1. Introdução

O objetivo deste estudo √© refletir sobre uma frase importante no Livro do √?xodo, onde o Senhor decide manifestar a Mois√©s a sua beleza. Esta teofania revela tamb√©m que a beleza √© um tra√ßo importante do Rosto de Deus e que, muitas vezes, tanto a reflex√£o b√≠blica, como teol√≥gica e, mesmo a pastoral, t√™m deixado √† margem.

O texto que vamos analisar surge depois da superação do conflito provocado pelo rompimento da aliança, quando o povo de Deus adorou o bezerro de ouro, substituindo o Senhor que havia libertado e caminhado com o povo (Ex 32,1-7). Moisés intercede pelo povo e o Senhor manifesta sua bondade e sua beleza.

Somos da opini√£o que muitos textos b√≠blicos surgiram diante de situa√ß√Ķes de conflitos, crises e dificuldades que o povo de Deus enfrentou em sua caminhada hist√≥rica. A B√≠blia inicia com a supera√ß√£o do caos inicial: trevas, abismo, deserto, vazio... (Gn 1,2a). Foi atrav√©s da Palavra de Deus que surgiu a Cria√ß√£o colocando vida e beleza diante deste quadro de cat√°strofe inicial.

O leitor fiel da B√≠blia vai ver que depois do primeiro relato da Cria√ß√£o (Gn 1,1‚??2,4a), logo surgem novos conflitos, novos caos, novas situa√ß√Ķes de ruptura... √? a solid√£o de Ad√£o que faz com que o Criador encha o jardim de diversas criaturas e por fim da sua companheira. Um novo caos surge quando, instigado pela serpente, o primeiro casal desobedece a Palavra do Senhor e prefere ouvir a voz tentadora, que os levou √† queda. Novamente o Senhor vem em socorro restaurando a harmonia que havia sido rompida. Em seguida, encontramos o assassinato cometido por Caim contra seu irm√£o Abel, √© um novo caos. Depois vem o dil√ļvio provocando o enorme caos e com a sua supera√ß√£o temos a institui√ß√£o da primeira Alian√ßa. O caos da seca que obriga Abr√£o e Sarai a migrarem para uma nova terra desconhecida, onde recebem a Promessa e com eles Deus institui a Alian√ßa. Anos mais tarde o povo de Deus se encontra diante da dura escravid√£o do Egito, o grande caos que provoca o conflito com o fara√≥ e a grande liberta√ß√£o... Estes s√£o apenas alguns exemplos de como alguns textos b√≠blicos v√£o surgindo com o aparecimento do caos e a sua supera√ß√£o atrav√©s da interven√ß√£o da Palavra de Deus.

√? tamb√©m diante de uma situa√ß√£o de caos (idolatria) na caminhada entre o Egito e a Terra Prometida que vamos nos deparar com uma das frases mais belas do Antigo Testamento, quando o Senhor diz a Mois√©s: ‚??Farei passar diante de ti toda a minha beleza‚?Ě (Ex 33,19)1. O povo de Deus j√° havia abandonado a terra feia do Egito que lhe tornou a vida ‚??amarga‚?Ě (1,14) e est√° em busca da bela terra prometida. A nova terra ser√° como m√£e que nutre o filho (dar√° o leite) e, ao contr√°rio da vida amarga do Egito, dar√° a ‚??do√ßura‚?Ě do mel (3,8).

2. O Contexto do texto

A frase de Ex 33,19a situa-se j√° entre as √ļltimas etapas da longa caminhada entre a situa√ß√£o inicial de escravid√£o no Egito e a conclus√£o do livro do √?xodo. O caos inicial narrado pelo Livro do √?xodo √© o da escravid√£o com duros e amargos trabalhos. A supera√ß√£o surge atrav√©s da a√ß√£o da Palavra do Senhor em confronto com o fara√≥. Mois√©s √© o grande interlocutor entre Deus e o povo. Ele √© tamb√©m o representante (de Deus e do povo) nos confrontos com o fara√≥.

O povo é libertado e inicia a sua grande marcha rumo à Terra Prometida. Novos caos surgem na caminhada: o mar bravio teve que ser superado (14,15-31); a falta de água (15,22-27); a fome (16,1-36); a sede novamente (17,1-7); os inimigos amalecitas (17,8-16); a falta de lideranças (18,13-27)... O povo chega diante do Monte Sinai e ali acampa. Esta parada é momento de glória, com o recebimento da Lei e a instituição da Aliança no deserto (19,1ss).

Por√©m, um novo e grande caos surge na caminhada. O povo, na aus√™ncia de Mois√©s, troca o Senhor que os libertou das garras do fara√≥ pelo bezerro de ouro (32,1-6). √? este caos que precisa ser superado para a continuidade da caminhada.

No entanto, a supera√ß√£o deste conflito √© dif√≠cil. O di√°logo travado entre Mois√©s e o Senhor n√£o √© tranq√ľilo; ao contr√°rio, √© conflituoso. De uma parte o Senhor parece estar decidido a abandonar o projeto de ser parceiro do povo que libertou. O Senhor se dirige a Mois√©s dizendo que este √© ‚??teu‚?Ě povo (32,7) ou ‚??este povo‚?Ě (32,9). Mois√©s devolve a quest√£o dizendo que o povo √© ‚??teu‚?Ě (32,11-12; 33,13.16). N√£o √© uma disputa para ganhar o povo (como foi o conflito entre Deus e o Fara√≥), e sim para saber quem n√£o quer ficar com o √īnus de ser propriet√°rio de um povo que foi infiel. A situa√ß√£o √© semelhante √†quela apresentada pelo Profeta Os√©ias, cujo filho (que representa o povo infiel) se chama ‚??Lo-Ammi‚?Ě (‚??n√£o-meu-povo‚?Ě) quando o Senhor diz: ‚??porque n√£o sois meu povo, e eu n√£o existo para v√≥s‚?Ě (Os 1,9).

O conflito entre o Senhor e Mois√©s se acirra a tal ponto que Mois√©s utiliza um expediente nada recomendado. Ele joga nas m√£os do Senhor a responsabilidade por tudo o que acontecer. Mais ainda: informa que se o projeto fracassar, o Senhor tamb√©m perder√°, pois os demais povos v√£o rir dele, v√£o acus√°-lo de ser incapaz de cumprir o que prometeu... (32,12). Podemos at√© discordar da atitude de Mois√©s que age assim diante de Deus. Por√©m, Mois√©s n√£o √© um l√≠der pacato e que obedece cegamente as ordens de Deus como fez No√© diante do dil√ļvio. No√© n√£o se preocupou em salvar o seu povo, mas apenas a sua fam√≠lia (cf. Gn 6,5ss). Mois√©s procura salvar o povo (apesar do pecado cometido). Interessante que a a√ß√£o de Mois√©s de buscar satisfa√ß√£o diante de Deus, n√£o ser√° punida e nem mesmo condenada pelo Senhor. Antes pelo contr√°rio, √© levada em conta. O Senhor escuta a s√ļplica de Mois√©s, v√™ a obstina√ß√£o do l√≠der ‚?? que age qual uma m√£e que defende a cria diante das amea√ßas ‚??, tem compaix√£o e miseric√≥rdia, seja do l√≠der que do pr√≥prio povo rebelde.
√? atrav√©s do di√°logo entre o Senhor e Mois√©s que resulta novamente a supera√ß√£o do caos. O Senhor se disp√Ķe n√£o s√≥ a continuar caminhando com o povo, mas ser uma presen√ßa mais efetiva: ‚??Eu mesmo irei convosco e te darei descanso‚?Ě (Ex 33,14). √? uma presen√ßa em grau maior do que aquela anunciada em 23,20.23; 32,34 e 33,2, onde era somente o Anjo que acompanhava o povo.

Mois√©s, por sua vez, reconhece a import√Ęncia da presen√ßa do Senhor na caminhada: ‚??Se n√£o vieres tu mesmo, n√£o nos fa√ßa sair daqui‚?Ě (Ex 33,15).

√? na conclus√£o do di√°logo, quando o conflito j√° est√° superado, que Mois√©s pede algo a mais do seu Senhor: ‚??Rogo-te que me mostres a tua gl√≥ria‚?Ě (33,18). E o Senhor, em sua infinita bondade, lhe faz duas promessas: ‚??Farei passar diante de ti toda a minha beleza, e diante de ti pronunciarei o meu nome ‚??Senhor‚??‚?Ě (33,19).

3. An√°lise do texto

Depois da supera√ß√£o do caos (que foi a trai√ß√£o do povo ao optar pela idolatria ao bezerro de ouro), o di√°logo entre o Senhor e Mois√©s se torna sereno. A resposta √† s√ļplica de Mois√©s √© realizada pelo Senhor com duas promessas: mostrar a sua beleza e pronunciar o Nome Divino.

Optamos pela tradu√ß√£o feita pela B√≠blia de Jerusal√©m (BJ)2, por√©m reconhecemos que n√£o h√° unanimidade na tradu√ß√£o do termo hebraico ‚??kol tobi‚?Ě, pois o mesmo pode significar ‚??toda minha beleza‚?Ě, mas encontramos outras op√ß√Ķes de tradu√ß√Ķes: ‚??todo o Meu bem‚?Ě (B√≠blia Hebraica); ‚??toda minha bondade‚?Ě (Almeida, Vozes e CNBB); ‚??todo o meu esplendor‚?Ě (Edi√ß√£o Pastoral); ‚??toda a minha riqueza‚?Ě (B√≠blia do Peregrino). A TEB prefere ‚??todos os meus benef√≠cios‚?Ě.

Vamos analisar as duas promessas feitas pelo Senhor a Moisés:

a) Ver a beleza de Deus
O texto quase se contradiz, pois um pouco antes disse que ‚??O Senhor falava com Mois√©s face a face como um homem fala com seu amigo‚?Ě (33,11) e mais adiante afirma que Mois√©s ‚??n√£o poder√° ver a sua face‚?Ě (33,20). Seguramente Mois√©s n√£o viu o rosto de Deus, pois para o AT existe uma dist√Ęncia entre a santidade de Deus e a situa√ß√£o do ser humano, de tal sorte que todo homem que visse a face de Deus deveria morrer (Ex 19,21; 33,20; Lv 16,2; Nm 4,20).

O Senhor passar√° diante de Mois√©s, mas Ele pr√≥prio colocar√° sua m√£o protetora de modo que Mois√©s n√£o veja a sua face. O Senhor acrescenta que ‚??me ver√°s pelas costas. Minha face, por√©m, n√£o se pode ver‚?Ě (33,23).

A tradi√ß√£o judaica nos ensina que Deus s√≥ pode ser visto ‚??pelas costas‚?Ě, isto √©, somente podemos v√™-lo olhando para tr√°s, para aquilo que Ele j√° fez. N√£o podemos projetar Deus √† nossa frente, faz√™-lo √† nossa imagem e semelhan√ßa. Segundo a TEB: ‚??√? poss√≠vel ver Deus de costas, quer dizer, depois que ele passa, podem-se constatar os efeitos de sua gl√≥ria na hist√≥ria e na cria√ß√£o. Mas n√£o √© poss√≠vel v√™-lo na face, isto √©, de frente: seria prever a sua a√ß√£o, fixar-lhe um programa, ao passo que ele √© soberanamente livre (vv.21-23)‚?Ě3.

No NT ‚??ver a Deus‚?Ě √© uma bem-aventuran√ßa destinada aos puros de cora√ß√£o (Mt 5,8) e somente depois da ressurrei√ß√£o √© que podemos v√™-lo ‚??face a face‚?Ě (1Jo 3,2; 1Cor 13,12).

b) A pron√ļncia do Nome divino
Mois√©s j√° havia escutado o Nome Sagrado de Deus (YHWH), foi a ele que o Senhor o revelou (3,13-15; 6,2). √? o nome mais importante de Deus e ocorre mais de 6.700 vezes na B√≠blia Hebraica. Em sua raiz, provavelmente, est√° o verbo ‚??ser‚?Ě, da√≠ se procura explic√°-lo como ‚??Eu sou aquele que √©‚?Ě (Ex 3,14). Um Nome solid√°rio, ligado √† dor e ang√ļstias do seu povo.4

Entre os judeus havia restri√ß√Ķes √† pron√ļncia do tetragrama com o Nome de Deus, devido ao abuso (juramentos falsos, maldi√ß√Ķes...), mas, sobretudo, pelo grande respeito pelo Sagrado Nome de Deus. Mais tarde a pron√ļncia foi reservada unicamente ao Sumo Sacerdote nas celebra√ß√Ķes no Templo, posteriormente somente uma vez por ano no final da festa do Yom Kippur, o Dia da Expia√ß√£o (cf. Lv 16; Eclo 50,20), at√© ser totalmente proibida a sua pron√ļncia. Quando se lia o texto b√≠blico, lia-se Adonai, ao inv√©s de Adon√≠ para referi-lo unicamente a Deus e n√£o aos senhores humanos.
Portanto, foi um privil√©gio grande concedido a Mois√©s de poder ouvir a pron√ļncia do Sagrado Nome de Deus. Mais ainda: Mois√©s poder√° ouvir o Santo Nome sendo proclamado pelo pr√≥prio Deus.

4. As promessas se realizam

O Deus que se revelou aos Pais e que faz caminhada com o povo √© o Deus que promete e cumpre; √© fiel quando empenha sua palavra. A Promessa √© assim um dos fios condutores de toda a B√≠blia. Foi acreditando nas Promessas que Abra√£o e Sara partiram ao ouvirem o chamado de Deus. Mois√©s tamb√©m partiu conduzindo o povo acreditando e tendo como horizonte a Terra Prometida por Deus. No Monte Nebo o Senhor mostra a Mois√©s a terra que lhe prometeu (Dt 34,1-4). Mois√©s morrer√° como o justo que acreditou e viu a promessa se realizando (Dt 34,5). Mais tarde o povo de Deus aprender√° a ‚??olhar para tr√°s‚?Ě e constatar que ‚??de todas as promessas que o Senhor fez √† casa de Israel, nenhuma falhou: tudo se cumpriu‚?Ě (Js 21,45; 23,14; 1Rs 8,56).

Assim tamb√©m as promessas feitas em 33,19 v√£o se realizar em 34,5-7. O Senhor passa diante do justo Mois√©s, proclama o seu Nome e manifesta toda a sua beleza e bondade: ‚??O Senhor desceu em uma nuvem e ali esteve junto dele. Ele invocou o nome do Senhor. O Senhor passou diante dele e ele proclamou: ‚??Senhor! Senhor... Deus de amor e de piedade, lento para c√≥lera, rico em gra√ßa e em fidelidade; que guarda a sua gra√ßa a milhares, tolera a falta, a transgress√£o e o pecado, mas a ningu√©m deixa impune e castiga a falta dos pais nos filhos e nos filhos dos seus filhos, at√© a terceira gera√ß√£o‚??‚?Ě. √? certo que h√° d√ļvidas sobre quem √© o sujeito ‚??ele‚?Ě, isto √©, se √© Mois√©s ou o Senhor, por√©m como este texto √© uma confirma√ß√£o daquilo que Ele prometeu anteriormente, o ‚??ele‚?Ě s√≥ pode ser o Senhor.5

Depois da manifesta√ß√£o do Senhor, Mois√©s cai de joelhos por terra e adora o Senhor, exclamando: ‚??Senhor, se agora encontrei gra√ßa aos teus olhos, continua mesmo que este povo seja de cerviz dura. Perdoa as nossas faltas e os nossos pecados, e toma-nos por tua heran√ßa‚?Ě (34,9). Em seguida a Alian√ßa √© renovada (34,10ss) e o povo coloca-se a servi√ßo do Senhor (35-39) e pode continuar a marcha rumo √† Terra da Promessa.

5. A beleza de nosso Deus!

Que bom que nosso Deus √© belo e bom! J√° na supera√ß√£o do caos inicial percebemos esta marca. Depois do caos, surge a cria√ß√£o. Por sete vezes o texto do Gn 1,1‚??2,4a nos informa que Deus viu que era bom o que havia criado (Gn 1,4.10.12.18.21.25.31). Mas a express√£o ki t√īv pode ser traduzida tanto por ‚??que era bom‚?Ě, como por ‚??que era belo‚?Ě. Bondade e beleza s√£o sin√īnimos podem ser na B√≠blia. O hebraico muitas vezes emprega t√īv quando, em portugu√™s, usamos uma palavra mais espec√≠fica, tal como ‚??belo‚?Ě ou ‚??caro‚?Ě, ‚??dispendioso‚?Ě.6 O voc√°bulo serve tamb√©m para descrever a beleza est√©tica das pessoas: das ‚??filhas dos homens‚?Ě (Gn 6,2); a beleza de Rebeca (Gn 24,16); de Saul (1Sm 16,12); de Betsab√©ia (3Sm 11,2), etc.

√? em 34,6-7 que o Senhor manifesta tra√ßos desta sua beleza, quando Ele revela algumas caracter√≠sticas do seu modo de agir. Na tradi√ß√£o judaica s√£o conhecidos como os 13 atributos de Deus e que s√£o classificados assim:
1-2) Adonai, Adonai: A repetição do nome do Eterno aqui significa que Ele é misericordioso com qualquer pessoa, no que diz respeito aos seus pecados e como pecador arrependido.
3) El: Deus Todo Poderoso que age de acordo com Seus s√°bios ditados.
4) Misericordioso como um pai para com seus filhos, prevenindo-os para n√£o cair.
5) Benevolente e que ajuda aos caídos que não podem regenerar-se por si mesmos.
6) Paciente, espera que o pecador se arrependa.
7) Cheio de misericórdia com a pessoa correta e também com a incorreta.
8) Verdadeiro e direito em suas promessas.
9) Bondoso e misericordioso: considera os m√©ritos dos pais nos filhos, ao menos por duas mil gera√ß√Ķes.
10) Perdoa os pecados: cometidos premeditadamente.
11) Perdoa as ofensas e pecados cometidos com espírito de rebeldia.
12) Esquece os pecados cometidos involuntariamente.
13) Absolve o penitente.7
Estes traços da beleza de Deus devem ser observados naquilo que Ele fez por nós, isto é, fazendo memória, olhando para a história passada, isto é, para aquilo que o Senhor já fez pelo seu povo, para a maravilha de toda a sua Criação.

Foi este olhar de ‚??de costas‚?Ě para Deus, isto √©, para a beleza da obra por Ele criada, pela beleza que h√° em todas as Suas criaturas e tamb√©m por tudo de bom e belo, que o Senhor fez na hist√≥ria da salva√ß√£o, que levou Santo Agostinho a exclamar: ‚??Tarde te amei, √≥ Beleza t√£o antiga e t√£o nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim e eu estava fora, e a√≠ te procurava... Estavas comigo e eu n√£o estava contigo... Mas Tu me chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira" (Confiss√Ķes, Livro D√©cimo XXVII. 38). Para Agostinho, a Beleza n√£o √© qualquer coisa, mas √© Algu√©m, √© o √?nico que se deve amar acima de tudo, porque √© a fonte e o fim mesmo do amor.8

O Livro da Sabedoria, provavelmente o √ļltimo escrito do Antigo Testamento, julga aqueles que n√£o foram capazes de descobrir Deus vendo as obras que Ele fez (Sb 13,1). Fascinados pela beleza de algumas criaturas, as tomam como deuses, quando deviam adorar o Senhor, pois ‚??foi a pr√≥pria fonte da beleza que as criou‚?Ě (Sb 13,3). E o autor ainda afirma: ‚??Calculem quanto mais poderoso √© Aquele que as formou, pois a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por analogia, contemplar seu Autor‚?Ě (Sb 13,4-5). Se tanto √© belo o que se v√™, como n√£o descobrir nisso o Senhor? (Sb 13,7-9).
O Salmo 45 canta a beleza do ‚??mais belo dos filhos dos homens‚?Ě (45,3). ‚??A tradi√ß√£o judaica e a crist√£ o interpretam com refer√™ncia √†s n√ļpcias do Rei Messias com Israel‚?Ě.9 Portanto, tanto a exegese como a teologia crist√£ aplicaram-no a Cristo. Tamb√©m Ele √© o ‚??belo pastor‚?Ě (Jo 10,11).10
H√° beleza e bondade em Deus e naquilo que Ele faz. E isso √© tamb√©m conseq√ľ√™ncia daquilo que √© o nosso Deus: Ele √© Bom! (Sl 100,5; 106,1; 145,9; Jr 33,11; etc.) Portanto, ‚??boa‚?Ě ou ‚??bela‚?Ě √© tamb√©m a terra que o Senhor promete dar ao seu povo (Dt 1,25.35; 3,25; 4,21-22; 6,18, etc.). Boas e belas s√£o tamb√©m as promessas do Senhor (Js 21,45; 23,14-15; 1Rs 8,56, Sb 12,21, etc.). Tamb√©m foi boa a m√£o do Senhor que protegeu o seu povo (Esd 7,6.9.28; 8,18.22.31; Ne 2,8.18). O Senhor mesmo tem beleza, gl√≥ria e esplendor na sua santidade (1Cr 16,19; Sl 29,2; 39,11, 96,9; etc.), ainda que o termo usado nestas √ļltimas passagens n√£o seja ‚??t√īv‚?Ě, mas ‚??hadarah‚?Ě.11 A Palavra do Senhor tamb√©m √© boa e bela (Is 39,8; 50,4; 29,10; 33,14, etc.). E o NT vai felicitar aqueles que saborearam o dom celeste e ‚??experimentaram a beleza da palavra de Deus‚?Ě (Hb 6,5 ‚?? cf. tradu√ß√£o da B√≠blia de Jerusal√©m).

6. Precisamos ver hoje a beleza de Deus

A beleza de nosso Deus continua se manifestando hoje, apesar das situa√ß√Ķes de caos em que nos encontramos. Por vezes, a realidade de um mundo marcado pelas fant√°sticas inven√ß√Ķes tecnol√≥gicas realizadas pelo ser humano pode obscurecer a beleza das obras criadas por Deus. Faz-se necess√°rio, para tanto, uma mentalidade da contempla√ß√£o, da m√≠stica, da pureza do olhar. Sugerimos alguns pontos para uma reflex√£o atual:

6.1. Diante da crise ecol√≥gica. Se o mundo moderno √© capaz de grandiosas inven√ß√Ķes, √© verdade tamb√©m que √© um mundo destruidor da cria√ß√£o de Deus. Nunca tantas esp√©cies de vida foram perdidas como nas √ļltimas d√©cadas. Nunca o planeta esteve tanto amea√ßado por uma crise ecol√≥gica como agora. Portanto, por tr√°s da aparente ‚??beleza‚?Ě das inven√ß√Ķes humanas est√° o pre√ßo terr√≠vel da destrui√ß√£o do nosso pr√≥prio habitat e que coloca em risco a nossa pr√≥pria exist√™ncia sobre a face da Terra. A supera√ß√£o da crise e do caos s√≥ vir√° com uma tomada de consci√™ncia, com a ado√ß√£o de pr√°ticas, com um novo modelo de desenvolvimento, mas tamb√©m com uma espiritualidade ecol√≥gica, com o olhar contemplativo para a cria√ß√£o, admirando a sua beleza e bondade.

6.2. A idolatria moderna. Vimos que aquilo que ocasionou o caos, isto √©, a ruptura entre Deus e o seu povo foi a pr√°tica da idolatria. Os ‚??bezerros de ouro‚?Ě est√£o mais vivos do que nunca. Basta olhar para o deus mercado que se sacia das v√≠timas dos pobres sobre suas mesas. Por tr√°s da ‚??beleza‚?Ě dos pr√©dios dos bancos, se escondem os caos que eles provocam na economia, cujas contas s√£o pagas pelos pobres e pelos trabalhadores. Mas tamb√©m o mercado e o com√©rcio em nome de Deus, onde alguns enriquecem tanto utilizando o nome de Deus e explorando as mis√©rias humanas. Ou ent√£o se olharmos para a ind√ļstria de cosm√©ticos e da moda que imp√Ķe modelos pr√≥prios de uma beleza do luxo, do lucro e da hipocrisia de uma classe dominante...

6.3. A fome e a injusti√ßa social. A morte continua ceifando vidas. O modelo capitalista de desenvolvimento produz massas humanas de pobres e famintos, em cujo rosto desaparece a beleza. Da mesma forma as guerras e a viol√™ncia que ceifam vidas inocentes, s√£o sinais de um mundo feio, horr√≠vel, destruidor da vida, que desrespeita a dignidade da pessoa, desfigura a imagem de Deus presente no ser humano. Um mundo belo dever√° ser sempre baseado na utopia de Jesus onde ‚??todos tenham vida e vida e abund√Ęncia‚?Ě (Jo 10,10). Ou seja: o mundo da justi√ßa, da partilha, da fraternidade e da paz.

6.4. ‚??A beleza salvar√° o mundo!‚?Ě. Em seu romance ‚??O Idiota‚?Ě Dostoievski nos deixou esta bela frase. Mas √© o mesmo autor que tamb√©m questiona: ‚??Qual beleza salvar√° o mundo?‚?Ě. Diante de um quadro de Jesus crucificado, o autor nos diz que ele pode nos fazer perder a f√©, sobretudo quando n√£o vemos nele o grande sinal do amor de Deus por n√≥s. √? certo que nosso Deus se manifestou com os tra√ßos mais belos e maternos nos momentos de dor e sofrimentos do povo, restabelecendo a vida amea√ßada (na escravid√£o do Egito, no ex√≠lio da Babil√īnia, na morte do Filho na cruz). A supera√ß√£o dos tantos ‚??caos‚?Ě indica que o Senhor quer a vida, quer a beleza que salva. Precisamos de um mundo de beleza, mas n√£o a beleza do luxo comercial. O belo n√£o tem pre√ßo e nem se pode comprar com dinheiro. N√£o devemos cair nas tenta√ß√Ķes da beleza fugaz e falsa, pois como nos ensina Gogol (o poeta russo) ‚??o diabo tamb√©m se traveste de beleza‚?Ě.

6.5. A arte como express√£o da beleza. A arte em suas diversas express√Ķes deveria traduzir a beleza. Os meios de comunica√ß√£o, em geral preocupados com audi√™ncia e lucros, n√£o s√£o produtores de programas que transmitem beleza. Nossos cantos ultimamente nem sempre expressam a beleza e a realidade da vida, tamb√©m a liturgia em nossas Igrejas muitas vezes se perde em ritualismos que nem sempre levam ao grande mist√©rio de Deus.

6.6. A diversidade e a multiformidade. A contempla√ß√£o da cria√ß√£o e da a√ß√£o de Deus na hist√≥ria deve nos levar a ver a beleza de Deus. Esta se manifesta em sua infinita diversidade e pluralidade das formas. O diferente n√£o √© amea√ßa, mas manifesta√ß√£o da generosidade do Criador. O exemplo de Francisco de Assis, que via em toda a Cria√ß√£o a beleza e a bondade de Deus, o levou a compor seu belo canto das Criaturas, que come√ßa assim ‚??Onipotente e bom Senhor...‚?Ě

6.7. A esperan√ßa e a utopia necess√°rias. Foi a esperan√ßa de chegar √† Terra Prometida que ajudou Mois√©s a manter a fidelidade e ir at√© o fim. A esperan√ßa √© bela porque nos aponta para o mist√©rio, para o ‚??ainda n√£o‚?Ě, para a grande utopia. Apesar dos caos que vivemos hoje, √© poss√≠vel e √© preciso sonhar que podemos construir um mundo que seja de acordo com o projeto de Deus. Como Abra√£o, n√≥s devemos ‚??esperar contra toda esperan√ßa‚?Ě (Rm 4,18). A todos devemos mostrar ‚??as raz√Ķes da nossa esperan√ßa‚?Ě (1Pd 3,15). ‚??Quem sonha grande, p√Ķe os p√©s na estrada‚?Ě ensina um canto popular. E um antigo prov√©rbio pode alimentar a nossa caminhada: ‚??Nenhuma caravana jamais alcan√ßou a utopia, mas √© a utopia que faz andar as caravanas!‚?Ě.

7. Conclus√£o

Deus é belo e é fonte de beleza! Podemos observar isso na beleza das suas obras e no belo e bom coração, cheio de amor e compaixão que Ele possui e que se revela em seu modo de agir. Ele é o Belo por excelência, porque fez belas todas as coisas e porque faz a vida ser bela.

√? importante superar a id√©ia, que pode nos dar uma leitura superficial de alguns textos do AT, de que nosso Deus √© justiceiro ou at√© violento... O texto de Ex 33,19 nos fala da bondade, da beleza, da compaix√£o e da miseric√≥rdia de nosso Deus. A manifesta√ß√£o (Shekin√°) experimentada e testemunhada por Mois√©s nos revela este tra√ßo necess√°rio. Olhando ‚??de costas‚?Ě para a grande hist√≥ria da salva√ß√£o seremos n√≥s tamb√©m testemunhas das maravilhas que Ele realizou em nosso favor.

Se Deus n√£o pode ser definido na totalidade do seu mist√©rio, porque Ele √© sempre mais e maior que qualquer das suas obras criadas, podemos ao menos definir v√°rios tra√ßos do que pode ser o Seu rosto. A pr√≥pria B√≠blia nos oferece alguns destes rostos: Deus √© o Criador (Gn 1); √© o Libertador (√?xodo); √© Shalom (Jz 6,24); √© Maravilhoso (Jz 13,18); √© Santo (Lv 19,1; Is 6,3): √© o Consolador (Is 40-55); √© Amor (1Jo 4,8.16), etc. Enfim, a estes e tantos outros rostos n√£o poderia faltar aquele da beleza e que o texto de Ex 33,19 nos revelou.

_________________________

REFER√?NCIAS BIBLIOGR√ĀFICAS
B√ćBLIA DE JERUSAL√?M (S√£o Paulo: Paulus, 2002).
BIBLIA TRADU√?√?O ECUM√?NICA ‚?? TEB (S√£o Paulo: Loyola, 1994).
COENEN, L. ‚?? BROWN, C. Dicion√°rio Internacional de Teologia do Novo Testamento (S√£o Paulo: Vida Nova, 2000).
FORTE, B. La porta della Bellezza. Per uma estetica teologica, (Brescia: Morcelliana, 2000).
HARRIS, L. (org.) Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Tradução Márcio Loureiro Redondo, Luiz Alberto T. Sayão, Carlos Osvaldo C. Pinto. (São Paulo: Vida Nova, 1998).
MCKENZIE, J. L. Dicion√°rio B√≠blico. Tradu√ß√£o √Ālvaro Cunha (S√£o Paulo: Paulus, 1983).
MURA, G. (a cura di). La via della belezza. Cammino di evangelizzazione e dialogo (Vaticano: Urbaniana University Press, 2006).
PIXLEY, G. V. √?xodo. Grande coment√°rio b√≠blico (S√£o Paulo: Paulinas, 1987).
SCHARDERT, J. Esodo (Brescia: Morcelliana, 1989).
SCHOKEL, L. A. Dicionário Bíblico Hebraico-Português (São Paulo: Paulus, 1997). SCHWANTES, M. História de Israel. Vol. 1: Local e origens (São Leopoldo: Oikos, 2008).
SILVA, V. Deus ouve o clamor do povo. Teologia do √?xodo (S√£o Paulo: Paulinas, 2004).
TOR√Ā, A LEI DE MOIS√?S. Tradu√ß√£o Ohel Yaacov (S√£o Paulo: Sefer, 2001).

 

Ildo Perondi
Rua Orlando Maimone, 85
86046-530 ‚?? Londrina PR
(43) 33422695
[email protected]

 

Este artigo foi publicado na Revista ‚??Estudos B√≠blicos‚?Ě n¬į 101, da Editora Vozes, pg. 26-35

 

1 As cita√ß√Ķes dos textos b√≠blicos s√£o da B√≠blia de Jerusal√©m, por√©m o tetragrama divino ser√° traduzido sempre por Senhor. Todas as cita√ß√Ķes b√≠blicas seguintes que n√£o tiverem o nome do livro s√£o do √?xodo.

2 Tamb√©m J. SCHARDERT Esodo (Brescia: Morcelliana, 1989, p. 154), opta por traduzir por ‚??beleza‚?Ě.

3 TEB, nota de rodapé a Ex 33,19.

4 Cf. V. DA SILVA. Deus ouve o clamor do povo. Teologia do √?xodo (S√£o Paulo: Paulinas, 2004), p. 77-79.

5 Cf. Bíblia de Jerusalém em nota de rodapé a Ex 34,6. J. SCHARDERT Esodo (Brescia: Morcelliana, 1989), p. 155-157.

6 R. L. HARRIS ‚?? G. L. ARCHER ‚?? B. K. WALKE, Dicion√°rio Internacional de Teologia do Antigo Testamento (S√£o Paulo: Vida Nova, 1998), p. 565. L. A. SCHOKEL, Dicion√°rio B√≠blico Hebraico-Portugu√™s (S√£o Paulo: Paulus, 1997), p. 255-258.

7 Cf. Torá, a Lei de Moisés, nas notas de rodapé ao texto de Ex 34,6-7 (São Paulo: Sêfer, 2001), pg. 266-267.

8 B. FORTE, La via pulchritudinis, il fondamento teológico di uma pastorale della bellezza, in La via della bellezza (Vaticano: Urbaniana University Press, 2006), p. 82.

9 Bíblia de Jerusalém, em nota de rodapé ao Sl 45.

10 Assim como a express√£o hebraica ‚??ki tov‚?Ě pode ser traduzida tamb√©m com ‚??que era belo‚?Ě e n√£o somente ‚??que era bom‚?Ě da mesma forma a express√£o grega ‚??√≥ Poim√©n √≥ kal√≥s ‚?Ě pode ser traduzida como o ‚??belo pastor‚?Ě e n√£o somente como o ‚??bom pastor‚?Ě como comumente √© traduzida. Cf. B. FORTE, La porta della Bellezza. Per uma estetica teologica, (Brescia: Morcelliana, 2000). L. COENEN ‚?? C. BROWN. Dicion√°rio Internacional de Teologia do Novo Testamento (S√£o Paulo: Vida Nova, 2000), p. 343-344.

11 A B√≠blia Almeida traduz ‚??hadarah-qodesh‚?Ě por ‚??beleza de sua santidade‚?Ě. Outras tradu√ß√Ķes preferem ‚??esplendor‚?Ě ou ‚??gl√≥ria‚?Ě da sua santidade, ou ‚??santa apari√ß√£o‚?Ě, etc. A TEB em nota de rodap√© a Sl 29,2, informa que a express√£o √© de tradu√ß√£o incerta.