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Lugares bíblicos

“E o Verbo se fez carne” (João 1, 14a): auto-comunicação de Deus na categoria de “Palavra”

Estudo de Steeven Tavares Diane, em 24/08/2008


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Nesta experiência de elaboração e iniciação científica na área bíblica, consideramos que o aprendizado da teologia é uma arte de guiar o espírito na investigação da verdade.

O tema a ser instigado e apresentado de modo sumário, será desenvolvido sob o título “E o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14a): auto-comunicação de Deus na categoria de “Palavra”, querendo ser uma reflexão sobre a Palavra de Deus, enquanto projeto-Palavra-ação. A Palavra de Deus entendida pela sua terminologia hebraica “dabar” desde sua concepção no Antigo Testamento, significa que a Palavra de Deus é ao mesmo tempo Palavra e Ação.

A partir desta concepção religiosa vamos estudar o termo grego “Logos”, que apresenta a idéia da dabar divina, usado pelo Evangelista do Quarto Evangelho, para expressar a máxima da Revelação de Deus em Jesus Cristo. Vamos considerar o alcance, as implicações e os limites desta pesquisa sobre o termo Logos dentro do contexto histórico-religioso do Quarto Evangelho. Trataremos de compreender o Prólogo como um todo, dedicando mais atenção ao Logos no versículo 14a do Prólogo do Quarto Evangelho.

O que desperta para a intrigante pesquisa do termo Logos no Prólogo é saber o porquê do Evangelista ter usado esta terminologia para falar sobre a Encarnação do Filho de Deus. Outro problema que emerge desta situação é a origem do termo Logos e qual o seu significado para o Evangelista.

Dada as limitações próprias de quem inicia uma pesquisa, o trabalho está dividido em três partes:
O primeiro capítulo fala de alguns aspectos para a compreensão de “Palavra”, no caminho feito pelo Povo de Israel do Antigo Oriente, pois foi nesse caminhar e dentro de um contexto, que esse povo compreendeu a Palavra de Deus. A intenção é fundamentar o sentido e significado de Palavra de Deus, em seus aspectos de Palavra Criadora, Libertadora, enquanto Aliança entre Deus e o povo, como portadora da Sabedoria divina e Salvadora.

No segundo capítulo, o termo “Logos” vai ser contextualizado em seu ambiente histórico-religioso. Como pano de fundo sustenta-se a hipótese do Evangelista ou a comunidade joanina ter sido influenciado por pensamentos externos ao da comunidade cristã. Por isso, este capítulo abordará sobre as relações do Logos no Prólogo do Quarto Evangelho com a filosofia e a cultura greco-romana, com o Judaísmo e com a Literatura Cristã Primitiva.

Por fim, o terceiro capítulo trata sobre a estrutura literária que envolve a elaboração do texto original do Prólogo e a teologia que o Evangelista quer apresentar através deste texto, com ênfase no escândalo do Logos divino e eterno fazer-se frágil carne humana (v. 14a).

Com o objetivo de apresentar algumas pistas de como será desenvolvido o trabalho, podemos dizer que no Prólogo do Quarto Evangelho, o “Logos” é a Palavra de Deus Encarnada, o próprio Jesus, o Messias que saiu do seio da Trindade para assumir a condição humana. Com a expressão “E o Verbo se fez carne” (Jo 1,14a), o Evangelista inova a terminologia na linguagem primitiva das Comunidades Cristãs.

Tal expressão vem mostrar, além da capacidade teológica e intelectual do Evangelista, o amadurecimento na fé das comunidades. Em sintonia com outras culturas e costumes aprofundam a compreensão e o sentido teológico do termo “Logos”.

O objetivo da pesquisa é refletir sobre o “Logos” numa compreensão dentro do Prólogo do Quarto Evangelho, destacando a intenção-idéia do Evangelista, tomando como meta a auto-comunicação de Deus na categoria da “Palavra” e as sugestivas influências no pensamento do escritor sagrado.

Para a comunidade acadêmica, um estudo que pensa num aspecto bem delimitado tema, principalmente na área bíblica, como é o caso do Prólogo do Quarto Evangelho, tem relevância, pois ajuda a aprofundar e buscar as raízes da questão que a pesquisa envolve. Além de contribuir para um desenvolvimento pessoal, formativo e teológico, levando à prática do trabalho de pesquisa.

Este trabalho conta com as linhas de pensamento de especialistas, como R. Bultmann, C.H. Dodd, A. Feuillet, R. Schnackenburg. A pesquisa segue o método histórico-crítico, apoiando-se na reflexão dos comentadores que trataram com mais profundidade o assunto, almejando buscar a idéia original do Evangelista ao utilizar o termo “Logos”, como expressão máxima da revelação da Palavra e anunciar o Cristo como Verbo Encarnado.

A pesquisa sobre o Logos no Prólogo do Quarto Evangelho se mostrou realmente em concordância ao que Orígenes (+ 253), um dos “pais da Igreja”, no século III, disse: “... os Evangelhos são a parte escolhida da Escritura, e que o Evangelho de João é a primícia dos Evangelhos”. Ao passo que no Prólogo, encontramos o Logos como a medula do Quarto Evangelho.

A auto-comunicação de Deus na categoria de “Palavra”, com seu ápice revelador no versículo 14a “E o Verbo se fez carne”, realmente revelou a característica própria de um olhar de águia no infinito. Neste sentido, o Prólogo atua como uma conjunção entre as antigas construções da mística do Judaísmo e as premissas teológicas do Cristianismo Primitivo.

Este estudo nos provocou a perceber as dificuldades enfrentadas e as tensões existentes no período em que o Prólogo foi composto, apresentando a genialidade com que o Evangelista trabalha com os termos propostos. Uma leitura superficial sobre o Prólogo deixaria de trazer presente, algumas questões cruciais para a compreensão do que o Evangelista e a comunidade querem apresentar no Evangelho.

De maneira maravilhosa o Evangelista atribui o título de Logos ao próprio Cristo Messias, esperado e anunciado pelo Batista. O termo Logos na época do Evangelista, reveste-se de um alcance ecumênico, porque integra também a cultura grega.

Com o emprego do termo Logos como expressão máxima da Revelação de Deus, o Evangelista foi capaz de impulsionar a comunidade cristã a um amplo campo reflexivo. Principalmente por favorecer a conjunção de tradições do Antigo Testamento com a nova experiência cristã.

Desde o início do trabalho foram levantadas e concluídas algumas idéias para compreensão do sentido de Palavra de Deus que norteou toda a reflexão. A Palavra de Deus que foi compreendida e assimilada pelo povo semita antigo, e se tornou um alicerce para todos os escritos neotestamentários, que não deixou de considerar seu significado, mais recebeu um aperfeiçoamento, ou melhor, recebeu a consumação e a Plenitude com a vinda do Verbo Encarnado.

Depois percebemos que o termo Logos atribuído à Encarnação do Messias Filho de Deus, foi escolhido com genuína habilidade, pois o Evangelista soube articular com a comunidade cristã que recebia influência de outras culturas e religiões, causando uma falsa compreensão do Mistério de que eram anunciadores. As religiões mistéricas, como o gnosticismo, o hermetismo que influíam no pensamento dos primeiros cristãos confundiam a verdadeira essência do Logos feito carne. O Evangelista percebe a necessidade não de elaborar um texto que narrasse à vida de Cristo, mas de um Evangelho que atendesse às necessidades da comunidade. Sendo ao mesmo tempo um testemunho vivo e autêntico de fé no Cristo Ressuscitado, e uma catequese que respondesse aos anseios e questionamentos que surgiam mediante as situações que a comunidade enfrentava.

O termo Logos é trabalhado pela filosofia grega antes mesmo de Cristo. Mas da forma como o Evangelista apresentou no v. 14 do Prólogo do Quarto Evangelho não pôde ser encontrado, até recentes pesquisas, em nenhum escrito anterior que influenciasse de maneira a prejudicar incisivamente a especificidade do termo no mesmo. No entanto, é compreensível que o Evangelista tenha feito uso deste termo, para melhor apresentar e defender a essência de um Mistério Cristão, que é a Encarnação do Logos.

Destaca-se, portanto, que se o autor buscou relacionar o termo Logos já existente no pensamento contemporâneo em seu contexto histórico-religioso, este procedeu de um ambiente religioso judaico e cristão tão importante para a sua vida. Sem deixar de articular com os precedentes greco-romanos.

Assim, o presente trabalho não pretende ser o ponto conclusivo das questões apresentadas, mas apenas o ponto de chegada para outras pesquisas. Particularmente serviu como um intrigante vislumbre sobre a problemática, provocando interesse em aprofundar cada hipótese apresentada.

Nesta conclusão, a última palavra está longe de ter sido pronunciada, porque diversos pontos estão em desacordo entre os comentadores. Propomos um caminho para refletir sobre o Logos no Prólogo do Quarto Evangelho. Com certeza alguns questionamentos foram esclarecidos ou pelo menos, compreendido a sua raiz.

O caminho proposto para o desenvolvimento deste tema bíblico foi o do método histórico crítico, seguindo pressupostos exegéticos. Mas vários outros caminhos poderiam ser escolhidos para a apresentação do Logos Encarnado. Propomos abrir à sugestão para uma reflexão espiritual, pastoral e cristológica do Prólogo.

O trabalho nos deixa intrigados, porque ao mesmo tempo nos inquieta e interpela a descobrimos no Prólogo, através de sua forma cristalina, todo o Projeto de Deus em favor da humanidade. Sabendo que o Logos encarnou-se entre nós e continua presente por meio de seu Espírito Santo, nos perguntamos: acolhemos o Logos em nossa vida? Anunciamos sua Encarnação, como verdadeiramente Deus e verdadeiramente Homem? Testemunhamos sua Boa Nova? Como retribuímos o amor ágape do Deus Encarnado, na prática de nossa vida?


Este artigo foi extraído e compactado com o intuído de divulgar a pesquisa teológica realizada para a monografia, no curso de Teologia, da Faculdade João Paulo II. Apresentamos uma síntese do que foi desenvolvido na monografia. Qualquer questão em aberta ou para melhores esclarecimentos, entrar em contato: frative@yahoo.com.br.

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1 comentário

Postar um comentário

  • Benedito Aparecido Pereira da Silva (Catanduva - S.P.) - 26/07/2014

    Vamos iniciar o comentário lembrando que o "cumpridos" do alerta acima está errado, o que fica muito feio numa matéria sobre Teologia. Ademais, o texto está escrito de forma erudita e incompreensivel, que muitos leitores não vão entender nada, nem tampouco a pergunta foi respondida. Não seria melhor dizer-se que o escritor do termo apenas quis dizer que a palavra (verbo) DEUS, até então inexistente como ser material, com o nascimento de CRISTO, se fez carne, tornando-se matéria, à nossa semelhança? Um abra...