O denominador comum desta pergunta muito complexa é o simbolismo do Apocalipse, que tem suas raízes num contexto literário chamado “literatura apocalíptica”. Essa literatura, típica do judaísmo, aparece a partir da volta do exílio em Babilônia. Encontramos exemplos desse modo de escrever também na Bíblia, seja no Antigo que no Novo Testamento. Trata-se de inúmeros textos caracterizados por uma visão do tempo e da história onde aparecem criaturas angélicas boas e más, anjos que são simbolizados por montes e astros e onde se encontra a idéia da destruição total do mundo atual para dar lugar a um mundo novo. O inferno, ou seja, o local, sem distinção, de todos os mortos, é embaixo da terra, onde está também o fogo (como testemunham os vulcões) e a água (como testemunham as nascentes). O mar separa a terra, que se apóia sobre pilares como as palafitas, dos abismos, que estão embaixo de tudo.

Para uma pessoa da época antiga que morava na área do Oriente Médio, o Grande Mar é o Mediterrâneo, para além do qual se encontram as ilhas, Chipre, Creta, Cecília e, em geral, as terras ocidentais. O Monte Sião é o Trono sobre o qual reside a glória de Deus (ou seja, a sua manifestação) e o lugar do Templo, onde Ele pode encontrar o homem (veja Ezequiel 11,23 e 43,1-4).

O Templo, com sua liturgia, espelha na terra o culto que na verdade se realiza no céu por parte das miríades de anjos e santos. Contudo, na apocalíptica, também um homem que não tem dignidade sacerdotal pode ser escolhido por Deus para entrar nos mistérios espirituais: ele ‘vê’ os céus se abrirem e pode assim perscrutar para além deles. Porém, como Deus não pode ser visto por ninguém, eis que o vidente, o profeta, ‘vê’ o trono, o manto, a glória, o rosto... Todas essas imagens são manifestações divinas percebidas pelo ser humano.

Visto que nesta dimensão divina não existe tempo, mas um eterno presente, então tudo isso que acontece sobre a terra é o espelho, digamos, a ‘encarnação’ daquilo que acontece no mundo de Deus: anjos malvados guerreiam entre si ‘no céu’ e as suas contrapartes terrenas, que são os reinos e seus soberanos, guerreiam na terra.

Os fiéis, que só podem escutar a palavra do profeta, têm a tarefa de examinar a realidade na qual vivem para descobrir os sinais que revelam a veracidade da sua palavra. Assim, essa palavra, a Escritura, é relida e interpretada, para ser adaptada à realidade. Desta forma as palavras proféticas começam a significar coisas novas e se tornam ‘alegorias’, ou seja, linguagem que precisa ser decifrada, um código feito por símbolos difíceis que – para ser verdadeiramente entendidos – precisam ser decodificados.

No Apocalipse temos símbolos cósmicos, antropomórficos (inerentes à esfera da vida humana), teriomórficos (inerentes aos animais), cromáticos (relativos às cores) e aritméticos. Obviamente têm sempre o seu significado ordinária (os animais, por exemplo, devoram, rugem, mordem ou simplesmente existem), mas, simbolicamente, em que se transformam?

Limitando-me somente aos símbolos presentes na sua pergunta, a Mulher (símbolo antropomórfico), gyne, tem as características positivas ordinárias, isto é, exprime o amor, a espera, a maternidade e o dom de si. Neste quadro, ela é também ‘mãe’ (meter), ‘esposa/noiva’ (nymphe), mas se torna uma imagem negativa quando encontramos o termo ‘prostituta’ (porne). Pode-se ler, de modo positivo, a imagem da Igreja e da mãe de Jesus; de modo negativo, o sistema encantador e atraente do poder e da idolatria que leva os homens a se desviarem, a abandonar a própria fé. A tradição bíblica, de fato, vê freqüentemente em Israel a ‘esposa/mulher’ de Deus, fiel à sua Aliança, ou prostituta, porque infiel através da sua idolatria.

Com a besta (therion), o dragão (drakon) e o cavalo (ippos) entramos no mundo do simbolismo teriomórfico, no qual temos também o cordeiro, o leão, a águia, passarinhos e uma série de insetos. Em geral, os animais encarnam uma força e um comportamento imprevisíveis e incontroláveis pelo homem. As suas ações irrompem na história como uma força normalmente negativa (há exceções), embora sempre debaixo do controle divino. Os animais constituem forças ativas na história, percebidas como incontroláveis, imperscrutáveis, seja que se tratem das forças negativas, que das ações benéficas das forças positivas.

O dragão, que aparece freqüentemente como oposto à Mulher, em Apocalipse 12,9 e 20,2 é identificado como a ‘antiga serpente’, ‘o satanás’, o enganador, que dá o seu poder aos potentes da terra (13,2.4.11). Na sua contraposição ao dragão, a Mulher pode ser vista como a mãe de Jesus, ameaçada pelo poder demoníaco que tenta obstruir o parto e ameaça a vida do Filho, até matá-lo, e que, porém, será ‘elevado’ para Deus (uma alusão à ressurreição); todavia pode ser interpretada também como a Igreja que leva Cristo ao mundo e que sofre constantemente a mesma ameaça.

A besta normalmente representa um poder humano, exercido sob o sinal negativo da submissão ao mal, um rei, príncipe ou autoridade, que exercita um governo malvado, expressão do poder maléfico do dragão.

O cavalo de Apocalipse 6,2 é caracterizado pela cor. O branco representa normalmente a transcendência, a ressurreição. Quem veste a roupa branca é ressuscitado (veja também Apocalipse 19,14). A roupa de linho branco da esposa é a glória das suas boas obras. Neste sentido é possível interpretar o cavalo branco como aquele de Cristo. No texto ele tem um ‘arco’ que, porém, não tem sentido bélico (não são mencionadas as flechas) e deve ser relacionado com o ‘arco’ de Gênesis 9,13, o arco-íris que – no final do dilúvio – sinaliza a nova paz entre Deus e homem (neste texto do Gênesis, a tradução grega dos LXX tem o mesmo termo usado aqui no apocalipse, que aparece uma única vez em todo o Novo Testamento: ‘toxon’).

O simbolismo numérico da cifra 144.000, que encontramos em Apocalipse 7,4 e que se refere aos ‘assinalados’ com o selo, é feito com a multiplicação de 12 (as 12 tribos de Israel) por 12 por 1000 (mil anos é o tempo simbólico da igreja que caminha com Cristo na esperança de sua vinda definitiva). Trata-se, evidentemente, de uma exemplificação que se refere, em algum modo, a Israel. Mas, quando falamos de ‘salvos’, é necessário considerar que logo depois, em Apocalipse 7,9, entra em cena “uma multidão, a qual ninguém podia contar”, uma recordação da descendência inumerável que Deus prometeu a Abraão (Gênesis 15,5; 22,17;32,13, ecc.) e que, talvez, identifica-se com os fiéis provenientes de todas as populações. Está claro que o número 144.000 não deve ser lido literalmente como número total de salvos, que obviamente são muito mais numerosos.

Concluindo, como já dissemos em outro lugar, o simbolismo deve transcender a realidade que temos diante dos olhos. Tem que valer para agora e para o futuro. O risco de atribuir ‘nome e sobrenome’ ou de identificar fisicamente e cronologicamente as imagens simbólicas do Apocalipse é de acabar anulando o próprio símbolo, porque, dessa maneira, o símbolo não pode ser mais aplicado no futuro. Esta é também a razão por que se fala por meio de símbolos. Na história não temos somente Herodes, os babiloneses, o faraó, Hitler que encarnam o mal. Sabemos bem que tais realidades podem se repetir continuamente no tempo e nas pessoas. Por isso, uma narração como o Apocalipse usa imagens simbólicas que nos podem ajudar a reconhecer e a nos afastar do mal em cada momento em que ele entra na nossa vida. Temos, então, a imagem de uma besta, de uma cor ou de uma prostituta que nos indicam a negatividade que devemos reconhecer em certas situações: violência, governo iníquo potência sedutora do dinheiro e do poder... Mas porque os cristãos não são chamados a identificar somente o mal em suas próprias vidas, eis que temos também tantos símbolos positivos através dos quais podemos perceber os sinais da presença e do agir do Ressuscitado que, segundo Mateus 28,20, prometeu: “eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”.

Todas essas forças, positivas e negativas, que entram em cena no livro do Apocalipse, são objeto da ‘revelação’ (é isto que significa a palavra grega apocalypsis) feita a João. Não se trata da revelação de como será o fim do mundo, mas de instrumentos que ajudam a discernir entre o bem e o mal na vida quotidiana da Igreja. Tudo isso, não esqueçamos, baseado na perspectiva da grande derrota das estruturas de pecado e na glorificação dos justos, daqueles que, reconhecendo-o, tem a coragem de afastar-se do mal.

O Apocalipse é uma espécie de viagem que permite que nos aproximemos da realidade da justiça e da glória do nossa estrada terrena. Trata-se, portanto, ao contrário daquilo que normalmente pensamos, de uma grande mensagem de esperança.