Uma janela sobre o mundo bíblico

A virgindade de Maria



  • Estudo
  • 6328
  • 14/09/2008
Celso Kallarrari

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Ao lermos o texto de Mc 3, 31-34, sem um aprofundamento exegético e hermenêutico, até parece que Jesus quis desmerecer sua mãe e aqueles que se apresentavam como irmãos de Jesus. No mundo protestante, há uma interpretação equivocada, por motivos da não crença em Maria como Teotokos, mostrando, muitas vezes, a passagem citada, ao lado da resposta de Jesus na narrativa das bodas de Cana (Mulher, que temos a ver com isso?) como um desmerecimento do título de Maria como sua mãe, isto é, canal de Deus para a encarnação de seu filho.

De acordo com a Igreja Ortodoxa, os referidos irmãos de Jesus foram “adquiridos”, levando em consideração a teoria do evangelho apócrifo de Tiago, segundo o qual José, ao se casar com Maria, trouxe de um casamento anterior outros filhos (Tiago, José, Judas e Simão, cf. Mc 6, 3 e MT 13, 55). Apesar de existirem outras teses, a exemplo de “primos por parte de pai, primos por parte de pai e mãe, irmãos carnais, a Igreja Ortodoxa ampara-se nos grandes escritores da Igreja Primitiva como Clemente de Alexandria, Orígenes, Eusébio, Hilário de Poitiers, Ambrosiaster, Gregório de Nisa, Epifânio, Ambrósio, Cirilo de Alexandria que defendiam a tese dos “irmãos de Jesus” serem irmãos por parte de pai (ROSA, 2007).

Um dado importante é que, no século II, não se levantavam dúvidas se os “irmãos” de Jesus eram ou não filhos de Maria. A tradição Cristã sempre mostrou que Maria era virgem antes e permaneceu virgem depois do parto e que os “irmãos de Jesus” da Bíblia são, na verdade, seus parentes. A questão da virgindade de Maria era defendida até mesmo no tempo da Reforma (Lutero e Calvino e, posteriormente, Zwinglio), pois não se discutia ou questionava, naquelas alturas, se Maria teria outros filhos.

De acordo com palavras de Lutero: “Ele, Cristo, nosso Salvador, era o fruto real e natural do ventre virginal de Maria... Isto aconteceu sem a participação de qualquer homem e ela permaneceu virgem mesmo depois disso“. (Martinho Lutero, "Sermões sobre João", cap. 1 a 4, 1537-39 d.C.). "Virgem antes, no e depois do parto, que está grávida e dá à luz. Este artigo (da fé) é milagre divino." (Sermão Natal 1540: wa 49,182).

Na visão de João Calvino, "Certas pessoas têm desejado sugerir desta passagem [Mt 1,25] que a Virgem Maria teve outros filhos além do Filho de Deus, e que José teve relacionamento íntimo com ela depois. Mas que estupidez! O escritor do evangelho não desejava registrar o que poderia acontecer mais tarde; ele simplesmente queria deixar bem clara a obediência de José e também desejava mostrar que José tinha sido bom e verdadeiramente acreditava que Deus enviara seu anjo a Maria. Portanto, ele jamais teve relações com Maria, mas somente compartilhou de sua companhia... Além disso, nosso Senhor Jesus Cristo é chamado o primogênito. Isto não é porque teria que haver um segundo ou terceiro [filho], mas porque o escritor do Evangelho está se referindo à precedência. Assim, a Escritura está falando sobre a titularidade do primogênito e não sobre a questão de ter havido qualquer segundo [filho]“. (João Calvino, "Sermão sobre Mateus", publicado em 1562).

E, finalmente, Zwinglio confessa a virgindade de Maria e exalta-a acima de todos os homens e anjos: “Creio firmemente que Maria, conforme as palavras do Evangelho que afirmam que de uma Virgem nos nasceria o Filho de Deus, permaneceu sempre pura e intacta Virgem durante e depois do nascimento de seu Filho. Também acredito firmemente que ela foi por Deus exaltado acima de todas as criaturas bem-aventuradas (sobre os homens e anjos) na eterna bem-aventurança." (Ulrich Zwinglio, citado em "Corpus Reformatorum" v.1, p.424).

A comparação que Jesus faz de “mãe e irmãos” é, na verdade, um recurso estilístico do autor de Marcos, a fim de mostrar-nos que aquele que faz a vontade de Deus, torna-se parente próximo de Jesus, ou seja, mãe ou irmão, uma vez que pelo seu sangue na cruz todos nós fomos constituídos co-herdeiros de Cristo ou irmãos de Jesus. O seu sangue nos comprou. Fazer a vontade do Pai é, sobretudo, ter a atitude de Maria, a Teotokos, que, diante do anúncio do anjo não resistiu e aceitou como mulher de fé, pois acreditou naquilo que aos olhos humanos era impossível. “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim (fiat), conforme a vossa palavra”.

Em nossas vidas, precisamos não apenas ter Maria como modelo de fé, de dependência de Deus, de entrega total, mas, acima de tudo, tê-la como Mãe, ponto de convergência entre o céu e a terra. Maria é, pois, a escolhida entre todas as gerações para ser venerada por todos aqueles que a tem como sua medianeira, intercessora. Se por Maria, o salvador pôde, de fato, entrar no mundo e cumprir a vontade do Pai (nos atrair a Ele), quanto mais pode ela, em sua intercessão por nós, diante de seu filho no céu. Amemos, pois, Maria confiando-lhe nossos pedidos e devoção.

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