Introdução

As comunidades de Marcos e do Discípulo Amado apresentam dois relatos a respeito do pedido que mães fizeram a Jesus, que quando comparados podemos perceber uma semelhança na situação, na reação de Jesus e na atitude de resposta das mães. Elas, Maria, a mãe de Jesus e a mulher sírio-fenícia são impulsionadas pelo Espírito a perceberam que só Jesus poderia modificar a situação e a insistirem com ele em agir.

A mulher sírio-fenícia, segundo Mc 7,24-30, ouve falar que Jesus estava naquela região. Ela acredita que Jesus é quem teria o poder de libertar sua filha do demônio que a atormentava. Esta compreensão e fé se devem ao Espírito, pois o Senhor o enviará: “ele será derramado sobre toda carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão” (cf. At 2,17 e Jl 2,28). A comunidade do Discípulo Amado nos esclarece a função do Espírito:“o Defensor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14,26., Esse Espírito é quem revela a mulher quem é Jesus e o seu poder.

É o mesmo Espírito que a impulsiona, e move para ir até onde Jesus se encontrava, pois segundo o relato de Marcos, o próprio Jesus não queria que soubessem da sua presença naquela região, em Tiro.

 

O pedido impulsionada pelo Espírito.

Cheia de coragem a mulher sírio-fenícia entra na casa onde Jesus estava e em atitude de humildade, reverência e súplica, atira-se aos pés dele. Ela pedia (`erota) insistentemente que expelisse o demônio que atormentava sua filha.

 No texto da comunidade do Discípulo Amado, em que Maria, a mãe de Jesus, na festa de casamento em Caná, da Galiléia, constata que não há mais vinho, ela indiretamente também faz um pedido a Jesus ao lhe dizer: “Eles não têm vinho!” (Jo 2, 3).

 

A reação e resposta de Jesus ao pedido recebido.

A resposta de Jesus à mulher síro-fenícia, a princípio nos intriga, quando lhe diz: “Deixa primeiro que os filhos se saciem; pois não fica bem tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos” (Mc 7,27).

A reação de Jesus ao pedido de sua mãe, quando ele lhe diz: “Mulher para que me dizes isso? A minha hora ainda não chegou” (Jo 2,4),  foi um pouco semelhante para com a mulher sírio-fenícia. Pode-se deduzir que aparentemente há uma condição para que Jesus comece a manifestar seu poder, embora ele não coloque diretamente um impedimento para sua atuação.

 

O argumento e reação da mulher sírio-fenícia e de Maria à resposta de Jesus.

  A sírio-fenícia, sob a inspiração do Espírito da Verdade, responde com firmeza a Jesus: “Senhor, também os cachorrinhos, debaixo da mesa comem as migalhas que os filhos deixam cair” (Mc 7,28). Esta resposta faz com que a vontade de Deus seja entendida, por Jesus e posteriormente pelas comunidades cristãs, que  a ação de Deus já não é mais destinada como primazia para os que se consideram como filhos, mas que todos igualmente são convidados e dignos de partilhar o mesmo pão e das graças de Deus, na mesma hora e juntos na mesma mesa.  A fala e luta da sírio-fenícia é de quem sofre todas as discriminações da época: por ser mulher e estrangeira. No seu argumento ela diz a Jesus que muitas vezes os filhos não sabem dar valor ao pão que lhes é oferecido e que o desperdiçam, e, mesmo sendo em migalhas, em pequeninas porções desperdiçadas, os excluídos, os famintos do pão e da graça de Deus, fazem com elas um banquete. Para eles as migalhas são muito bem aproveitadas e por isso está na hora de serem convidados também a participar da mesa do banquete das graças de Deus.

Na época de Jesus, no mundo judaico, a sociedade vivia numa hierarquia em que primeiro estavam os filhos de Israel, os herdeiros da promessa, da benção e da atenção de Deus. Deste modo quem não pertencia a este povo deveria esperar que primeiro os filhos de Israel recebessem sua atenção, e muitas vezes nem eram considerados dignos das graças de Deus.

 É o Espírito da Verdade que faz a mulher sírio-fenícia compreender que esta situação de discriminação, não é a vontade de Deus, pois os filhos de Israel também assim foram tratados, quando no Egito estavam sendo excluídos e oprimidos. Ela em sua argumentação pela recuperação de sua filha, quer dizer que todos os seres humanos foram criados a imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27) e que segundo Paulo, em Cristo todos são um (Gl 3,28), portanto todos são filhos e dignos de estarem juntos à mesma mesa.

E Jesus reconhece que as palavras que ela lhe diz são revelação do Pai, pois segundo ele mesmo é o Pai que revela as coisas não aos sábios, mas aos pequeninos (cf. Mt 11,25), e que também é o Espírito da Verdade que está e permanece junto com eles (cf. Jo 14,17). É este mesmo Espírito que faz com que a mulher sírio-fenícia reconheça Jesus como o Kyriós, o Senhor, e diante dele, ela mantém sua humildade, mas também a firmeza na reivindicação em prol de sua filha e também de todas as pessoas excluídas de sua época. A sua palavra inspirada inaugura um novo tempo de luta pela inclusão e pela graça de Deus.

 É a palavra da mulher que leva Jesus a atendê-la. Reconhece que sua argumentação é justa e que sua filha merecia ser liberta do demônio que a atormentava. E ele lhe diz: “Por causa desta palavra vai, saiu o demônio de tua filha” (Mc 7,29). Ela acredita na palavra de Jesus e vai (ypage), sai imediatamente para sua casa. Foi a força da palavra da mulher, inspirada pelo Espírito da Verdade, que a levou a denunciar, pedir, argumentar e convencer Jesus para que a situação de doença e exclusão fosse superada.

 Em Caná, como a mulher sírio-fenícia, Maria, a mãe de Jesus, é inspirada pelo Espírito a compreender que só Jesus poderia modificar a situação da falta de vinho na festa, e ela diz com firmeza aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser!”(Jo 2,5). A insistência no seu pedido e a segurança como fala aos serventes motiva Jesus a agir. O argumento da mãe é mostrar a Jesus que existem pessoas que também acreditam que a situação pode ser transformada com a ajuda dele naquele momento e que elas estão dispostas a agir. Ele então pede aos serventes para encherem com água seis talhas de pedra que ali se encontravam cada uma com capacidade para quase 100 litros (cf. Jo 2,8).

 

O efeito da ação de Jesus

A mulher síro-fenícia ao voltar para casa encontra sua filha liberta do demônio jogada sobre a cama (Mc 7,30). A situação de dominação pela força do mal e pela exclusão extenua, tira toda energia de quem quer resistir e ao sentir-se liberta a pessoa ainda não possuiu forças para ficar de pé por si mesma. Necessita descansar, se recuperar para poder viver livre do que a oprimia. Esta é também a situação de muitos dos excluídos e oprimidos de nosso tempo que depois de libertos, também precisam de um tempo para recuperar suas forças e energias para que possam caminhar por si mesmos.  

Na festa de casamento, em Cana da Galiléia, onde falta vinho, são os serventes, os pequenos que reconhecem em Jesus um poder, isto também lhes é revelado pelo Espírito da Verdade, pois realizam tudo o que Jesus lhes pede sem o questionar: porque água se a necessidade é de vinho? E mais ainda porque tamanha quantidade de água (cerca de 600 litros)? Eles confiam em Jesus e agem como ele lhes pede. São impulsionados a agir pelo Espírito, ao providenciar em curto espaço de tempo cerca de 600 litros de água. Eles enchem as talhas até a boca e Jesus lhes manda tirar de onde estava a água e levar ao encarregado da festa e, já não é mais água e sim vinho e vinho de excelente qualidade.

 Os serventes, os pequenos, empenham-se em participar como co-atores com Jesus no processo de transformação da água em vinho, da vida sem benção e graça, para uma vida abençoada e repleta da graça de Deus. Segundo o relato da comunidade do Discípulo Amado, Deus quer a participação de todos para que uma transformação aconteça na sociedade, não podemos ficar de braços cruzados e esperar somente por Deus.

Assim como a mulher sírio-fenícia que impulsionada pelo Espírito vai até Jesus e o convence da necessidade de sua ação em favor de sua filha, Maria e os serventes também são inspirados e entendem que o momento é de adesão completa a Jesus. È momento de reivindicar, de não ficar calada, de agir em união confiando em Deus, na força do Espírito.