Apócrifo é um termo que vem do grego (απόκρυφος) e significa "oculto". É por isso que essa palavra suscita um fascinio especial, pois tudo o que é "escondido" tem um grande poder de atração. Todavia essa lógica em relação a livros que falam de temas bíblicos e que não entraram na lista oficial bíblica (cânon) precisa ser um pouco desmistificada.

Há muitos livros que são paralelos a textos bíblicos, mas que por alguma razão, muitas vezes facilmente identificável, não fazem parte do elenco dos livros bíblicos. São os apócrifos. Há apócrifos do Antigo Testamento (Henoc, Testamento dos Doze Patriarcas - veja uma lista ampla) e do Novo Testamento, entre os quais está o que você menciona. Há dezenas de apócrifos do Novo Testamento.

É importante sublinhar que a pessoa que pensa que esses livros contém coisas misteriosas, escondidas pela igreja, incorre em grave erro de avaliação. É uma estratégia alimentada por uma certa imprensa sensacionalista, mas que não condiz com a verdade. O que é verdadeiro é que nunca se deu muita importância a esses livros e que hoje em dia se está avaliando de maneira diferente essa posição, pois são obras muito importantes para entender a história do cristianismo, seja do desenvolvimento teológico que de aspectos históricos da vida da Igreja. Antigamente não eram considerados e foram esquecidos nas bibliotecas especializadas. Hoje em dia estão se tornando populares e facilmente encontrados nas livrarias.

Para ler os apócrifos é muito importante ter presente ao menos três fatores:

  1. São livros escritos muito tarde, na maioria dos casos. Há alguns que foram escritos até 500 anos depois de Cristo.
  2. Nem sempre concordam com a ortodoxia, sito é, muitas vezes transmitem um pensamento teológico de um grupo isolado, de uma corrente que não tinha o aval da hierarquia.
  3. A lista oficial é fruto de um processo natural amadurecido nas comunidades; a exclusão de alguns livros da lista oficial dos livros bíblicos é devido ao resultado desse processo.

 

Evangelho de Barnabé

Entre os apócrifos, há muitos que são designados como "evangelhos" (Evangelho de Tomé, Evangelho de Pedro, Evangelho de Felipe, Evangelho de Maria Madalena, etc). Não se conhecia um "evangelo de Barnabé" até cerca de 3 anos atrás, quando na Turquia a polícia teria apreendido contrabando de antiguidades. Entre as coisas confiscadas estava um manuscrito antigo que seria o "Evangelho escrito por Barnabé" (veja aqui a notícia de 2013 no Terra). Nenhum exegeta deu muito valor a tal descoberta, pois se trata claramente de uma ação propagandística, de um manuscrito que tenta dar autoridade ao islamismo. De fato, trata-se de um manuscrito que nega a divindade de Cristo, negando inclusive que tenha sido crucificado e afirmando, além do mais, que Jesus é simplesmente um precursor de Maomé, previndo até mesmo a vinda do fundador do Islamismo.

Barnabé não foi um dos 12 apóstolos, como o manuscrito diz, mas escolhido como apóstolo pela comunidade, para ocupar o lugar de Judas. Foi um companheiro das viagens de Paulo. O Islamismo nasceu a mais de 500 anos depois de Jesus. Todos os livros bíblicos foram escritos no primeiro século da era cristã. Mesmo se comprovada a antiguidade desse manuscrito, certamente não foi escrito antes do século VI. Por isso não teria nenhum modo de ser considerado um livro bíblico.

Cada vez que escutar alguma notícia escandalosa desse tipo, você tem o dever de não acreditar. O estudo bíblico hoje é uma ciência e não está mais sob o poder do Vaticano. Há muitos biblistas que não são nem mesmo cristãos e tantos que são evangélicos e não têm nenhuma relação com o Vaticano, não submetendo-se de maneira alguma às ordens que eventualmente o Vaticano pudesse dar, coisa que absolutamente não faz mais.

A imprensa sensasionalista conta com a ingenuidade das pessoas para surpreender e trazer para si um público que lhe dê fama e faça lucrar.

Em definitiva, é muito provável que o "Evangelho de Barnabá" é simplesmente uma falsificação feita na Idade Média.

 

Coisas importantes sobre Barnabá

Invés, podemos nos interessar da Epístola de Barnabá, um apócrifo com um certo valor, pois bastante antigo e inclusive presente em manuscritos importantes, como o Sinaítico. Há ainda outro apócrifo ligado a ele, Atos de Barnabá.