Assim diz o texto que você menciona:

Os discípulos de Jesus lhe perguntaram: «O que querem dizer os doutores da Lei, quando falam que Elias deve vir antes?» Jesus respondeu: «Elias vem para colocar tudo em ordem. Mas eu digo a vocês: Elias já veio, e eles não o reconheceram. Fizeram com ele tudo o que quiseram. E o Filho do Homem será maltratado por eles do mesmo modo.» Então os discípulos compreenderam que Jesus falava de João Batista.

Um dos grandes limites das leituras que hoje se fazem da Bíblia é a falta de atenção ao contexto. Uma frase ou um pequeno texto tomado isoladamente pode ter um sentido intrínseco e até mesmo denso, mas se corre o risco de não entende-la na sua complexidade e riqueza, conforme fora pensada pelo autor sagrado. Essa menção a João Batista em Mateus pode ser expressão desse perigo. Por exemplo, tenho visto muitas insinuações que esse texto possa ser uma prova de que Jesus tenha falado da reencarnação. Trata-se de uma interpretação totalmente equivocada, pois conforme a Boa Nova anunciada por Cristo existe somente ressurreição para a vida eterna, cuja teologia contrasta com qualquer hipótese de reencarnação.

 

O contexto

Para ler bem o Novo Testamento é imprescindível compreender o mundo judaico, especialmente as tradições e teologia derivantes do Antigo Testamento. Entre essas está a concepção bastante popular de que Elias não morreu, mas foi arrebatado aos céus, como conta 2Reis 2,11. Mas não só isso: era esperada a sua volta, antes da vinda do Messias, como profetiza o última passagem do Antigo Testamento, segundo o nosso cânon (Malaquias 3,23-24):

Vejam! Eu mandarei a vocês o profeta Elias, antes que venha o grandioso e terrível Dia de Javé. Ele há de fazer que o coração dos pais voltem para os filhos e o coração dos filhos para os pais; e assim, quando eu vier, não condenarei o país à destruição total.

Quando os evangelistas escreveram, existia entre os cristãos – e provavelmente também entre os discípulos de João Batista – a convicção de que o precursor do Messias, o Batista, era a realização da profecia que previa a volta de Elias. Isso é evidente se lemos Lucas falando do menino João, quando coloca as seguintes palavras na boca do anjo que conversa com Zacarias, pai de João Batista:

Ele reconduzirá muitos do povo de Israel ao Senhor seu Deus. Caminhará à frente deles, com o espírito e o poder de Elias, a fim de converter os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, preparando para o Senhor um povo bem disposto.

Portanto, uma primeira mensagem que podemos tirar desse texto é que em Jesus se realiza a esperança messiânica e ele é o Messias esperado, realizando aquilo que os profetas haviam predito.

Mas a mensagem vai além desse aspecto.

 

A questão da morte e ressurreição de Cristo

A propósito de contexto, é preciso lembrar que a conversa entre Jesus e os discípulos sobre Elias e a missão do Batista acontece imediatamente depois que descem do Monte, aonde Jesus se transfigurou, na ‘presença’ de Moisés e Elias. Descendo Jesus pede aos apóstolos que não contem a ninguém sobre aquele episódio, “até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos” (Mateus 17,9). No texto paralelo de Marcos 9,9-13 é evidente que essa frase de Jesus provoca nos discípulos um problema:

observaram a recomendação (de não contar nada) perguntando-se que significaria ‘ressuscitar dos mortos’” (versículo 10).

Em seguida, perguntam a Cristo

por que os escribas dizem que é preciso que Elias venha primeiro”?

Jesus, sempre segundo Marcos 9, diz que efetivamente Elias virá e já veio e acrescenta uma pergunta:

Mas como está escrito a respeito do Filho do Homem que deverá sofrer muito e ser desprezado? (Marcos 9,12).

 

O que está por trás dessa conversa sobre João Batista e Elias?

Penso que a mensagem é dúplice

  1. Primeiro de tudo, como dito acima, se confirma que Cristo é o Messias, coisa evidente devido às manifestações espetaculares, como aquela da transfiguração, de João Batista que é visto como Elias.
  2. Todavia, Jesus recorda aos seus que ser Messias significa não apenas a espetacularidade, mas que eles tem que esperar e entender que o seu caminho prevê a dor, a morte. Portanto, está anunciando a sua morte, de maneira trágica; está preparando a seus discípulos para que entendam que o Messias é alguém que sofre, antes de ressuscitar.