A pergunta trata de um dos textos mais complexos do livro do Êxodo. Refere-se a um episódio estranho e confuso. Começo dizendo que foram dadas muitas explicações deste fato.

Primeiro de tudo, vamos ver o contexto. Depois que Deus falou na Sarça ardente e lhe deu a missão de regressar em Egito para libertar os hebreus que eram escravos, Moisés começa a colocar em prática a sua tarefa. Porém, durante a viagem, que faz junto com a esposa Zípora, uma madianita, e com seu filho, o Senhor encontra Moisés e tenta matá-lo. Zípora então faz a circuncisão do filho e diz a frase que fale de ‘marido de sangue’ e assim a ira do Senhor termina. Em seguida Deus coloca ao lado de Moisés o seu irmão Araão e os dois chegam ao Egito, onde começam as suas missões de libertar o povo hebreu do Egito.

Para abreviar e simplificar, sublinhamos dois aspectos problemáticos na passagem:
1. a circuncisão;
2. a frase pronuciada por Zípora.

Quanto à circuncisão, do contexto deduzimos que o episódio faz com que Moisés possa regressar ao Egito, enquanto que antes havia algo que lhe impedia. Portanto se trata de algo essencial.
A explicação normalmente dada ao episódio é que na fronteirca com o Egito Deus fica irado com Moisés por que não ele não é circuncidado. Zípora, então, circuncide o filho e, colocando sobre Moisés o prepúcio cortado, faz com que Moisés seja considerado circuncidado. Seria, nesse caso, uma circuncisão ‘vigária’, pois Moisés é adulto e não poderia viajar para o Egito depois de ter feito a circuncição, pois deveria ficar em repouso.

Porém, um grande comentator judeu da Bíblia da época medieval, Rashi, diz que Deus fica irado com Moisés por que ele não circuncidou o filho. O mesmo afirma o Talmud (tratado Nedarim, 31a - 32a). A tradição exegética judaica é quase unânime em atribuir o episódio à ausência da circuncisão de Jérson, filho de Moisés e Zípora. No Tamud se diz que Moisés exitou em fazê-lo por que teria sido perigoso viajar logo em seguida, com a ferida (a situação de invalidez temporária depois da circuncisão é exemplificada em Gn 34,25).
O Talmud traz também uma outra opinião: Satanás (não Deus, pois dizer que Deus mata é problemático) tentou matar Jérson, não Moisés, e o ‘marido’ seria exatamente ele, o filho. Porém não existem evidências bíblicas para sustentar tal hipótese.

Essas breves considerações nos dizem ao menos duas coisas:
1. que com a circuncisão estamos diante de alguma coisa de fundamental para a realização da missão de Moisés;
2. que existe a intenção de explicar uma prática comum naquela época.

Os pesquisadores nos indicam que em outras culturas existiam um rito di iniciação parecido, realizado com a presença de mulheres. O jovem é levado até elas no deserto. O jovem então tem um encontro com um ‘espírito perigoso’, recebe uma missão e volta ao seu povo com uma ferida misteriosa. Com tal rito vem indicada a passagvem da adolescência à idade adulta, um tipo de renascimento.
Particularmente para os hebreus, a circuncisão constitue um sinal permanente no homem da sua Aliança com Deus e, portanto, significa o momento da sua incorporação ao povo de Deus. Assim, admitindo que Moisés fosse circunciso (na Bíblia não é dito nada sobre uma circuncisão de Moisés, mas é estranho pensar que não tinha sido, considerando que quando a filha do faraó o encontra no rio Nilo, percebe logo que é hebreu), provavelmente o seu filho não era. Moisés, encarregado por Deus para libertar o povo do Egito, a ação fundamental da história do povo de Deus, sem a qual Israel não existiria, tem uma parte, o filho, que não é circuncisa. Seria como que dizer: não é um hebreu! Nesse momento fundamental, é importante ficar claro que os protagonistas pertencem de modo definitivo ao Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó.

Digamos, para resumir e concluir, que, deixando fora alguns elementos dúbios, é claro que Moisés pode iniciar a realizar a missão que Deus lhe deu somente com um sinal que indica que não é simplismente o homem Moisés, príncipe do Egito, que por sua iniciativa vai libertar o seu povo. É, invés, o Moisés enviado por Deus por que é Deus mesmo e somente Ele que, através do corpo do seu enviado, liberta o seu povo. O sinal é tão necessário que é descrito como uma condição para que Moisés não morra.

Quanto àquilo que fez Zípora, o problema é ainda mais cheio de controvérsia. A tentativa de matar Moisés termina quando ela pronuncia a frase ‘és meu marido de sangue’, uma frase que, como o nosso texto diz, é típica do rito de circuncisão.

Existem testemunhanças, por exemplo no Egito, que falam de uma circuncisão praticada como um ritual pré-matrimonial, na puberdade, que fazia com que o jovem entrasse plenamente na vida sexual e que era realizada pelo sogro. E, na verdade, a palavra hebraica usada no versículo ao qual a sua pergunta faz referência para indicar ‘marido’ pode ser traduzida também como sogro.

Desse modo, no sinal do sangue, o marido se tornava efetivamente marido.

Talvez estamos diante de um episódio que pretende explicar a prática da circuncisão em idade juvenil àquela praticada nas crianças. Com um fato estranho, porém: o ritual é feito por Zípora. Isso acontece por que ela era a única capaz de realizar a circuncisão naquela ocasião. Através disso ela restabelece a continuidade física de Moisés com o seu povo, interrompida por causa dos eventos que, na época da sua infância, lhe salvaram da fúria homicídia do faraó.

Tendo presente esses elementos, tentamos resconstuir os fatos. Moisés, que recebeu a missão divina de ir ao Egito para salvar o povo, não circuncide o filho, talvez para não fazer uma viagem com uma criança ferida. Todavia não pode realizar a sua missão sem que a sua união com o Deus de Abraão, Isaac e Jacó seja manifestada com um sinal concreto, que é a circuncisão. Tal situação lhe deixa em uma situação perigosa que lhe impede de prosseguir. Zípora, provavelmente a única capaz de fazer alguma coisa, realiza a circuncisão de acordo com o rito em uso naquele tempo e desse modo o impedimento de Moisés termina. Daquele momento em diante, Moisés, plenamente pertencente ao seu povo através da ligação especial com Deus, pode realizar a missão no nome do Deus de Israel.