Tiago e Jo√£o, filhos de Zebedeu, foram muito transparentes no di√°logo com o Mestre, explicitando o seu desejo. Esta transpar√™ncia √© um valor que n√£o deixa o cora√ß√£o humano mergulhado em camuflagens que fecundam preju√≠zos enormes para o relacionamento entre as pessoas. Sua transpar√™ncia foi t√£o grande que atingiu o patamar de quase sobrepor o pr√≥prio desejo ao querer de Deus. Eles n√£o hesitaram em dizer a Jesus que queriam que Ele fizesse o que formulariam em solicita√ß√£o. Naturalmente, percebe-se uma invers√£o de prioridades quando se trata de realiza√ß√£o de desejos. O desejo de Deus, sua vontade, √© sempre priorit√°rio em rela√ß√£o a qualquer desejo humano. N√£o foi outro o caminho pelo qual o Mestre conduziu o di√°logo com os dois disc√≠pulos. √? importante perceber e assumir a prioridade da vontade de Deus. S√≥ a vontade de Deus est√° acima de tudo. S√≥ o querer de Deus modula adequadamente o cora√ß√£o humano evitando os confrontos das disputas e das indigna√ß√Ķes que impedem a fraternidade. N√£o foi por outro motivo que os outros dez disc√≠pulos se indignaram com os dois irm√£os.

O que quereis?
Jesus, grande Mestre, n√£o inibe a express√£o dos desejos dos seus disc√≠pulos. Seus cora√ß√Ķes est√£o povoados de desejos, e desejos de todo tipo. Sua adequa√ß√£o e necess√°rias corre√ß√Ķes se d√£o na medida em que o relacionamento com o Mestre proporciona o confronto que possibilita as purifica√ß√Ķes inadi√°veis. O desejo de Tiago e Jo√£o se localizava no territ√≥rio da garantia de lugares, um √† direita e outro √† esquerda. Uma localiza√ß√£o que explicita a compreens√£o de poder, lugar garantido ao lado daquele que dirige e ocupa em tudo a centralidade. A purifica√ß√£o do desejo come√ßa com o confronto que se estabelece para que se possa chegar a ocupar aqueles lugares pretendidos. O desejo da gl√≥ria e do reconhecimento pessoal ofusca o cora√ß√£o na sua procura e o incapacita para a percep√ß√£o do caminho a ser percorrido. Jesus, por isso mesmo, afirma que eles n√£o sabem o que est√£o pedindo. O confronto aumenta quando lhes pergunta a respeito da disposi√ß√£o de beber o c√°lice que Ele, Mestre e Senhor, iria beber. A resposta foi pronta e imediata: ‚??Podemos‚??. A rapidez da resposta revela ainda o n√£o alcance do significado de beber do c√°lice. N√£o √© um gesto simples e ritual qualquer. √? muito mais.

O c√°lice, o batismo e o lugar
O di√°logo que Jesus estabelece com os dois disc√≠pulos, visando a compreens√£o do sentido do pedido feito, leva-os ao mais profundo do cora√ß√£o de Deus. Este lugar n√£o √© apenas uma configura√ß√£o geogr√°fica de ser √† direita ou √† esquerda. O lugar para Deus √© gesto de amor. S√≥ o gesto de amor configura o lugar. O √ļnico gesto de amor que configura e garante o lugar √© a oferta total de si mesmo para o bem de todos. O c√°lice que se bebe √© fruto da oferta de si, sem reservas. N√£o √© f√°cil. Tende-se sempre a reservar o melhor para si. N√£o √© raro tentar conseguir o pr√≥prio lugar e nele depositar o conforto do cora√ß√£o e a comodidade da vida. Deus considera este lugar como oferta. S√≥ a oferta traz a garantia deste lugar. Uma garantia que se sela pela inser√ß√£o total e sem reservas na oferta de Deus. S√≥ esta disposi√ß√£o e aceita√ß√£o revelam os escolhidos de Deus para quem ele reserva os lugares √† sua direita e √† sua esquerda. Estes lugares n√£o s√£o conquistados por barganhas ou solicita√ß√Ķes pol√≠ticas; n√£o s√£o dados aos que simplesmente chegam primeiro, usu√°rios da intelig√™ncia dos oportunismos. Nem mesmo estes lugares s√£o reservados por Deus a partir de crit√©rios que possam estar nos leitos da mesquinhez e dos preconceitos. A reserva que Deus faz √© justa e destina-se a todos aqueles que seguem o caminho do Mestre e se oferecem sem reservas para o bem.

Entre vós não deve ser assim
O caminho da oferta de si √© o √ļnico que n√£o provoca colis√Ķes relacionais entre os disc√≠pulos de Jesus. Outros caminhos confundem as l√≥gicas e enchem os cora√ß√Ķes de indigna√ß√Ķes alimentando disputas e criando dist√Ęncias. N√£o foi diferente entre os primeiros disc√≠pulos. N√£o ser√° nunca diferente entre os disc√≠pulos de outros tempos. A diferen√ßa que eleva e preserva a verdadeira fraternidade se encontra no caminho da oferta de si. Jesus ensina aos seus, buscando refazer entre eles a unidade, que este caminho √© diferente daqueles que oprimem e tiranizam, convencidos exageradamente do seu poder e de seus direitos de governar. A ocupa√ß√£o de lugares ao redor de Deus √© direito de quem √© grande. Uma grandeza √† moda de Deus que no Filho Amado se faz servo de todos, ensinando a t√īnica que deve ter a grande reg√™ncia do dia a dia dos seus disc√≠pulos: ‚?? O Filho do Homem n√£o veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate para muitos‚?Ě. S√≥ assim √© poss√≠vel sentar-se √† sua direita e √† sua esquerda.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte