Para estabelecer um percurso histórico sobre os originais da Bíblia cristã é necessário, primeiro de tudo, ter presente que a Bíblia, como temos hoje, foi fixada definitivamente somente no Século XVI, com o Concílio de Trento, por ocasião do conflito protagonizado por Martinho Lutero. Até então cada livro teve uma própria história e seria necessário traçar um percurso singular para cada um deles. Apesar disso podemos dizer, em linhas gerais, que hoje não possuímos nenhum documento original da Bíblia. Há milhares de manuscritos espalhados pelo mundo, em diferentes bibliotecas, alguns mais antigos e outros mais atuais. Alguns trazem apenas pequenas frases e outros são grandes manuscritos em forma de códice, com a maioria dos livros existentes nas versões bíblicas atuais e, às vezes incluem inclusive outros livros que acabaram não sendo canonizados. Em relação o Novo Testamento, o manuscrito mais antigo é conhecido como P 52 (Rylands Library Papyrus) e contem 3 versículos do Evangelho de João (18,31–33). Em relação ao Antigo Testamento, os textos mais antigos são aqueles encontrados em Qumran.

É muito difícil fazer uma síntese do material manuscrito à disposição dos pesquisadores. Para os textos do Novo Testamento estima-se que existam cerca de seis mil manuscritos, cada um com sua importância. Todavia, em relação ao grego, poderíamos ao menos acenar a alguns manuscritos considerados muito importantes, sobretudo porque eram verdadeiros livros (são chamados “códices”), que reuniam todos os livros bíblicos. Citamos três: Códice Sinaitico (III século), Códice Vaticano (IV Século) e Códice Alexandrino (V século). Esses manuscritos continham a bíblia completa, Antigo e Novo Testamento, conforme a versão católica, além de outros livros da tradição cristã, que não entraram na lista definitiva. Esses manuscritos não estão mais íntegros, pois algumas folhas foram perdidas, mas a maior parte do texto chegou até nós e são fontes importantes para a Crítica Textual. Com a revolução digital, hoje é inclusive possível visualizar na rede o Códice Sinaítico (http://codexsinaiticus.org).

Sobre os manuscritos do Antigo Testamento a história é mais complexa. Também nesse caso temos milhares de manuscritos. Todavia o manuscrito mais antigo que traz o conjunto completo dos livros bíblicos em hebraico é do ano 1000, o Codex Leningradensis. Esse é o texto base usado pelas edições críticas da Bíblia em hebraico, como a Biblia Hebraica Stuttgartensia.

É importante notar que para os livros do Antigo Testamento é necessário também considerar as traduções antigas desses livros, sobretudo para o grego e para o aramaico. Isso é necessário, pois ainda antes de Cristo o Antigo Testamento já tinha sido traduzido e essas traduções ajudaram a fazer com que o texto do Antigo Testamento tenha chegado até nós.

Não podemos deixar de sublinhar a importância dos textos descobertos em Qumran, na metade do século passado. Graças a esta descoberta, como já dito acima, hoje temos textos bíblicos do Antigo Testamento perfeitamento conservados, que são do tempo de Cristo. No sítio próximo ao Mar Morto foram encontrados textos, pedaços dos escritos, de todos os livros em hebraico do Antigo Testamento, excetuando o livro de Ester. Os manuscritos de Qumran foram escondidos no período da guerra dos judeus com Roma, por volta do ano 70 depois de Cristo. Na “biblioteca” de Qumran, embora alguns anúncios sensasionalistas, não haviam textos cristãos.