Dedicado ao prof. Dr. Dr. Friedrich Erich Dobberahn, amigo de muitas e excelentes lembranças
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4Q OrNab (texto)[1]

No ano de 1956, J. T. MILIK publicou[2] um texto aramaico referente a assim chamada Oração de Nabonides o qual compõe-se de 4 fragmentos[3] provenientes da 4ª gruta de Qumran (4Q OrNab). Este texto é um dos importantes documentos paralelos ao livro de Daniel (Dn) em especial ao capítulo 4. A maior parte dos comentários atualizados sobre Dn, ao comentar o capítulo 4, não pode se furtar de ao menos mencioná-lo.[4] Como vamos tratar de Dn 4, é justo que façamos a devida apresentação deste texto.

O texto [5]

1. Palavras [6] da oração que orou Nabonides, rei da A[ssíria e Ba]bilônia, o rei [grande, [7] quando [8] foi atingido [9]]

2. pela[10] inflamação ruim,[11] por meio do decreto do D[eus supre]mo, em Teima[12] no distrito: [13] [Pela inflamação ruim]

3. fui atingido sete [14] anos e distante dos [homens [15]] (fui) colocado [16] eu. E [quando confessei minha iniqüidade,]

4. meu pecado, ele[17] perdoou.[18] Ele, [o vidente], homem judeu d[os filhos do exílio na Babilônia e ele [19]]

5. declarou e escreveu para dignificar[20] e grandemente hon[rar [21]] o[22] nome do D[eus supremo. E assim escreveu:]

6. Quando foste [23] atingido pela inflamação ruim em Teima no distrito, por meio do decreto do Deus supremo,[24]

7. sete anos orando estiveste tu para os deuses de prata e de ouro, de cobre, de ferro,

8. de madeira, de pedra, de barro porque[25] (acreditaste) que deuses (fossem) eles"...[26]

9. ... paz ...

Em nosso texto, o vidente (BTO) declara e escreve que Nabonides permaneceu doente em Teima durante sete anos. Neste tempo, o rei permanecia orando para outros deuses. Quando, porém, Nabonides se arrepende e confessa sua iniqüidade,[27] seu pecado é perdoado. O objetivo da narrativa é dignificar e grandemente honrar o nome do deus supremo (versículo 5) em detrimento de qualquer outra divindade,[28] através da oração de Nabonides a qual confessa a supremacia do Deus dos judeus

Portanto, o elemento fundamental de conteúdo de 4Q OrNab é, evidentemente, uma retomada das críticas judaicas ao culto de outras divindades além de Javé, o deus de Israel. Este tipo de crítica tornou-se bastante comum na situação exílica e pós-exílica contrapondo-se à religião babilônica.[29] Por isso, assunto incisivo é, agora, saber quem seja este fulano Nabonides, rei da Assíria e Babilônia e o que ele faz num manuscrito de Qumran.

 

Nabonides (contexto)

A figura de Nabonides insere-se na história do assim chamado império neobabilônico que teve início com Nabopalassar, que se tornou rei dos caldeus em 630 a.C. e em 626, com a expulsão dos Assírios de Uruk, rei da Babilônia.[30] Em 605, com a morte de Nabopalassar, assume o poder seu filho mais velho Nabucodonossor (Nabukudurri-Usur) II, rei sob qual poder caiu Jerusalém em 587. Babilônia viveu sob os caldeus, em especial Nabucodonossor, grande esplendor[31] e riqueza, fruto da arrecadação de altas taxas e tributos dos reinos subjugados. Após Nabucodonossor seguiram três breves reinados. Reinaram Awil-Marduk (Evil-Merodach, 2Rs 25.27; Jr 52.31), filho de Nabucodonossor (561-560); Nergalshar-usur (Neriglissar), cunhado de Awil-Marduk (559-556) e seu filho (ainda menor) Labashi-Marduk (Labosoarchod) que foi assassinado após apenas nove meses de reinado por um corpo conspiratório em qual se incluía Nabonides,[32] último rei da Babilônia.

Nabonides é um personagem intrigante dentro do Antigo Oriente. Sua mãe[33] (Adda-Guppi), sacerdotisa do deus Sin em Haran, foi para a Babilônia e, por influência dela, Nabonides logo estava envolvido na corte real. Durante seu reinado, Nabonides (556-539) considerou-se executor das vontades de Nabucodonossor e Neriglissar,[34] dando bastante ênfase às realizações de obras de grande porte como por exemplo, vinculadas aos templos de Esagila e Ezida.[35]

A estada de Nabonides em Teima[36] por um longo período de tempo[37] foi motivo de muita especulação.[38] Na oposição a Nabonides estava o clero sacerdotal babilônico, grupo forte de opositores, não apenas por causa de estada do rei em Teima, mas também por fatores religiosos.[39] Nabonides era, em verdade, devoto da divindade Sin e o clero da Babilônia era encarregado do culto ao deus Marduk.[40]

Considerando a força do clero de Marduk, poder-se-ia levantar, acertadamente, a pergunta pelo grupo ou grupos de sustentação do reinado de Nabonides.[41] Certamente o exército deve ser contado entre aqueles que o apoiaram até a queda da Babilônia. Mas, em todo caso, Belsazar, filho de Nabonides, ocupou o trono real, na Babilônia, durante a ausência de Nabonides, seu pai. Quando Nabonides reassumiu o trono da Babilônia já era tarde demais. Ciro dominou a Babilônia em 539 auxiliado, inclusive, por forças babilônicas. Belsazar foi morto e Nabonides, apesar de ter tentado a fuga, foi capturado.[42]

A questão aqui é que Nabonides, já pelo próprio texto da 4ª gruta de Qumran, 4Q OrNab, marcou presença na tradição judaica.[43] Afinal, ele é o último rei babilônico antes de Ciro, o exaltado libertador do cativeiro.[44] Mas, de que maneira estão relacionados comunidade judaica no exílio e o último rei babilônico,[45] a ponto de estar registrado o episódio de Nabonides num texto de Qumran?

No exílio, a comunidade judaica encontrou uma situação razoavelmente boa,[46] situação diversa daquela imposta pela dominação Assíria. A retratação da penúria era caracterizada, via de regra, pelo aspecto subjetivo. Queixou-se, naquela época, de saudades da terra natal.[47] Mas, já antes da queda da Babilônia havia a forte esperança do retorno à Palestina.[48] Fato é que a religião com ênfase no sábado e na circuncisão possibilitou a sedimentação e unificação judaica num momento histórico de desagregamento tal qual ocorrido no exílio. Acrescente-se, ainda, que os exilados não foram dispersos no meio da população, mas permaneceram congregados em colônias especiais. A crítica à religião babilônica[49] do ponto de vista judaico, idolatria, serviu igualmente como disjuntor identificativo judaico no exílio. De outra sorte, a situação objetiva permitiu que alguns judeus chegassem até mesmo a enriquecer na Babilônia, principalmente através do comércio e muitos preferiram ficar na Babilônia a ter de voltar para a Palestina.[50]

A partir destas considerações, não se pode dizer que os judeus estavam situados no império babilônico, apesar do exílio e do completo afastamento da esfera de decisões políticas, como uma classe social totalmente desprivilegiada. É bastante provável, pois, que os judeus do exílio tivessem suficiente conhecimento dos conflitos entre Nabonides e o clero da Babilônia.[51] Assim, a interpretação da ausência de Nabonides como episódio desproposital e fora de controle vem confirmar a crítica judaica à religião politeísta[52] da Babilônia. Este parece ser o chão mais seguro para a gênese tradicional de 4Q OrNab; Nabonides representa o destino do politeísmo em confrontação com o monoteísmo javista. Os deuses fabricados pelas mãos humanas não são o supremo Deus, o sumo-dirigente da história de Israel.

Neste sentido, a temática tradicional de Nabonides pode ser aproveitada, sem problemas, pela comunidade de Qumran[53]. Não obstante, Dn 4 promove outras e novas questões!

Daniel 4 (texto)

O livro de Daniel, em sua primeira parte (cap. 1-6), ao que tudo indica, apresenta-se como uma coletânea de narrativas independentes, em geral amalgamadas sob um mesmo objetivo comum.[54] Este também é o caso do trecho escrito em aramaico (2.4b-6.29), em qual se encontra o texto de Nabucodonossor.

Já a partir da publicação da Crônica de Nabonides[55] e de sua Narrativa em Versos, [56] os eruditos levantaram a suspeita de que Dn 4 se referia a Nabonides e não a Nabucodonossor.[57] Ademais, o panorama histórico da vida de Nabucodonossor que já era razoavelmente bem conhecido, não permitia a inclusão de um episódio de loucura temporária tal qual registrada em Dn 4. O texto de 4Q OrNab veio confirmar as suspeitas que se haviam levantado anteriormente[58] sobre a identificação de um rei com outro. Diante da maciça evidência textual disponível, atualmente parece não haver mais dúvidas a respeito da identificação, em Dn 4,[59] entre Nabucodonossor e Nabonides. Ou seja, o texto de Daniel 4, ao falar de Nabucodonossor, se refe a acontecimentos da vida de Nabonides.

É fácil deduzir daí que Dn 4 remonta a uma tradição oral mais antiga do que sua compilação no livro de Daniel[60] e, ainda mais, que a loucura da realeza, pelo seu caráter chistoso, é linguajar de índole[61] tipicamente popular.[62]

Daniel 4 pode ser subdividido em 3 partes principais[63] com uma introdução (3.31-33) e conclusão (4.34).

1. O sonho de Nabucodonossor [64] - 4. 1-15

2. A interpretação do sonho - 4.16-24

3. A concretização do sonho - 4.25-33

O conteúdo programático presente nestas três partes é a de que os viventes conheçam que o Altíssimo ‚ soberano sobre o reinado dos homens e a quem quer que deseja, Ele o dará.[65] Os reis, também os mais poderosos, precisam aprender que Deus é o senhor da história.[66] Portanto, o rei deve cumprir as funções que estavam consignadas na tradição vétero-testamentária,[67] ou seja, redimir os pecados através da justiça e a iniqüidade pela piedade aos pobres (Dn 4.24).[68]

O que torna Dn 4 distinto de 4Q OrNab? Em primeiro lugar, o tema da idolatria não está claramente presente em Dn 4.[69] O que surge ali é o plano da soberania de Deus em detrimento de qualquer poderio humano.[70] De outro lado, a caracterização da doença do rei não é a mesma em 4Q OrNab e Dn 4.[71] Finalmente, podemos mencionar que 4Q OrNab coloca Nabonides doente em Teima e Dn 4, por sua vez, faz com que o rei permaneça na Babilônia.[72]

Tendo em vista estas diferenças apontadas entre 4Q OrNab e Dn 4 e ainda o conteúdo próprio de Dn 4, cumpre perguntar, por que houve o crescimento traditivo de Daniel com a inclusão do capítulo 4? Para responder a esta pergunta ‚ imprescindível localizar o livro de Daniel em seu contexto histórico; o texto tem seu contexto!

Daniel 4 (Contexto)

A datação do livro de Dn entre 167-163 a.C.[73] e a perspectiva de vaticinia ex eventu apontam para uma hermenêutica histórica conflitiva entre segmentos da comunidade judaica e os seleucidas personificados na figura de Antíoco IV Epifanes.[74] O conteúdo do livro indica que seu autor (nalguns trechos deveríamos falar mais acertadamente em compilador), pertenceu ao grupo dos hassidim,[75] os quais se opuseram ao processo de helenização do judaísmo; este grupo enfrentou, por isso, a hostilidade tanto dos seleucidas quanto dos colaboracionistas judeus.[76]

Daniel apresenta-se, desta forma, como um escrito de leitura em dois níveis justapostos, em que se procura, através do prisma histórico passado, encontrar soluções para uma dada fenomênica pressuposta pelo autor.[77] Portanto, uma compreensão adequada de Dn 4 se dá , basicamente, sob um tríplice ângulo: 1) o status quo contemporâneo à confecção do escrito, 2) o resíduo querigmático presente nas tradições paralelas (pela proximidade privilegia-se 4Q OrNab), 3) o próprio texto de Dn 4.[78] Vamos adiante então.

A comunidade judaíta, nos tempos de Antíoco IV Epifanes, passa por tempos turbulentos.[79] A elaboração de Daniel acontece em plena crise de revolta macabéia que já havia começado em 167 a.C.[80] Os capítulos 7-11 expressam claramente a postura dos hassidim[81] contra o desolador do templo que comete a abominação da desolação (Dn 9.27, 11.31, 12.11; 1Mc 1.54). Todavia, a questão crucial é saber de que maneira os capítulos 1-6, que provavelmente fazem parte ou englobam tradições mais antigas (como o capítulo 4), foram encaixados numa época posterior.[82] O problema fica particularmente complexo no capítulo 4, pois, uma vez que se determina os destinatários da carta como o grupo de judeus que se opunham a Antíoco IV,[83] qual personagem é tipificado pelo rei Nabucodonossor que fica louco?[84]

Um indício sugestivo aponta fortemente para a correspondência tipológica entre Nabucodonossor e o próprio Antíoco IV.[85] O próprio texto de Dn 4 enfatiza que Nabucodonossor precisa aprender que Deus é supremo dominador sobre o reinado dos homens e de outro lado Antíoco IV é apresentado e reconhecido como alguém excessivamente arrogante e que tem pretensões divinas.[86] Esta arrogância é que faz ser Nabucodonossor, em Dn 4, tipo de Antíoco IV.

É óbvio que, mesmo sendo aceita esta correspondência, permanecem questões abertas. O domínio de Nabucodonossor é-lhe restituído após os anos de provação. Seria possível dizer o mesmo em relação a Antíoco?[87] Não seria de se esperar que Nabucodonossor/Antíoco fosse destituído para sempre de seu reinado (como ocorre em Daniel 11)?

Destas perguntas pode-se notar que há limites de aplicabilidade de tradições anteriores em épocas diferentes. O compilador não modificou a tradição que tinha disponível, apenas a enxugou para atender aos objetivos que tinha em mente. Portanto, o que realmente importa, considerando-se a história traditiva de Nabonides, é sua aplicabilidade em contextos diversos; o que importa não é Nabonides em si, mas aquilo que dele se diz. Então, há que se perguntar por qual seja o conteúdo daquilo que se fala a respeito do tríptico Nabonides / Nabucodonossor / Antíoco IV.

Por conseguinte, que mensagem tem Dn 4 para sua época? Procuraríamos em vão alguma mensagem específica, contextualizada na situação histórica, em Dn 4. Isto porque Dn 4 não pode ser desvinculado da totalidade do escrito. Pelo contrário, o todo teológico do livro é que indica a mensagem dos capítulos particulares. Assim, Dn 1-6 subordina-se ao conteúdo dos capítulos 7-11; é a partir da leitura destes que se compreende o conteúdo daqueles. Qual é, em suma, e aqui temos a pergunta fundamental, a teologia que se manifesta no livro de Daniel? De que maneira esta teologia fala a respeito de e em Dn 4? Precisamos, por conseqüência, falar em teologia!

Conclusão teológica (Textos e Contextos)

O livro de Dn aparentemente desestimula qualquer ação, fora da prática piedosa (oração, obediência à lei...), de caráter revolucionário.[88] Daniel oferece consolo aos que sofrem, sem, porém, incitá-los a qualquer atitude para modificar sua situação. A história está completamente nas mãos de Deus, o tempo certo lhe pertence.[89] É por essa tal apatia ou resignação que a questão importante a ser tratada aqui é a hermenêutica histórica da apocalíptica.[90]

Bem se sabe que uma das características fortes da apocalíptica é o determinismo histórico.[91] A história caminha obedecendo ao domínio de Deus todo-poderoso e o seu reino vir  sem cooperação humana, eis que as mãos não foram instrumentos no corte da pedra em Dn 2.[92] A ação humana fica assim, em absoluto relativizada.[93]

A história de Israel até a revolta macabéia encontra-se marcada pela desilusão.[94] Israel não sobrevive como entidade política autônoma. As explicações pós-exílicas para o fracasso experimentado no exílio são re-enfatizadas vigorosamente. Mesmo assim, em que pese a contínua confissão de pecados, Israel continua sob o castigo de Deus. Por isso, a apocalíptica, a partir da história de Israel, não reflete, como no passado, a palavra e a ação de Javé, mas desdobra racionalmente o silêncio e ausência divina.[95]

De fato, que tipo de mensagem poderia sustentar a fé além de explicar a contingência histórica do Israel macabaico?

Ao meu ver, o livro de Daniel representa a maior produção teológica de equalização deste problema.[96] O mal, que tem limites estabelecidos de atuação (cf. Dn 7.25; Dn 11.27), não foge do controle de Deus. O motivo para sua atuação em meio ao povo é o pecado (cf. Dn 9). A vitória do reino de Deus que será dado ao povo dos santos do Altíssimo, (cf. Dn 7.27), por essa razão, depende, não da atuação política-revolucionária num primeiro plano, mas sim, da atuação religiosa do povo. O povo deve, em Daniel, preparar-se para a vinda do reino de Deus através da piedade. A revolução é ato de Deus.[97]

Neste contexto, o determinismo histórico é a condensação conseqüente da afirmação do poderio de Deus.[98] Devemos compreender bem o problema e a situação que aqui se coloca. Uma vez que Israel despertara do sonambulismo ilusório da autogerência histórica do reinado a partir das lições exílicas e pós-exílicas,[99] a única maneira de preservar o conteúdo da fé monoteísta era afirmar que os acontecimentos, independente de seu conteúdo, fizeram e faziam parte dos planos de Deus. O determinismo agora é essencial, pois não se pode conceber a superioridade de outras divindades na história dos fracassos. Tanto a entidade quanto a identidade religiosa de Israel dependem da resolução convincente deste problema que vincula a confessionalidade à continuidade do fracasso.[100]

Por isso, questão crucial consiste em saber se a postura apocalíptica é acomodamento ou realismo diante das situações opressivas que Israel vivia. É prudente admitir que a apocalíptica em Daniel não se caracteriza pela instigação revolucionária; ao contrário, sua postura é tanto acomodamento quanto realismo. Acomodamento por um lado, porque o pressuposto de tal atitude é o relativo cansaço da luta diante da falência dos projetos históricos de Israel. A apocalíptica é também realismo porque pressupõe a morte das ilusões dada a ruína dos alicerces nacionais em torno do reinado. A apocalíptica vivencia o marasmo e desconsolo da disputa perdida, bem ao contrário das propostas da revolta macabéia. Então, conforme o livro de Daniel, cruzar os braços para aguardar a libertação de Deus, por vezes, é a única coisa a ser feita.[101]

Porém, a altissonante contribuição da apocalíptica vai ainda mais longe. Afirma-se a fé não a partir dos fracassos, mas apesar dos fracassos.[102] O apocalipsismo de Daniel não é revolucionário, pois aguarda que se manifeste a salvação de Javé.[103] E esta salvação se aguarda sob forma histórica e já é proclamada como evento escatológico. A escatologia, deste modo, cumpre a função de antecipar a esperança; traz ao presente o futuro aguardado. Neste exato sentido (strictu sensu), sem contudo querer entrar nos méritos do titânico debate entre Käsemann[104] e Bultmann[105], a apocalíptica do livro de Daniel deve ser chamada de mãe da teologia cristã. Afinal de contas, tanto na pregação de João Batista quanto no anúncio de Jesus sobre o Reino de Deus, o futuro é tornado imediato.[106] Finalmente, ainda outra questão deveras interessante seria indagar pelo lugar social de Daniel.[107] Mas, deixamos isso para outra ocasião.

Pondo necessário termo às nossas reflexões, revisamos agora o que a teologia de Daniel diz em e sobre Daniel 4. Daniel 4 representa um enxugamento traditivo de modo a apresentar querigma próprio em novo contexto, tal qual ocorre com 4Q OrNab. O modo como o texto é tratado indica o casamento dos bivalentes tradicionais populares; a birutice de Nabonides é tipificada[108] na loucura de Antíoco IV. Por trás de Dn 4 se esconde o sofrimento de um povo na reflexão do teólogo e o desejo de que o rei conheça a soberania de Deus. Da mesma forma, 4Q OrNab, aproveita o material traditivo e destaca a tragédia da idolatria. A crítica ao rei consubstancia-se no anúncio de sua derrocada e a vinda iminente do reino de Deus. A teologia apocalíptica sabe que os reis enlouqueceram porque não conseguiram interpretar os sinais do Deus vivo professado pela fé israelita.

Não é somente isto; Daniel é teologia lá e cá! Daniel 4 é lembrete permanente de que a loucura deve ser reinterpretada; os loucos e a loucura continuam aí, estão presentes em nosso meio, instigando o clamor pela vinda iminente do Reino de Deus que é Reino de Deus, aquele que ocorre sem a cooperação humana. É preciso pois, resgatar a mensagem de que os opressores são loucos e seu reinado, sem dúvida, para logo (e aqui não importa o significado temporal deste logo), terá fim. Isto já está determinado por Deus!


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