Hoje, participando das celebrações litúrgicas, fomos convidados a refletir sobre o capítulo 23 do Evangelho de Mateus, aquele texto que fala da hipocrisia dos escribas e dos fariseus. Jesus primeiro de tudo constata o que fazem:

  • Observai o que dizem, mas não imiteis suas ações;
  • Amarram fardos pesados sobre as pessoas...
  • Praticam ações com o fim de serem vistos
  • Gostam de lugares de honra nos banquetes
  • Gostam de serem chamados ‘Rabi’

Depois exorta seus ouvintes:

  • Não permitais que vos chamem ‘Rabi’
  • Não chameis a ninguém de ‘Pai’
  • Nem permitais que vos chamem ‘Guias’
  • O maior seja aquele que vos serve
  • Quem se exalta será humilhado
  • Quem se humilha será exaltado.

Gostaria de fazer algumas reflexões e convidar a mudar um pouco a perspectiva da nossa interpretação.

 

Contexto histórico

O primeiro elemento que necessita da nossa atenção é o contexto histórico. Atribuímos corretamente essas palavras citadas por Mateus a Jesus. Mas precisamos ter consciência que Mateus escreveu esse texto cerca de 50 anos depois da morte de Cristo, por volta do ano 80. Durantes esses anos aconteceram muitas coisas na vida da Palestina. Entre elas está um fato fundamental para a interpretação dessa página. O Templo de Jerusalém foi destruído e com essa tragédia se perdeu tudo o que era relacionado com a vida desse local, principalmente o sacrifício e o sacerdócio e a ideia de construir ao redor do Templo a identidade de Israel. Em seguida, com a intuição do Rabi Yochanan ben Zakai, não tendo mais sacrifícios e sacerdócio, o povo judeu criou identidade ao redor do rótulo da Torah. Todavia, a Torah era rodeada por um tipo de ‘cerca’, que eram as ‘mitzvot’ (613 leis), as coisas práticas, as atitudes que precisavam ser observadas 24 horas ao dia, pequenos detalhes que garantiam a santidade do povo. Era isso que identificava, a partir da destruição do Templo, o povo judeu: não mais Jerusalém, o templo, o sacrifício ou o sacerdócio.

Os cristãos, nesse período, já haviam começado a criar a própria identidade. Mas não eram alheios à vida dos judeus. A destruição do Templo provocou neles um duplo sentimento. Por um lado leram esse fato como uma punição divina contra Israel, que não reconhecera Jesus como Messias. Chegaram inclusive a pensar em uma substituição do ‘sócio’ de Deus: havia escolhido os hebreus como seu povo, mas por causa da desobediência mudou de ideia e agora o havia abandonado, elegendo a igreja. Outra atitude assumida pelos cristãos foi aquela de colocar ao centro da própria vida a figura de Jesus, sublinhando o seu ensino como elemento vital da própria vida. Isso é colocado em contraste com a centralidade da Lei vivida pelos judeus daqueles mesmos anos. Não só destacam a centralidade de Jesus nas suas vidas, mas descobrem que Jesus elevou todos à dignidade de filhos e filhas, rendendo todos irmãos, sendo o Pai de Jesus o pai de todos e o próprio Jesus irmãos de todos.

São elementos importantes que nos ajudam a entender o texto de Mateus.

 

Interpretando o texto

Mateus começa legitimando o ensinamento dos fariseus e escribas. De fato, foi Deus quem os colocou sobre a “cátedra de Moisés” e por isso é preciso ter em conta o ensinamento, mas precisa prestar atenção àquilo que fazem: não se faça como eles.

No interno da Igreja, durante os 50 anos que separa o texto de Mateus da vida de Jesus, aconteceram fatos muito parecidos com aqueles vividos pelos judeus (veja Mateus 18). Pessoas e grupos começaram a pretender lugares de destaque e desejavam ser protagonistas; gente que não era coerente com aquilo que ensinava. Havia pessoas que procurava se aproveitar do papel que tinha dentro da comunidade para promover a si mesmos; pessoas que exercem o próprio papel de líder como um poder.

Mateus, que vê como funciona a própria comunidade, então procura colocar essa realidade diante dos olhos dos seus destinatários e apelar à conversão da ação conforme o ensinamento de Jesus.

 

Para quem foi escrita essa página

Mateus, quando escreveu, tinha em mente os fatos vividos por Cristo durante o seu ministério, mas foi escrita para a Igreja. Pois também na igreja são legítimos aqueles que têm um papel de ensinamento dentro da comunidade. Todavia, como não deviam ser ambíguos no comportamento os fariseus, também os líderes cristãos não o possam ser.

Um grande erro cometido em relação à interpretação desse texto é interpretá-lo como admoestação contra os judeus, se eximindo de todo e qualquer compromisso pessoal, quando na verdade o texto é dirigido também a nós, apelando à nossa responsabilidade como animadores da comunidade. Não é possível ler essa página como uma condenação dos históricos “escribas e fariseus”, ficando nós mesmos imunes, sem assumir um compromisso. O texto fala também para nós e nos acusa de eventual hipocrsia.