Introdução e Concepção do Pentateuco

Estudo de Steeven Tavares Diane, em 18/08/2009


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Este artigo pondera de modo geral uma pesquisa sobre a introdução e concepção do Pentateuco e como o povo antigo e nós hoje devemos entender as Escrituras como Palavra de Deus. O sentido e a consciência de que a memória (tradição oral) do povo é a Palavra de JHWH surgiram com os primeiros escritos bíblicos, o Pentateuco.

Para melhor podermos fazer uma leitura crítica da Escritura, convém antes salientar que os textos foram escritos muito tempo depois dos fatos, relendo o passado à luz dos acontecimentos do presente. Portanto, para nós hoje é preciso ter essa consciência quando vamos ler e estudar os textos bíblicos.

No intuito de entender a forma como a Bíblia foi escrita, percebemos que a primeira coisa que o escritor sagrado fez, foi ver os acontecimentos, esbarrando nos problemas, nas crises e dificuldades do povo. Mas também suas vitórias, suas crenças e esperança num Deus gerador da vida. Em contato com a realidade do povo, desperta-se no escritor a memória do projeto de JHWH, iluminando a caminhada do povo.

A Escritura nasce no momento em que uniram a memória à realidade daquilo que o povo vivia e acreditava. Para melhor entender esse processo, nós hoje, quando fazemos memória do passado, olhando o presente, lançamos o olhar para o projeto de Deus, assim como os escritores sagrados ao seu tempo.

A memória que o povo precisava fazer, era a do poder libertador de JHWH e do período em que seus antepassados viviam na escravidão do Egito. A memória que o povo cantou e contou, enquanto se manteve fiel à aliança com Javé. Esta que sempre iluminou a caminhada do povo nas situações mais difíceis, porque Deus fala agindo (Êxodo).

Em meio a tantos deuses mais “sofisticados” de povos pagãos, o Deus Único se revelou como Deus dos escravos, das famílias, de Abraão, de Isaac e Jacó, isto é, o Deus dos pobres, migrantes, trabalhadores escravizados pela sociedade faraônica. Na estrutura piramidal da sociedade, o povo refaz a sua idéia sobre Deus e, quando descobre que Deus é um só e, que vê a aflição do povo, que ouve os seus gemidos, que conhece os seus sofrimentos, que denuncia a causa das opressões e age para ajudar na luta, pois quer a libertação total.

Mas a libertação não terminou com a saída do povo do Egito, porque sair do Egito era apenas um passo necessário para a libertação que, somente se completou quando estando livres da escravidão, serviram ao projeto de JHWH, ou seja, o de serem fiéis para sempre, de geração em geração.

Partindo dessa concepção e proposta, se faz necessário explicitar e direcionar uma síntese do Pentateuco com sua estrutura, a fim de alicerçar a fundamentação das Escrituras como Palavra de Deus.

A palavra “Pentateuco” deriva da língua grega significando “cinco livros”. O pergaminho a que se refere o Pentateuco são os cinco primeiros livros das Escrituras, salientado que na língua original, o hebraico, não davam nomes aos livros, sendo acrescidos posteriormente com a tradução para o grego (LXX), permanecendo os seguintes nomes: Gênesis (Bereshit), Êxodo (We`elleh Shemôt), Levítico (Wayyqra), Números (Bemidbar) e Deuteronômio (`Elleh hoddebarîm). Pelo povo era chamado somente de “Livro de Moisés” ou “Lei”, que em hebraico é traduzido por Torá.

Num sentido global o Pentateuco tem como pano de fundo um aspecto histórico-legislativo (história dos hebreus e suas leis), sendo que em cada um dos livros se tratará também esse binômio levando em consideração a concepção Teocrática (governo com base na força de Deus). No Gênesis, o autor que apresentar de um modo geral, Deus como Único e Criador de todas as coisas. No êxodo, começa a mostrar a organização do povo para se libertar da opressão no Egito, tendo Deus como ponto central. O Levítico trata diretamente das leis e da organização do culto, da liturgia. No livro dos Números termina a narração do Êxodo sobre a Teocracia e orienta a vida do povo no deserto. O Deuteronômio reflete sobre a presença do povo na terra prometida, narrando a aliança em Moab.

Sobre a autoria do Pentateuco, por muito tempo foi atribuída exclusivamente a Moisés, porém com o aprofundamento dos estudos, auxiliado pela metodologia histórico-crítica, a partir de 1700 d.C. começou a se questionar tal afirmação, apresentando várias argumentações. Richard Simon, Jean Astruc, Júlio Welhausem, entre outros, contribuíram na elaboração da pesquisa. Diante de várias hipóteses levantadas, a que mais é aceita pelos exegetas é de que o escrito do Pentateuco foi elaborado por quatro tradições: Javista (“J”, de Javé, originado no sul), Eloísta (“E”, de Eloîm, oriundo do norte), Deuteronomista (“D”, de Deuteronômio, no norte, tempo dos profetas), Sacerdotal (“P”, dos sacerdotes, no exílio babilônico). Neste contexto fica mais fácil a compreensão do Pentateuco com base nessas quatro fontes que originaram sua origem.

Contudo, não sendo a intenção deste estudo um aprofundamento maior, parte-se a uma segunda colocação que é o entendimento das Escrituras como a própria Palavra de Deus, pois essa discussão sobre as fontes não termina, bastando apenas ter conhecimento da existência da presente situação.

A dabar (Palavra) divina tem um sentido de falar, de acontecimento, de ação, pois Deus fala agindo. Desse modo a compreensão passa a fazer sentido na leitura do texto. Em Gn 1,1-3 havia trevas, Deus disse haja luz e, assim se fez. Deus age de modo misterioso. Na compreensão do povo não era possível se pronunciar o nome de JHWH, portanto o chamavam Senhor. Neste sentido, temos a Palavra de Deus como uma realidade de fé. Na dabar / logos nós podemos encontrar o ruah – vento, sopro, hálito de Deus. Não é o Espírito de Deus, mas é a obra da Palavra de Deus, sua “ação”. Não se trata de uma ação unilateral, mas é a ação de Deus e a atuação humana juntas. Dessa atuação humana com a intervenção Divina é que vem a Torá. Também é entendido pela dabar a aliança, num sentido de empenho. A aliança neste sentido não é um pacto, mas o empenho de Deus e do seu povo. O processo pelo qual foi originado a Palavra de Deus parte do anúncio, passa pela transmissão e culmina na escrita da Palavra pela Memória ou tradição oral. Daí a Palavra de Deus aparece como verdade, revelação e norma a ser seguida.

Neste ínterim, nos deparamos com a necessária reflexão sobre o Espírito inspirador, fazendo-o em dois momentos: O momento da inspiração e o momento da expressão.

O momento da inspiração que, pode ser chamado hoje de chamamento: revelação, chamado, locução, visão e mandato, sendo esta a ação de Deus e, por parte do homem deve fazer uma experiência de Deus, ter consciência da missão, mudança da mente; O momento da expressão onde a pessoa percebe a ação transformadora de Deus, pois o escritor sagrado, o profeta é aquele que percebe a ação de Deus e traduz para o presente com a vontade e decisão de expressão, sendo necessário também ter o vocabulário adequado para transmitir realmente os desejos de Deus e a linguagem da fé, que move toda a inspiração, tendo presente a expressão e a compreensão do religioso.

Essa expressão de fé e revelação da Palavra está encarnada na história, leva em conta a situação do ser humano e, nesta experiência de Deus vemos uma intervenção de Deus que, provoca a fé para dar uma resposta.

Portanto, na tentativa de apresentar um desfecho final ao trabalho diríamos que, percebemos antes de tudo que a presença de JHWH, comunica seu Espírito a pessoas privilegiadas em favor de um grupo para a criação dos textos e também enriquecê-los. Em se tratando da Palavra inspirada, a verdade salvífica como valor primordial, se nos apresenta um problema, pois sabemos que a verdade é um conceito um tanto complexo, tendo diversos entendimentos e modos de compreensão em várias culturas e, onde há homem aí está a condição humana. Numa compreensão grega, a verdade tem um sentido especulativo, de busca pela essência das coisas, a realidade verdadeira é a natureza. Já os hebreus (Semitas) a compreendem como fidelidade, firmeza, segurança, estando relacionada e presente na comunidade. Para os hebreus, a verdade é JHWH, uma verdade essencialmente religiosa, que se realiza nos acontecimentos. Significa a correspondência entre a Palavra de Deus e acontecimento (realização).

BIBLIOGRAFIA
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ARTOLA, A. M.; CARO, J.M.S. Bíblia e palavra de Deus. v. 02, São Paulo: Ave Maria, 1996. (Introdução ao Estudo da Bíblia)
BRIEND, J. Uma leitura do Pentateuco. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 1982. (Cadernos Bíblicos)

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