Essa sua questão é uma pergunta fundamental da nossa existência, feita desde há muito tempo, sem uma resposta que dê satisfação imediata. Do meu ponto de vista, uma resposta passa necessariamente através da consciência do dom da liberdade, que é típica dos filhos de Deus. Deus não nos criou com um destino pré-determinado, mas livres para trilhar a estrada que escolhermos. Embora tendo dentro de nós o germe da vida divina, somos livres de abraçá-la ou não. O fato de não escolhermos a via divina nos afasta de Deus e nos condena ao sofrimento, às dificuldades.

E como explicar então o sofrimento dos justos, daqueles que de modo expressivo e evidente abraçaram a fé em Deus e que conduzem uma vida exemplar, aos olhos da fé? Eu explicaria isso não como uma questão pessoal, mas como uma consequência da escolha coletiva. Não somos isolados, mas fazemos parte de uma missão comunitária. Não basta escolher pessoalmente o seguimento de Cristo; é necessário que o mundo inteiro siga os ensimentos cristãos. Só então se realizará o céu em terra. Enquanto existir alguém que peca, o sofrimento nos acompanhará.

Outro ponto importante, do qual temos que ter sempre consciência, é que a religião não é retribuitiva. Corremos constantemente o risco de considerar uma vida desgraçada como consequência do pecado individual e uma vida próspera como fruto da dedicação ao seguimento de Cristo. Muitas igrejas se baseiam nestes princípios para prometer uma recompensa imediata, uma vida cheia de prosperidade. Isso não é cristão.

Em relação à Bíblia, o texto fundamental para uma reflexão em torno desse tema é o livro de Jó. Era um personagem muito fiel a Deus, justo, mas que foi muito provado, primeiro perdendo todos os seus bens e depois inclusive os próprios filhos. Jó se mantém fiel, mesmo na desgraça, e censura a própria mulher, que o convida a amaldiçoar a Deus. Três amigos seus se aproximam e procuram compadecer-se dele. Os três, embora com características diferentes, defendem a tese tradicional da retribuição terrestre: se Jó sofre é porque pecou; pode parecer justo a seus próprios olhos, mas não o é aos seus olhos.

Jó não aceita a tese dos amigos, mas ao mesmo tema sempre esbarra no mistério de um Deus justo que aflige o justo. E nessa situação, profere gritos de revolta e, ao mesmo tempo, palavras de submissão a Deus.

No final, intervém o próprio Deus, respondendo a Jó. Na verdade, recusa-se a responder, pois o homem não tem o direito de julgar Deus, que é infinitamente sábio e todo-poderoso. No final, Jó reconhece que falou sem ter compreendido.