Uma janela sobre o mundo bíblico

Por que, nos dias de hoje, não somos mais capazes de ver ou crer em milagres realizados, como, por exemplo, surdos ouvirem?



  • Pergunta de Luiza Morais, São João de Meriti-RJ
  • 2695
  • 05/10/2007
Maria Bruti

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Esta pergunta nos conduz diretamente à Bíblia, onde toda a História de Israel é caracterizada pelas intervenções de Deus que podem ser descritas como “sinais” e “milagres”. Os “sinais” a partir dos quais o povo hebreu deve reconhecer o seu Deus. Todavia tais sinais não podem ser considerados isoladamente, mas dentro da obra da salvação de Deus. Em Gênesis 1,1 – 2,4, através da união da palavra (“e Deus disse”) com a ação (“Deus fez”), dá-se origem ao milagre do criado, a partir do qual se desenvolve a História da Salvação. Sempre no Antigo Testamento, os acontecimentos do êxodo são vistos como sinais e milagres (veja Deuteronômio 26,8).

Também Jesus nos Evangelhos realiza milagres; porém eles não têm fins em si mesmos, mas aparecem como sinais do Reino de Deus que vem. É o Evangelho de João que desenvolve profundamente esta interpretação. Para ele as ações de Jesus não são terata (prodígios), como diziam os pagãos e repetem principalmente os Atos dos Apóstolos, mas também não só apenas dynameis (obras potentes), como costumam dizer em alguns lugares os evangelhos sinóticos, mas são sim semeia (sinais) de uma realidade superior. Isso vale para o milagre de Canã, para a multiplicação dos pães e para a ressurreição de Lázaro. Embora de forma diferente, isto é aquilo que também os sinóticos pensam. Eles não usam o termo semeia com a freqüência de João, mas o milagre significa igualmente ‘sinal’.

Acredito que esta concepção de milagre, aqui brevemente resumida, não é mais compreendida hoje, ou foi esquecida. Por isso, muitas vezes, não se acredita mais em milagres. Na verdade nós esperamos e queremos o milagre na perspectiva prática, imediata, de solução para os nossos problemas. Isto é compreensível diante, por exemplo, da realidade da doença, da dor e, em geral, do sofrimento humano, e é, de qualquer forma, uma perspectiva que, por exemplo, a Igreja Católica não exclui, que, todavia, presta muita atenção no fato de verificar a possibilidade real dos milagres, como o fato de ficar curado de uma doença.

Porém o milagre-sinal do qual os evangelhos falam não tem como finalidade somente uma cura, mas é essencialmente ligado com a salvação, o perdão dos pecados. Além disso, e também este é um aspecto importante a ser considerado, ele não tem como conseqüência a fé, mas se realiza a partir da fé, nasce da fé (veja Marcos 10,52: “Jesus disse: ‘Vai, atua fé ti salvou!’ E imediatamente começou a ver e seguiu Jesus pela estrada.”).

Concluindo, poderíamos dizer que não somos capazes de ver ou de acreditar nos milagres porque a nossa fé é pobre; porque muitas vezes temos uma fé que esquece que o seu fundamento não são os prodígios, nem as ações extraordinárias que Jesus realiza, mas é a pessoa de Cristo, é Jesus Filho de Deus, que veio para realizar o Reino. Todavia, o agir de Jesus nos conduz a acolher também a possibilidade que, segundo uma lógica e um modo que são incompreensíveis para nós, algumas pessoas, alguns acontecimentos se manifestam de forma extraordinária, também no nosso meio, como sinais para a nossa esperança, para a esperança do mundo.

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