Uma janela sobre o mundo bíblico

Eu até hoje não entendi qual João escreveu o Apocalipse, se ele é o mesmo que foi colocado num tacho de óleo quente antes de ir para Patmos, o qual ficou com a Mãe Santíssima quando Jesus a entregou para que tomasse conta dela...
Com muito carinho



  • Pergunta de Marlene de Paiva, Brasil
  • 43235
  • 18/05/2007
Ombretta Pisano

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Marlene, a pergunta sobre os autores dos livros bíblicos é um problema histórico e filológico, mas não teológico, pois o autor não influi diretamente na definição do cânon, na sacralidade do livro. A definição do autor não interfere na autoridade e canonicidade da obra escrita.

A sua pergunta, como você intuiu corretamente, não tem a ver somente com o livro do Apocalipse, mas com o conjunto dos textos que forma o assim chamado “corpus ioanneum”, ou seja, os escritos que presumem serem de “João”. Deste ‘corpus’ fazem parte: o Evangelho segundo João, a primeira, segunda e a terceira carta de João e o Apocalipse. A pergunta fala também da presença de um João a Patmos e a tradição da vida em comum com Maria em Éfeso. A situação é complicada pelo pato que com o nome de João, muito comum entre os judeus, conhecemos também outros personagens.

É difícil dar uma resposta unívoca e definitiva a respeito da autoria dos escritos do ‘corpus ioanneum’. Digamos que existem ao menos 4 possibilidades:

1. O apóstolo (o discípulo amado ao qual Jesus confiou sua mãe) escreveu o Evangelhho e não o Apocalipse.
2. O apóstolo escreveu o Apocalipse e não o Evangelho.
3. O apóstolo escreveu os dois livros, primeiro o Apocalipse e depois o Evangelho.
4. O apóstolo foi da Palestina a Éfeso, onde conduziu uma comunidade cristã foundada por Paulo, mas do seu próprio punho não escreveu nada. Alguns discípulos efesinos escreveram as Cartas, o Evangelho e o Apocalipse, usando como pseudônimo “João”. A pseudonimia era muito usata, especialmente nos escritos de gênero apocalíptico daquele tempo: o autor real de um livro apocalíptico faz referência a um personagem famoso do passado, com o qual se sente particularmente ligado e ao qual pretente seguir a ideologia.

Cada uma dessas 4 possibilidades tem seus defensores entre os exêgetas, estudiosos da Bíblia. Aquilo que podemos afirmar com bastante probabilidade é que todo o ‘corpus ioanneum’ tenha tido origem no mesmo ambiente, criado pelo apóstolo em Éfeso, e que o Apocalipse foi escrito antes do Evangelho.

João autor do Apocalipse
Sobre o autor do Apocalipse, que é explicitamente chamado “João”, não podemos dizer com certeza se se trata do apóstolo, do ‘presbítero’ de João Marcos (autor do Evangelho Segundo Marcos) ou de um pseudônimo. Com certeza, porém, trata-se de um judeu da Palestina emigrato a Éfeso, que se apresenta como um profeta e que tem grande conhecimento do ambiente sacerdotal, das Escrituras e da liturgia e que compôs o livro do Apocalipse por volta do ano 95 depois de Cristo, no fim do reino do imperador Domiciano. É pouco provável que seja o mesmo autor do Evangelho segundo João, vista a diversidade de conteúdo, da forma e da linguagem.

João apóstolo
Trata-se do filho de Zebedeu, que no IV Evangelho é chamado “o discípulo que Jesus amava” e que colocou a cabeça sobre o peito de Jesus na noite da última ceia. A tradição presente nos primeiros escritores cristãos (Clemente de Alexandria, Orígens, Vitorino de Petau, Eusébio de Cesaréia) diz que João foi expulso e exiliado em Patmos, mas não podemos excluir a possibilidade que tenha ido para lá espontaneamente. Contudo, antes da sua morte foi para Éfeso, onde, segundo Poicates de Éfeso, foi sepultado. De acordo com a testemunhança de Tertuliano, João sobreviveu a um atentado martírio (imersão em uma banheira de óleo fervente) por ordem do imperador Domiciano. O ancião apóstolo teria resistido tanto sem ser queimado que os carrascos, convencidos que fosse um mago poderoso, o liberaram e o enviaram em exílio a Patmos, onde teria escrito o Apocalipse de João. Porém parece evidente que esta história tenha uma índole legendária.

A tradição que diz que João morou com Maria, entrege a ele por Jesus, deriva da frase de Jesus quando estava na cruz: “filho eis a tua mãe. Mãe, eis o teu filho”. Na verdade existem outras interpretações mais espirituais sobre esta frase, como aquele de Ambrósio de Alexandria e outros.

Concluindo, sobre o Evangelho, mesmo se fosse confirmado que o texto não é obra material do apóstolo, não si pode de qualquer modo excluir uma influência apostólica-jovanéia do IV Evangelho. Porém pode ser que o apóstolo não fez a redação escrita, mas trasmitiu oralmente o seu conteúdo, mesmo se fica difícil estabelecer até que ponto. Neste caso, a redação seria obra de um seu discípulo.

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