A sua pergunta abrange dois assuntos diferntes: de um lado a narração que temos em Gênesis 6, com a citação dos assim chamados “filhos de Deus”, de outro a questão dos anjos e dos demônios. Aqui vou tentar responder segundo aquilo que emerge do texto bíblico.

A narração que encontramos em Gn 6 é sem dúvidas um das mais obscuras e, como muitas vezes acontece, de textos assim obscuros surgem também as interpretações mais fantásticas. Sublinho agora alguns tópicos que é importante considerar.

Os capítulos 1 – 11 do Gênesis são uma unidade bem articulada, na qual são apresentadas as origens do mundo e da humanidade. Como já dissemos outras vezes afirmado neste site, temos que considerar que as histórias do Gênesis representam uma “teologia da história”, ou seja, são uma tentativa de esplicar com palavras e imanges tiradas da experiência humana e da fé o por que da existência do mundo, do homem e da mulher, da atração dos sexos, do pecado e da morte.

Também o capítulo 6 deve ser inserido dentro deste contexto. Como no resto dos capítulos, também aqui são evocados antigos mitos elaborados no (Médio) Oriente antigo, mas os autores sagrados os utilizaram para que emprestassem a sua linguagem e as suas imagens para esprimir aquilo que era a esperiência e a fé de quem escreveu a Bíblia: o Deus de Israel é aquele que deu vida ao universo e às criaturas. Ele convida à Aliança, ao diálogo, é o único Deus e tem poder sobre todas as coisas.

Outra coisa que se deve considerar é que este texto forma a ponte entre a história da primeira humanidade (ou, se quisermos, da humanidade como era) e aquela atual. No meio existe uma nova criação que acontece depois do dilúvio. A história serve, portanto, para introduzir o dilúvio e a humanidade nova de Noé, o justo; narra as causas do dilúvio e aquelas da Aliança definitiva feita com toda a humanidade através de Noé.

Também em outras culturas do Oriente Médio existiam mitos, histórias da criação. Nos mitos antigos muitas vezes encontramos referência a outros deuses ou a semi-deuses, heróis, divinidades que se tornam homens. Assim, por exemplo, o costume do “casamento sagrado” que aconteciam entre o rei e as prostitutas sagradas em Babilônia era explicado e motivado pelo mito. No nosso caso temos, talvez, o eco de um mito que conta o nascimento de heróis semi-divinos nascidos de casamentos entre deuses e mulheres o deusas e homens. O objetivo é o de criticar a ideologia que subjaz, segundo a qual a união ritual entre o rei – encarnando o papel de ‘filho de deus’ – e a prostituta sagrada garantia a fecundidade à terra e ao povo. No cap. 6 temos a crítica a tudo isso: por exemplo, no ver. 3 o autor sublinha que é Deus que dá a vida e intervem para decretar, amargamente, que o homem ‘é carne’ e é limitado pelos seus anos.

Identificar os personagens que aparecem nesta história – os ‘filhos de Deus’, as ‘filhas dos homens’ os ‘gigantes’ – não é fácil. Na ótica dos mitos mencionados acima, os primeiros poderiam ser os reis que praticavam os casamentos sagrados e assim o texto tem como intenção criticar a visão pagã de uma vida levada na ilusão de poder criar a vida com as próprias forças e só com os sistemas humanos, sem Deus. Outra hipótese que se fez é que se trata dos filhos de Set (os assim chamados ‘setitas’), que pecam quando se unem às mulhers pagãs. Uma outra hipótese diz que os personagens seriam seres celestes (como indicado na tradução grega dos LXX, que provavelmente se apoia em outros textos bíblicos: Jó 1,6; 2,1; 38,7; Sl 19,1). Neste caso o pecado seria que estas criaturas, misturando-se com as mulheres, eliminam o limite entre o céu e a terra, estabelecido por Deus.

Uma interpretação recende pretende ver na expressão “filhos de Deus” (ou ‘dos Deuses’: a palavra em hebraico pode também ser traduzida no plural) uma alusão aos primeiros filhos homens dos progenitores, que geraram os “grandes homens” (em sentido moral), ou seja, os patriarcas anteriores ao dilúvio, dos quais em seguida se faz um elenco, enquanto que as “filhas dos homens” seriam as primeiras filhas mulheres. Se for assim não se trata de nenhum pecado de natureza sexual, sendo a união a realização do comando de Deus para multiplicar-se.

Exceto essa tese recente, que é bastante isolada, o nosso texto parece referir-se à ‘ações não corretas’, que são mencionadas para explicar o aumento progressivo do mal no mundo, que levará em seguida Deus a exterminar a ‘primeira’ criação por meio do dilúvio.

A outra questão que deriva deste texto, do qual apresentei brevemente a síntese das interpretações da exegese bíblica, tem a ver com os chamados ‘setitas’. Começo dizendo que não sou experta no campo da literatura apócrifa ou pseudo-epigrafa. Posso, porém, dizer o seguinte. Do ponto de vista bíblico, figuras angélicas são apresentadas como criaturas, intermediárias entre Deus e o mundo criado, para sublinhar a absoluta alteridade de Deus com respeito as suas criaturas. A distância entre estas e o seu Criador é tão grande que para realizar uma relação que não prejudique é necessário a mediação de seres intermediários.

Paralelo à tradição bíblica, aquela dos setitas é uma tradição gnóstica nascida já antes do cristianismo e testemunhada por um grupo de manuscritos provenientes de Nag Hammadi. Essa tradição cria um mito cosmogônico com o qual é reinterpretada a concepção hebraica da criação e a relação entre Deus e o mundo. De acordo com essa tradição, Deus teria emanações de gênero masculino e feminino, os ‘eons’, e o mundo celeste seria habitado por figuras sobre-humanas.

Parece que o setismo teve relações com o Cristianismo. Como seita batismal, os seus adeptos se consideravam descendentes dde Set, pelo qual se diziam iluminados e do qual esperavam uma volta salvífica. Em seguida o setismo se cristianizou por causa de uma continua identificação entre Cristo e Set (ou Adão). Em uma terceira etapa, no final do segundo século, invés, se afastou progressivamente do cristianismo em polêmica com a ortodoxia que proibia essa assimilação. Isso chegou até que a doutrina fosse completamente rejeitada pela Igreja, mesmo se permaneceram os contatos sobretudo com alguns grupos contemplativos de idéias platônicas. Com o tempo o setismo se fragmentou em várias seitas de natureza gnóstica.

Para terminar, em relação à última parte da sua pergunta, precisa ter presente que, quando falamos de “visões” por parte de seres humanos (como os santos), temos que considerar que se trata de imagens e palavras utilizadas para transmitir uma mensagem do transcendente, podemos dizer do inefável, extremamente difícil de descrever em termos humanos. Neste caso estamos diante de características da ‘linguagem mística’, um tipo de ‘gênero literário’ que, como acontece também como muitos textos bíblicos, é uma linguagem simbólica que precisa ser corretamente decifrada.