era, do ponto de vista do juda√≠smo, considerada inflex√≠vel o que leva-nos a compreender que todas as prescri√ß√Ķes, inclusive as que Mateus d√° a Jesus, eram consideradas interpreta√ß√Ķes da Tora, pois a regra de ouro √© acompanhada da senten√ßa: ‚??pois esta √© a lei e os Profetas‚?Ě omitida no Serm√£o da Plan√≠cie por este se dirigir a convertidos do paganismo.

N√£o se trata, por√©m, de uma persegui√ß√£o entre judeus (fariseus) e crist√£os, tendo como ponto de partida as discuss√Ķes teol√≥gicas, por mais que existissem, principalmente porque, naquele contexto, existiam muitos grupos de judeus que faziam interpreta√ß√Ķes diferenciadas da Tora. O texto traz uma s√©rie de ditos que ap√≥iam a validez incondicional da lei: ‚??Aquele, portanto, que violar um s√≥ destes menores mandamentos... ser√° chamado o menor no Reino dos C√©us‚?Ě (5, 19); ‚??Portanto, fazei e observai tudo quanto (os escribas e os fariseus) vos disserem‚?Ě (23,3).

O tema da didaqu√© do Serm√£o da Montanha √©, portanto, o comportamento do crist√£o em oposi√ß√£o ao dos seus contempor√Ęneos judeus. Encontra-se exposto em Mt 5, 20: ‚??Se vossa justi√ßa n√£o for maior que a dos escribas e fariseus, n√£o entrareis no Reino dos C√©us‚?Ě. Aparentemente parece existir uma certa igualdade entre esses dois grupos, no entanto, os escribas s√£o mestres de teologia enquanto os fariseus s√£o leigos piedosos, comerciantes, oper√°rios, artes√Ķes, etc. Mt 5, 20 apresenta tr√™s tipos de justi√ßa, isto √©, a justi√ßa dos te√≥logos (Mt 5, 21-48), dos leigos piedosos (Mt 6, 1-18) e dos seus disc√≠pulos (Mt 6, 19-7, 27). Esses ensinamentos prop√Ķem, pois, a forma√ß√£o crist√£, a instru√ß√£o dos catec√ļmenos na doutrina√ß√£o dos rec√©m-batizados presentes no Serm√£o da Montanha, considerado por Joaquim Jeremias (1967) como um catecismo para uma situa√ß√£o concreta (Sitz im Leben), isto √©, uso dos aspirantes ao batismo ou dos ne√≥fitos.

Tendo em vista a conduta dos disc√≠pulos, Mt 5, 21-48 apresenta instru√ß√Ķes de Jesus a partir das seis ant√≠teses relacionadas aos dom√≠nios da exist√™ncia, tais como a atitude para com o irm√£o, mulher e relacionamento conjugal e a sinceridade no falar e a postura diante dos inimigos. Em termos de exemplifica√ß√£o, ao se referir ao div√≥rcio, Mt 5, 32-33, o autor tratou de apresentar uma atitude extremamente severa de Jesus quando determinantemente proibia o div√≥rcio porque al√©m de afetar uma lei civil conquistada por Israel que garantia prote√ß√£o √† mulher que, numa situa√ß√£o de libelo de rep√ļdio, era desprotegida, mas, acima de tudo, soava como uma cr√≠tica √† Tora (Dt 24, 1).

No preceito de amor aos inimigos (Mt 5, 44-45), os bons e maus, em contrapartida √†s interpreta√ß√Ķes da Tora, s√£o igualmente receptores do amor infinito e incondicional do Pai que est√° nos c√©us. Outro exemplo √© o de Mt 5, 38s acerca do direito civil ou ‚??Lei do tali√£o‚?Ě que talvez no momento da reda√ß√£o do texto de Mateus, n√£o era mais aplicada literalmente. No entanto, em se tratando de fundamento do direito civil, estabelecia o grau de puni√ß√£o que deveria corresponder √† gravidade de determinado delito. Em contraposi√ß√£o a essa id√©ia, o Jesus de Mateus faz algumas exig√™ncias. Dirigindo-se aos seus disc√≠pulos, proibia-lhes de sequer queixar-se diante de uma ofensa t√£o grave e humilhante ainda hoje no mundo oriental (bofetada na face direita com o dorso da m√£o). ‚??Eu por√©m vos digo: N√£o deveis entrar em demanda com aquele que vos ofende (...)‚?Ě (Mt 5, 38).

Embora o cristianismo fosse considerado, √† √©poca, uma seita, a comunidade crist√£ apontada por Mateus como ligada ao juda√≠smo, podia, antes da separa√ß√£o do juda√≠smo, adorar seu Deus nas sinagogas judaicas e, inclusive, interpretar a lei de maneira judaica. (‚??Sereis odiados por todos os povos (Mt 24, 9)‚?Ě significa dizer que os disc√≠pulos deveriam sofrer como os judeus entre os gentios. De acordo com Lohse, Esta hip√≥tese tem sua origem numa exegese pouco convincente, por violentar os textos. Que a Igreja de Mateus se reconhece como em oposi√ß√£o ao juda√≠smo e que j√° n√£o se sente vinculada √† sinagoga, √© evidente pelo fato de Mateus falar a cada instante de ‚??seus escribas, suas sinagogas, vossas sinagogas‚?Ě, etc. (7, 29; 8, 35; 23, 34), e pelas palavras acrescentadas por Mateus: ‚??Por isso vos afirmo que o Reino de Deus vos ser√° tirado e confiado a um povo que produza seus frutos‚?Ě (21, 43)‚?Ě (LOHSE, 2000, p. 138).

O an√ļncio do Serm√£o da Montanha, por sua vez, √© uma proposta contra todo tipo de imp√©rio humano opressor at√© ent√£o existente. Jesus vem na contram√£o a todo sistema de domina√ß√£o e opress√£o. O Serm√£o da Montanha tem em vista a liberta√ß√£o, isto √©, a instaura√ß√£o do reino dos c√©us na terra, um reino mais humano, mais digno, sem o controle pela for√ßa ou agress√£o. √?, por isso, considerado o Serm√£o da Justi√ßa. O Serm√£o da Montanha p√Ķe em evidencia aqueles que est√£o √† margem da sociedade, os que n√£o t√™m voz e nem vez, os perseguidos por causa da justi√ßa (justi√ßa humana que, muitas vezes, falha), chamados de bem-aventurados ‚??pois deles √© o Reino dos C√©us‚?Ě (Mt 5, 10b).

O Reino dos C√©us n√£o pode, entretanto, ser uma utopia ou objeto de aliena√ß√£o, onde a recompensa vir√° somente noutro plano, mas uma recompensa terrena, de solidariedade, de justi√ßa e de amor. Seus ouvintes, al√©m dos disc√≠pulos e ap√≥stolos, s√£o aqueles que viviam √† margem do sistema religioso maculado pelo sistema pol√≠tico e pelas conven√ß√Ķes humanas. √?, pois, a estes, os de ‚??esp√≠ritos novos e simples‚?Ě, cuja palavra convence a uma proposta do Reino dos C√©us, a partir de um movimento do povo de forma alguma reservada a um pequeno c√≠rculo de iniciados, mas a um audit√≥rio popular (CHEVROT, 1967, p. 20).

Seguindo esse pensamento, as bem-aventuran√ßas √© promessa de felicidade para agora, n√£o para depois, pois os bem-aventurados, tradu√ß√£o do hebraico ashrē ou bāruk, s√£o os pobres (‚??anāw√ģm, Is 61,1), os puros, os misericordiosos, conforme nos elucida Chevrot, A felicidade prometida n√£o tem de esperar pela mudan√ßa das institui√ß√Ķes. √? medida que os homens tomarem consci√™ncia da felicidade que vai ligada √† pr√°tica dos preceitos evang√©licos e se transformarem a si pr√≥prios, o seu comportamento moral melhorado ser√° o fator que h√° de aperfei√ßoar as institui√ß√Ķes (1967, p. 24).

Dessa forma, o Serm√£o da Montanha recha√ßa toda esp√©cie de cristianismo de compensa√ß√£o, orientando o crist√£o a se conformar com sua sorte, pois a medida que Deus quer a felicidade do homem ‚??assim na terra como no c√©u‚?Ě (Mt 6, 10b), n√£o se pode conceber a id√©ia de felicidade futura como forma meramente de compensa√ß√£o dos males da presente vida. Trata-se, portanto, de uma nova alian√ßa. O termo bāruk invoca as promessas da alian√ßa sobre o destinat√°rio (Gn 12, 2-3; 22, 17.18). H√° uma forte rela√ß√£o com a alian√ßa do Sinai, com a fidelidade de Deus, uma forma de bendi√ß√£o sobre todo o povo (Dt 7, 12-13; Is 61, 8-9) (FARMER et all., 2000, p. 1155).

Em rela√ß√£o ao adult√©rio e div√≥rcio (5, 27-32) o texto aborda outro mandamento b√°sico que define as rela√ß√Ķes humanas (FARMER et all., 2000, p. 1158). Na interpreta√ß√£o desta lei, Mateus busca apresentar um Jesus que vai al√©m do ato de contrair uma segunda rela√ß√£o, mas o simples ato de desejar a mulher do pr√≥ximo torna-se para ele adult√©rio. Nas tradi√ß√Ķes legais, a tend√™ncia era, pois, de relacionar o mandamento do adult√©rio particularmente com as mulheres acentuando um desequil√≠brio de g√™nero. O texto apresenta Jesus dirigindo-se particularmente aos homens a ponto de cobrar-lhes uma atitude radical. A hip√©rbole (5, 29-30) usada por Jesus evidencia uma atitude hedonista, ou seja, uma cirurgia espiritual que os pr√≥prios homens deveriam fazer, uma vez que, conforme a escola rab√≠nica de Hillel, o homem poderia divorciar-se da sua mulher se simplesmente visse uma outra mulher mais bela que a sua (FARMER et all., 2000, p. 1158).

Ao introduzir os assuntos do adult√©rio e div√≥rcio que, aparentemente, t√™m uma forte liga√ß√£o com a tradi√ß√£o judaica e uma tentativa de recha√ßar as interpreta√ß√Ķes que eram feitas do dec√°logo com o jarg√£o ‚??eu por√©m vos digo...‚?Ě, o texto de Mateus vem de encontro √†quele contexto cultural no qual o texto fora escrito. Por conta da forte influ√™ncia do mundo hel√™nico, a vida familiar dos romanos se modificava. Originalmente, era estritamente patriarcal e a noiva passava do dom√≠nio do pai ao marido, passando a ser alterada para um matrim√īnio a base do consenso e, por isso, facilmente dissol√ļvel.

As bem-aventuran√ßas √©, portanto, universal, isto √©, destinadas a todos os povos e na√ß√Ķes. Conforme o texto de Mateus, elas dividem-se em dois grupos, notadamente caracterizados pelas palavras-chave liberta√ß√£o e grandeza do homem. As tr√™s primeiras buscam assegurar uma plena independ√™ncia ao homem, enquanto que as √ļltimas do segundo grupo est√£o voltadas para a a√ß√£o, ou seja, ‚??o disc√≠pulo de Cristo, liberto da avareza, do orgulho e da procura de prazeres, est√° preparado para dar todo o rendimento de sua energia. Longe de o acusarem de passividade, poderiam antes acus√°-lo de temeridade‚?Ě (CHEVROT, 1967, p. 32). Em outras palavras, ‚??vontades de grandeza‚?Ě ao inv√©s de ‚??vontades de fraquezas‚?Ě, capazes de enfrentar todos os perigos e arriscar a pr√≥pria vida. Enganam-se, pois, aqueles que pensando que pelo fato do Reino de Cristo n√£o ser desse mundo, isto √©, n√£o tendo as estruturas ou os objetivos do imp√©rio terrestre, n√£o fosse capaz de agir sobre o mundo. O progresso humano deve ser, sobretudo, fruto da santidade dos homens, geradora do bem-estar, de um c√©u hic et nunc na terra (homem novo e mundo novo).

Mt 5, 11s mostra que o macarismo n√£o se refere exclusivamente √† remunera√ß√£o futura, mas cont√©m um elemento ext√°tico-carism√°tico que √© a alegria j√° presente como sentimento de ades√£o ao cristianismo, da salva√ß√£o j√° adquirida ao ponto de suportar quaisquer prova√ß√Ķes (Tg 1, 12) (BERGER, 1998, p. 177). Ou ainda que a reforma do mundo seguir-se-√° √† reforma pessoal de cada um: √© uma conseq√ľ√™ncia natural. E isto n√£o √© apenas um ponto de vista marginal do Evangelho. O futuro terreno da humanidade √© um dos aspectos do reino messi√Ęnico, n√£o na forma de um milenarismo suspeito, mas pela impregna√ß√£o lenta da doutrina das Bem-Aventuran√ßas no cora√ß√£o dos homens (CHEVROT, 1967, p. 35).

Nesse sentido, o Serm√£o da Montanha n√£o √© lei, mas sim evangelho. S√£o duas realidades diferentes. A lei, de acordo com Jeremias (1967) √© respons√°vel de fazer com que o homem se entregue √†s suas pr√≥prias for√ßas, enquanto que o Evangelho do novo reino, ao estimular a pr√°tica da f√© vivencial, ‚??coloca o homem diante do dom de Deus e lhe pede que fa√ßa deste dom inef√°vel o verdadeiro fundamento da vida‚?Ě (JEREMIAS, 1967, p. 57).