O fim do ano e o ano novo representam um convite para pensar no tempo. Os anos que passam representam uma forma de declinar o tempo. Nós, que seguimos o calendário gregoriano, estamos entrando em 2026, mas há muitas outras variantes. Para os judeus, será o ano 5787, que começará em 11 de setembro. Essa é a mesma data para o início do ano do calendário etíope, que celebrará o 2019. Em 13 de abril, os budistas começarão o ano 2569. No dia 17 de fevereiro, o calendário chinês iniciará o ano do cavalo. Em 16 de junho, o calendário islâmico marcará o dia 1º de Muharram do ano 1448 desde a Hégira. O calendário persa iniciará o ano 1405 em 20 de março. Um dia antes, o calendário hindu Vikram Samvat marcará o ano 2083.
A cadência de anos nos chama a atenção para um dos tesouros maiores que temos: o tempo. O ritmo implacável da vida tantas vezes nos faz esquecer dele. A Bíblia, livro da vida, nos ajuda a refletir sobre o tempo.
1. Tempo como criação divina
A Bíblia começa dizendo que“No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1,1). Isso indica que o tempo é uma realidade criada por Deus, não eterna. Ele marca o início da história e da relação entre Deus e a humanidade.
2. Tempo cronológico e o tempo oportuno
Segundo a Bíblia, existem dois tipos de tempo. O primeiro é o tempo cronológico (chronos), medido em dias, anos, estações. Existe, todavia, também aquele que é dito “tempo oportuno”, caracterizado pelo vocábulo “kairos”. Trata-se do momento certo para agir segundo a vontade de Deus. Por exemplo, Jesus inicia sua missão dizendo: “O tempo (kairos) se cumpriu, o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15).
O tempo cronológico é linear e limitado, medido em segundos, minutos, dias, anos. A morte condiciona essa realidade: nossa vida tem começo e fim; por isso, sentimos urgência e preocupação com o tempo. Reconhecendo a brevidade da vida, o salmista diz: “Ensina-nos a contar nossos dias, para que alcancemos corações sábios” (Sl 90,12).
A Bíblia ensina que o tempo limitado da nossa vida é um presente de Deus e deve ser usado com sabedoria, pois é precioso: “Ensina-nos a contar nossos dias, para que alcancemos corações sábios” (Sl 90,12).
O tempo de Deus, em contrapartida, é eterno, não limitado: “Para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia” (2Pe 3,8). O que conta na esfera do kairos é a qualidade e não a quantidade de tempo.
O nosso tempo cronológico é marcado pela pressa e por limites. O tempo de Deus significa ver a toda a história de uma só vez, agir no tempo oportuno. Deus não se atrasa nem se adianta; tudo acontece no momento certo segundo Sua vontade. Falando do tempo decisivo na história da salvação, Jesus diz: “O tempo se cumpriu, o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15).
O tempo cronológico nos pressiona, mas o tempo de Deus nos educa para a esperança. De fato, quando se compreende que Deus vê toda a história, aprendemos a confiar: “Tudo tem seu tempo determinado” (Ecl 3,1).
Deus não age segundo nossa pressa, mas segundo o Kairos, o tempo oportuno. E a espera nos ensina a dependência, como filhos: “Os que esperam no Senhor renovam suas forças” (Is 40,31). Espiritualmente, esperar é um ato de fé: acreditar que Deus está agindo mesmo quando não vemos resultados imediatos.
A esperança, marcada pela confiança nos dá paz mesmo em tempos difíceis, porque sabemos que o plano de Deus é perfeito, mesmo que não entendamos agora. Esperar, ter paciência e confiar são atitudes que transformam nossa relação com Deus e com os outros.
3. Tempo escatológico
Há também a dimensão do fim dos tempos. Nos tratados teológicos se fala de escatologia, palavra que vem do grego eschaton, que significa “último” ou “fim”. Trata-se do tempo final, quando Deus realizará plenamente seu plano de salvação. Não é apenas “o fim do mundo”, mas a consumação da história e a vitória definitiva de Deus.
É um tempo Inaugurado por Cristo: Com a vinda de Jesus, o tempo escatológico já começou. É algo que já começou, mas ainda não se completou plenamente: vivemos entre a primeira vinda de Cristo (início do Reino) e a segunda vinda (plenitude do Reino).
Esse tempo é marcado por uma transformação total: Céus novos e terra nova (Ap 21,1). Não é destruição, mas renovação.
Não sabemos nem o dia nem a hora, como diz Jesus em Mt 25,13. Isso significa que não devemos calcular datas, mas viver vigilantes, buscando a conversão, anúncio do Evangelho, justiça, paz.
O que a Bíblia nos faz é um convite à esperança ativa: Viver como cidadãos do Reino já presente; preparar-se para a plenitude futura.
Em síntese, trata-se de um tempo de espera confiante, não de medo.


