Marcelo, na sua pergunta existem duas questões centrais que tem a ver com a Bíblia: a sua inspiração e a sua inerrância.
Do ponto de vista da fé católica, o documento do Concílio Vaticano II ‘Dei Verbum’ (A Palavra de Deus) diz o seguinte:
1. todo os livros seja do Antigo que do Novo Testamento são escritos por inspiração do Espírito Santo. Deus escolheu pessoas com suas próprias capacidades e faculdades e agiu através deles para que, como verdadeiros autores, escrivessem as coisas que Ele queria.
2. Em conseqüência, os livros da Bíblia insinam, sem erro, a verdade que Deus quis revelar aos homens para a sua salvação.

Destas afirmações se vê que é admitido que a Bíblia tem Deus como origem e que nela não existem erros.

Por outro lado, diante de certas narrações e situaçãos que encontramos nela (violências, mortes, estupros, etc), não se pode deixar de perguntar-se até que ponto aquilo que é escrito na Bíblia é para ser considerado ‘divino’, ou seja, ‘bom’ e ‘verdadeiro’.

Além da recomendação para ler bem os textos para atribuir a Deus exatamente aquilo que deve lhe deve ser atribuido e não o que é reflexo de um estilo humano e imperfeito de justiça, é o caso de sublinhar una idéia essencial e uma distinção importante, sem as quais corremos o risco de cair na armadilha do integralismo.

A idéia que deve ser sublinhada tem a ver com a relação entre o Novo Testamento e o Antigo. “Os escritos do Novo Testamento reconhecem que as Escrituras do povo judeu (Antigo Testamento) têm um valor permanente de revelação divina. Consideram a base sobre a qual eles estão apoiados. Por conseqüência, a Igreja sempre considerou que as Escrituras do povo judeu fazerm parte integrande da Bíblia cristã” (Documento da Pontifícia Comissão Bíblia: O Povo Hebraico e as suas Sagradas Escrituras na Bíblia Cristã”, 2001 – I.B. 3.8). Esta tese é importante para afirmar definitivamente que nenhum cristão pode considerar o Antigo Testamento como ‘terminado’, ‘superado’, ‘imperfeito’ e nem a revelação nele contida como contraposta ao amor ensinado por Jesus no Novo Testamento. Também não se pode considerar as escrituras do povo judeu e o próprio povo judeu como transmissores de uma imagem de Deus vendicativa e violenta. Julgar assim significaria renegar uma parte fundamental da sua própria identidade cristã.

A distinção importante necessário a ser feita é entre ‘aquilo que serve para a salvação do homem’ (a mensagem, a Palavra de Deus) e o modo através do qual esta mensagem é comunicada aos homens, ou seja, a linguagem: o uso de expressões, das maneiras de dizer, as imagens e os símbolos comuns da época em que tais textos foram escritos, os gêneros literários. Todos esses aspectos são intimamente ligados ao ambiente e à época em que os livros nasceram.

É importante reconstruir este ambiente para entender o por que e em que sentido os autores sagrados escreveram assim: a situação política e social, a vida quotidiana com as suas imagens e símbolos; as expressões linguísticas típicas, a linguagem usada para a comunicação na vida comum, nos tribunais ou para fazer acordos e contratos...

Um exemplo. Onde se fala de ‘chifre’ é preciso saber que no Médio Oriente antigo de época bíblica (como também naquele atual) o ‘chifre’ é uma imagem usada para indicar força, potência e sabedoria. É usado para indicar, por exemplo, a força vitoriosa do Messias (Sl 18,2 – hebraico keren, que as bíblias normalmente traduzem como ‘força’, mas deveria ser ‘chifre’. Ver também os salmos 132,17 – chifre de Davi - e 148,14 – chifre do povo). Mas no mundo latino sabemos bem que não é um símbolo positivo: quem tem ‘chifres’ e uma pessoa traída e que merece compaixão. Desse modo fica bemclaro como seja necessário interpretar o símbolo no seu contexto cultural para entender em que sentido o Messias tem ‘chifres’.

É um pequeno exemplo para mostrar que a mensagem (nela está o aspecto verdadeiro: a força vitoriosa do Messias) é diferente da linguagem (o significado do símbolo ‘chifre’), que é inerente ao lugar, à época e às pessoas que escreveram os livros bíblicos e que foram os primeiros destinatários.

Vale a pena, além disso, mencionar que na antiguidade era normal atribuir a Deus criador algumas características humanas, consideradas como o reflexo da sua vontade e do seu modo de ser, como o cansaço e o arrependimento. Assim como também atribuir a Ele a existência de tudo aquilo que a compreensão humana não conseguia explicar e que, exatamente por que misterioso e imcompreensível, é elevato ao nível divino. Por exemplo, o mistério da vida, do homem e da mulher, da distinção entre o homem e a mulher e da atração sexual derivam de Deus. Porém a Bíblia claramente retém que a responsabilidade da morte e do mal vem do homem e deriva do seu pecado: “Deus não criou a morte e nem se alegra da ruína dos viventes” (Sabedoria 1,13-14); a carta de Tiago diz (1,13-15): “Ninguém, ao ser provado, deve dizer: ‘É Deus que me prova’, pois Deus não pdoe ser provado pelo mal e a ninguém prova. Antes, cada qual é provado pela própria concupiscência, que o arrasta e seduz. Em seguida a concupiscência, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, atingindo o temor, gera a morte.”

Com relação aos eppisódios de viloência ou mesmo desprezíveis que encontramos na Bíblia, é necessário considerar o mesmo princípio. Quando, por exemplo, estamos diante de textos que contam catástrofes cósmicas terríveis ou transformações anormais da natureza temos que saber que nos é sugerida uma linguagem típica chamada ‘apocalíptica’, que é usada muitas vezes para indicar a eminência e importância do “Dia do Senhor”, ou seja, do tempo no qual Deus intervem na história humana para trazer a sua palavra e o sue juízo e para revelar a verdade de todas as coisas. Através desta linguagem que se exprime sempre com estas imagens apocalípiticas, precisa entender o seguinte: a palavra de Deus e a sua intervenção na vida humana são radicais, inesperados e provocam surpresa. Acompanha sempre a experiência da urgência (tempo ‘breve’ para se converter e se salvar), de um acontecimento definitivo (as escolhas que se fazem aqui e agora se refletem na eternidade) e, sobretudo, é uma experiência que não se pode descrever (trata-se de realidades tão ‘divinas’, tão do ‘além-humano’ que pode ser expresso só com imagens bizarras e incomuns).

A época bíblica, porém, reflete também um contexto no qual exitem a violência, os estupros e até os sacrifícios humanos. Trata-se da história humana na qual Deus intervem com a sua palavra. Aqui encontra-se também um aspecto da ‘pedagogia’ divina: para poder ser entendido pelos homens violentos, também a palavra de Deus se exprime com palavras violentas. Isso não significa que Deus seja violento. Estes episódios devem ser lidos iluminados por todas as Escrituras e pela fé, na perspectiva do decálogo, do amor para com o próximo e amor do inimigo e – para os cristãso, do amor de Cristo até a morte de cruz.

No mistério da Palavra de Deus que se encarna tomando a linguagem humana para se fazer entender e que perpassa os séculos para comunicar com as pessoas de todas as épocas, a verdade não está obviamente no mal que deve ser redimido. As coisas negativas da história são aquilo que a história deve curar. A salvação para a qual gradulamente e nos séculos a Palavra pretende nos levar não é a vingança, nem a viloência, nem o egoísmo, mas o amor que se encarna, que entra dentro da história e dentro do seu mal e que ali gera vida.