Uma janela sobre o mundo bíblico

Gostaria de uma explicação sobre Marcos 7,24-30, a cura da filha de uma mulher pagã.



  • Pergunta de Telma Alves, Campo Grande
  • 47493
  • 15/02/2009
Luiz da Rosa

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A narração de Marcos, sobre a qual você pergunta, conta a cura, por parte de Jesus, da filha de uma siro-fenícia (veja o texto abaixo), ou seja, de uma pessoa pagã, não pertencente à fé judaica. A mulher insiste para que Jesus cure a filha, endemoniada. Jesus, que está no território de Tiro (e de sidônia), atualmente cidades libaneses e que não estavam dentro dos confins da terra prometida, de Israel, responde à mulher: Deixa que primeiro se fartem os filhos; porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos. (Em Mateus, onde aparece o mesmo episódio, Jesus diz: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel (...) Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-los aos cachorrinhos (Mateus 15,24.26). A mulher insiste com Jesus dizendo: Sim, Senhor; mas também os cachorrinhos debaixo da mesa comem das migalhas dos filhos. Diante da palavra desta mulher Jesus a manda para casa, dizendo que a filha estava curada. E de fato, voltando à casa, a mulher pagã encontrou a filha livre do demônio.

É um texto muito interessante. O aspecto fundamental deste episódio é a relação de Jesus – e do cristianismo – com os pagãos, ou seja, as pessoas que não pertenciam ao povo judeu e que, em princípio, não acreditavam em YHWH, o Deus de Israel. Os pagãos (goyim, em hebraico) eram vistos pelos judeus como pecadores, idólatras e que encarnavam a impureza (Esdras 6,21). Por isso eram considerados inimigos de Deus e do sue povo (Salmos 79,1-10; Jeremias 10,25). De fato é Israel que é o povo escolhido, o povo da revelação; a ele é dada a presença de Deus (Números 14,14).

Jesus, sendo filho do seu povo, da sua época, participava desta visão. Essa narração (e também a cura do filho do centurião romano – Mateus 8,5 seguintes; Lucas 7,1ss), contudo, mostra que não fiocu passível diante de tal contexto. Poderíamos dizer que a insistência e as palavras da mulher pagã, neste nosso texto, “ensinaram” a Jesus, abriram seus olhos e fizeram com que entendesse que também os pagãos deveriam participar da sua obra salvífica.

Este conflito reflete também a situação da primeira comunidade cristã. Alguns, na Igreja primitiva, pensavam que a mensagem cristã devia ficar restrita ao território de Israel ou aos judeus (veja a polêmica no Concílio de Jerusalém – Atos dos Apóstolos 15). Mas a consequência direta da morte e ressurreição de Jesus é o mandamento da missão universal (Mateus 28,16-20: Ide, fazei discípulos de todas as nações.... Fator decisivo nesta empresa foi o apóstolo Paulo, apóstolo dos pagãos (gentios). Logo depois da sua chamada, teve certeza que o Senhor lhe tivesse dado a missão de anunciar o evangelho entre os povos (Gálatas 1,16; Atos 26,17); a Pedro tinha sido confiada a evangelização dos cricuncidados e a Paulo a mesma missão junto aos incircuncidados (Gálatas 2,8).

Portanto, chegando à conclusão, acredito que lendo esse texto devemos ter em mente alguns aspectos:
* A fé da mulher pagã consegue ‘chaqualhar’ as convicções de Jesus e do cristianismo nascente.
* A salvação oferecida por Jesus não tem limites de fronteiras ou povos.


Marcos 7,24-30 (veja também Mateus 15,21-28)

Levantando-se dali, foi para as regiões de Tiro e Sidom. E entrando numa casa, não queria que ninguém o soubesse, mas não pode ocultar-se; porque logo, certa mulher, cuja filha estava possessa de um espírito imundo, ouvindo falar dele, veio e prostrou-se-lhe aos pés; (ora, a mulher era grega, de origem siro-fenícia) e rogava-lhe que expulsasse de sua filha o demônio. Respondeu-lhes Jesus: Deixa que primeiro se fartem os filhos; porque não é bom tomar o pão dos filhos e lança-lo aos cachorrinhos. Ela, porém, replicou, e disse-lhe: Sim, Senhor; mas também os cachorrinhos debaixo da mesa comem das migalhas dos filhos. Então ele lhe disse: Por essa palavra, vai; o demônio já saiu de tua filha. E, voltando ela para casa, achou a menina deitada sobre a cama, e que o demônio já havia saído. Tendo Jesus partido das regiões de Tiro, foi por Sidom até o mar da Galiléia, passando pelas regiões de Decápolis. E trouxeram-lhe um surdo, que falava dificilmente; e rogaram-lhe que pusesse a mão sobre ele. Jesus, pois, tirou-o de entre a multidão, à parte, meteu-lhe os dedos nos ouvidos e, cuspindo, tocou-lhe na língua; e erguendo os olhos ao céu, suspirou e disse-lhe: Efatá; isto é Abre-te. E abriram-se-lhe os ouvidos, a prisão da língua se desfez, e falava perfeitamente. Então lhes ordenou Jesus que a ninguém o dissessem; mas, quando mais lho proibia, tanto mais o divulgavam. E se maravilhavam sobremaneira, dizendo: Tudo tem feito bem; faz até os surdos ouvir e os mudos falar.

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