O presente texto ‚??Jesus e a Lei‚?Ě nos desafiam a pensar em nosso contexto de Leis, fazendo um contraponto com o hoje e o tempo de Jesus. O texto inicia com uma leitura das atitudes de Jesus frente √† legisla√ß√£o da Lei de seu tempo e analisa aos seguintes epis√≥dios: quem √© o pr√≥ximo e o n√£o pr√≥ximo; o sistema do culto e do Templo; a observ√Ęncia do S√°bado; a lei do puro e do impuro. Isto tudo representava a fundamenta√ß√£o legalista do sistema judaico. No final confirma-se que Jesus rompeu com as velhas normas e prop√Ķe a observ√Ęncia da Lei do amor que geram vida.

Podemos nos perguntar: como se portou Jesus frente à Lei e a legislação de seu tempo? Como o cristão deve portar-se frente às leis aprovadas e estabelecidas?

Nos temos a fama de desrespeitar a ordem e a Lei estabelecida. Mas onde est√° o erro? N√£o estaria na pr√≥pria lei que desrespeita o homem, tornando-se instrumento de explora√ß√£o, joguete de interesses de grupos avaros de riqueza? Como exemplo disto, temos todos os Decretos-Leis, no setor econ√īmico brasileiro. Nas Leis que fixam os coeficientes de infla√ß√£o, nas que estabelecem os juros banc√°rios etc... Nas leis e normas que orientam a aposentadoria do trabalhador brasileiro. Quantas altera√ß√Ķes, emendas, suspens√Ķes, cria√ß√Ķes de novas leis! Sem falar dos nossos pol√≠ticos que se envolvem em esc√Ęndalos de corrup√ß√£o e que durante meses e anos s√£o feitos julgamentos e que no final n√£o se chega √† conclus√£o nenhuma.

Podemos crer que a maneira ir√īnica que Cristo viveu com as Leis de sua √©poca e as reinterpretou √© luz no emaranhado de nossa vida. N√≥s que buscamos um mundo conforme o Plano de Deus.

As Leis geradoras de morte, nas estruturas do tempo de Jesus e a Nova Lei

Jesus viveu na Palestina, dentro do quadro do Imp√©rio Romano e do Juda√≠smo. Encontrou estruturas sociais geradoras de morte, tais como o sistema da Lei no Juda√≠smo e tamb√©m as Leis econ√īmicas do Imp√©rio Romano. Para podermos compreender em profundidade as atitudes de Jesus e seus gestos, temos que entender tamb√©m a situa√ß√£o do homem de seu tempo. S√≥ assim vamos ter a compreens√£o do posicionamento de Jesus perante a Lei, e o porqu√™ de sua interpreta√ß√£o ir√īnica (muitas vezes) da mesma.

Jesus, em sua √©poca, conseguiu distinguir, de modo claro, as estruturas do seu tempo que sustentavam Leis de morte, daquelas Leis que geravam vida. Perpassando as p√°ginas do Evangelho, encontramos Jesus em constante conflito com os Fariseus, pois eram os guardi√Ķes da mais terr√≠vel estrutura de morte de sua √©poca.

Entretanto, alguns podem pensar que a dominação do Império Romano pudesse oferecer o maior peso de sofrimento ao povo judeu. Olhando dentro da globalidade da situação, a dominação romana representou apenas uma parcela e nos Evangelhos pouca referência a ela encontramos.

As atitudes de Jesus frente às Leis estabelecidas

Se conferirmos os textos que falam de Jesus perante a lei estabelecida, vamos ver que Jesus a desrespeitou muitas vezes. Esta maneira nova de pensar acerca da Lei criou para Jesus um rep√ļdio dos Fariseus, Saduceus, Sacerdotes, que culminou com a morte na Cruz. Os Fariseus, mestres do Juda√≠smo, criticavam asperamente as atitudes de Jesus, pois eram um desrespeito a ordem estabelecida.

Poderíamos nos perguntar por que Jesus não atacou diretamente a estrutura geradora de morte do Império Romano, em vez do Judaísmo. De fato, o Império Romano representava a opressão do dominador estrangeiro, mas não era a espinha dorsal do sistema de morte na Palestina. O Judaísmo, fortemente firmado pela ideologia da Lei e do sistema do Puro e do Impuro (interpretada de modo diverso pelos partidos políticos), decretava, de fato, a morte do povo todo que vivia na Palestina.

Cristo percebeu isto, viu onde de fato deveria iniciar o seu trabalho libertador, e tomou as mais variadas atitudes frente a situa√ß√Ķes diversas, que deixaram os Fariseus at√īnitos.

A. Quem é o próximo e o não-próximo?

O que tem de verdade nesta Lei?

S√©rio problema causador de morte a Lei que distinguia as pessoas e as classificavam em pr√≥ximo e n√£o pr√≥ximo. Os Judeus, apoiados na Lei, desprezavam os Samaritanos por serem impuros, n√£o passavam em seu territ√≥rio para n√£o se tornarem impuros, desprezavam os Galileus pois seus habitantes casavam-se com mulheres estrangeiras. Natanael diz a Felipe: ‚??De Nazar√©, pode sair algo de bom?‚?Ě (Jo 1,46). Da mesma forma, no Templo, os estrangeiros podiam apenas entrar no √°trio dos Gentios e antes da entrada do Templo propriamente dito, dos sacrif√≠cios, existia uma placa condenando √† morte os n√£o-judeus que por ali passassem.

Cristo trouxe uma nova interpreta√ß√£o a esta Lei: n√£o existia mais o ‚??n√£o-pr√≥ximo‚?? e ilustrou a nova doutrina com a par√°bola do Bom Samaritano, dando uma resposta ao legista que lhe pergunta: ‚??E quem √© o meu pr√≥ximo‚?Ě (Lc 10,29): 0 pr√≥ximo √©, para todo o homem, aquele de que nos aproximamos, quer necessite de ajuda quer n√£o.

B. Qual é a verdadeira Lei do Culto e do Templo

Mesmo independentemente dos Evangelhos, podemos concluir que Jesus, como Judeu, durante a sua vida, esteve muitas vezes no Templo de Jerusal√©m, por ocasi√£o das Festas Judaicas. As Leis Judaicas prescrevem tr√™s Festas de peregrina√ß√£o obrigat√≥rias, enumeradas no C√≥digo da Alian√ßa (Ex 23,14-20), segundo o calend√°rio agr√≠cola: na primavera, a Festa dos √Āzimos (P√°scoa); no ver√£o, a Festa da colheita ou Semanas (Dt 16,9); e outra celebrada no outono, a Festa das Tendas ou Colheita dos Frutos. ‚??Tr√™s vezes ao ano, toda a popula√ß√£o masculina comparecer√° diante do Senhor‚?Ě (Dt 16,16).

Os Evangelhos Sin√≥ticos nos falam que Jesus participou apenas de uma Festa da P√°scoa em Jerusal√©m. Mas o Evangelho de Jo√£o, mais fiel √† cronologia, cita a participa√ß√£o de Jesus em cinco festas na cidade de Jerusal√©m, durante os tr√™s anos de vida p√ļblica, sendo tr√™s delas da P√°scoa (Jo 2,13: 1¬™ P√°scoa; Jo 5,1: Festa de Pentecostes ou das 7 Semanas; Jo 6,4a: 2¬™ P√°scoa; Jo 7,2: Festa dos Tabern√°culos; Jo 10,22: Festa da Dedica√ß√£o; Jo 13,1: 3¬™ P√°scoa). Tudo isto atesta que Jesus era fiel cumpridor das prescri√ß√Ķes acerca das peregrina√ß√Ķes a Jerusal√©m.

Mas Jesus toma tamb√©m certas atitudes que geraram conflitos imediatos com os Sacerdotes, Saduceus e Fariseus. O Evangelho de Jo√£o nos apresenta, logo no in√≠cio, a quest√£o dos vendilh√Ķes do Templo (Jo 2,13). Era a Festa da P√°scoa, Jesus estava em Jerusal√©m, sentia o sistema de morte que representava o Templo; pois era o centro religioso, econ√īmico e pol√≠tico. Todo o povo pelo menos tr√™s vezes ao ano, deveria ir l√° para as purifica√ß√Ķes. 0 Templo centralizava o poder econ√īmico: ali se encontrava o dinheiro recolhido do d√≠zimo, ali estava o tesouro p√ļblico, ali era o lugar mais seguro da Palestina. Era justamente neste Templo que a discrimina√ß√£o entre as pessoas se fazia sentir. Existiam as classes sociais, os que ditavam e faziam as Leis para o povo. Tamb√©m no Templo se exercia o poder pol√≠tico: ali funcionava o Sin√©drio que, aliado ao Imp√©rio Romano, governava a povo judaico.

Cristo, no epis√≥dio da expuls√£o dos vendilh√Ķes do templo (Jo 2,13-25; Mt 21,12-13; Mc 11,11.15-17; Lc 19,45-46) quer estabelecer uma nova ordem, pretende terminar com uma estrutura que ditava leis de morte ao povo. O fato ocorre na P√°scoa para dar sentido de passagem. Lembra assim a sa√≠da do Egito, da terra da escravid√£o, para a terra da promessa. Cristo, destruindo o Templo, estava destruindo de vez o sistema diab√≥lico de manipula√ß√£o da Lei. Ele mesmo passaria a ser o ‚??Templo‚?? e, da√≠ por diante, n√£o haveria mais necessidade de um lugar material para o culto (Ap 21, 22): √© no seu Corpo ressuscitado que Deus manifesta a sua Gl√≥ria. A identidade do ser crist√£o se encontra na f√© no Senhor Jesus, morto e ressuscitado, e na uni√£o da Comunidade dos que tem f√©.

C. A Lei da observ√Ęncia do S√°bado: Como entender?

A relativização da Lei farisaica chega a um ponto crucial. Jesus realiza trabalhos que não eram permitidos no Sábado. Os Judeus o condenam violentamente. Ele realiza curas no Sábado, trabalho este condenado segundo a casuística farisaica (Mt 12,10; Mc 3,2; Lc 6,7; 14,5; Jo 5,8). Sob os olhos de Jesus, os discípulos colhem espigas de trigo (Mt 12,1-8; Lc 6,1-5; Mc 2,23-28). Jesus, vendo toda esta casuística farisaica, verdadeiro instrumento de escravidão e de morte, toma atitudes inesperadas e provocatórias diante dos Fariseus.

No epis√≥dio da observ√Ęncia do S√°bado, Cristo redimensiona a Lei. Coloca, como o mais importante, o Homem em vez da Lei: ‚??0 S√°bado foi feito para o Homem; e n√£o o Homem escravo do S√°bado‚?Ě (Mc 2,27). Esta atitude de Jesus faz com que a longa lista do que era permitido ou proibido fazer no S√°bado caia por terra. De agora em diante, √© a Lei do Amor que governa as a√ß√Ķes do homem.

D. Lei do Puro e Impuro: marginaliza o pobre

Junto com a quest√£o do S√°bado, vem a reinterpreta√ß√£o que Jesus faz com as leis farisaicas do puro e impuro. Jesus escandaliza, toca nos leprosos (Mc 1,41; Mt 8,2; Lc 5,12), toca no cad√°ver do filho da vi√ļva de Naim e o ressuscita. Os seus disc√≠pulos escandalizavam os Fariseus, porque comiam e bebiam sem lavar as m√£os. Tudo isto que Jesus e seus disc√≠pulos faziam, tornava impuras as pessoas. Os Sacerdotes e Fariseus, vendo estas atitudes de Jesus e dos disc√≠pulos, os repreendiam severamente. Cristo viu que estas Leis do puro e do impuro eram uma carga pesada demais para o povo. Para tudo, existia uma Lei: o que devia comer ou n√£o, vestir, a dist√Ęncia que podia caminhar no S√°bado, ou o que poderia fazer, etc. Existiam nada menos que 600 mandamentos.

Em conseq√ľ√™ncia de todas estas leis, tornou-se para o pobre um peso insuport√°vel observ√°-las e, com freq√ľ√™ncia, infringia algumas, tornando-se impuros.

Para o pobre em tal situa√ß√£o, existia apenas um caminho: ir ao Templo de Jerusal√©m, nas Peregrina√ß√Ķes, e ali oferecer um sacrif√≠cio, uma esmola, para tornar-se novamente puro. O sacerdote era o que recebia estas ofertas, centralizava o poder econ√īmico em torno de si. S√≥ o sacerdote tinha o poder de restituir ao impuro novamente a normalidade da vida. E o caso do leproso que Jesus cura e diz: ‚??Vai mostrar-te ao sacerdote e oferece por tua purifica√ß√£o o que Moises prescreveu, para que lhe sirva de prova‚?Ě (Mc 1,44).

A Lei do puro e do impuro tornou-se uma opress√£o insuport√°vel. Cristo percebeu isto, e fazia observa√ß√Ķes a todo este ritualismo: ‚??o que, de fato, suja o homem n√£o √© o que vem de fora, mas o que vem do interior do homem mesmo‚?Ě (Mt 15,10-20).

A T√≠tulo de complementa√ß√Ķes: Qual deve ser nossa atitude frente √†s leis que orientam nossas vidas?

Até agora constatamos como Jesus agiu perante as leis do seu tempo, como Jesus percebeu que as leis do seu tempo estavam sustentando um sistema de morte e opressão. Ele foi taxativo. Ele foi duro com o sistema do Templo e com o sistema do puro e do impuro, da discriminação da mulher, com o sistema do sábado.

Olhando agora para o nosso momento, estamos convidados a sermos vigilantes, a cobrar de nossos pol√≠ticos o papel que desempenham de darem a na√ß√£o leis e normas que possam trazer mais vida a todos indistintamente. N√£o tem nenhum sentido existirem leis que protejam grupos ou privilegiados de nossa sociedade. Agir desta forma √© criar situa√ß√Ķes de injusti√ßas que clamam aos c√©us e que cedo ou tarde ser√£o eliminadas.

Leis que decretam a morte de milh√Ķes pela mis√©ria e a fome n√£o v√™em de Deus. Cristo certamente as condenaria. Ao longo dos Evangelhos encontramos um Jesus que sempre esteve ao lado dos pequenos, mas para dar a eles vida: assim foi o caso da cura de tantos, leprosos, cegos, paral√≠ticos. Jesus promoveu a mulher, (que na sua √©poca era desclassificada) muitas delas se tornaram disc√≠pulas inclusive sua M√£e. Jesus indicou com suas atitudes novas formas de vivenciarmos as leis que s√£o estabelecidas e que devem dar vida √† humanidade.