Li no Independent (10 de fevereiro de 2016) um artigo que me levou a escrever essas linhas. Esse artigo fala de uma pesquisa feita por um australiano (Tom Anderson), que analisou os textos da Bíblia e do Corão, comparando os seus conteúdos. Ele concluiu que a Bíblia contém o dobro de violência, em termos de homicídios, guerras e destruições, respeito ao texto do livro sagrado do Islã.

Tom é um informático e desenvolveu um software que analisou separadamente os três livros (Corão, Antigo Testamento e Novo Testamento), classificando o conteúdo deles em oito emoções: alegria, esperança, raiva, desgosto, tristeza, surpresa, medo\ânsia e confiança. Em resumo, conclui que a Bíblia mostra mais raiva do que o Corão. “Dos três textos, o Antigo Testamento parece ser o mais violento”, diz o autor. Ele sublinha que 5,3% do testo do Antigo Testamento fala de homicídios e destruições, enquanto que no Corão esse índice desce a 2,1 %. No Novo Testamento a porcentagem é de 2,8%.

O objetivo do autor, visto o contexto em que vivemos hoje, onde muitos praticam a violência gritando a fidelidade a certa fé, é provar que o Islã não é, em si, mais violento do que outras religiões. Isso me parece uma coisa, em princípio, boa, por que nos ajuda a mostrar como são falsas certas atitudes fundamentalistas referidas ao Islã. Todavia, acredito ser importante comentar as conclusões desse estudo que se referem à Bíblia.

 

Unidade dos dois testamentos

O primeiro erro do autor é separar os dois testamentos. O Antigo não foi descartado pelo Novo. Os dois se completam. O “Novo” significa “novidade” e não “substituição” do “Antigo”. É uma Nova Aliança! Se quero entender bem o Novo, preciso da luz do Antigo. De fato, seria melhor dizer “Primeiro Testamento” e “Segundo Testamento”, invés de “Antigo” e “Novo”. Portanto, nenhuma análise da Bíblia Cristã pode considerar só o Antigo Testamento.

 

Deus se revela na história

A metodologia da revelação divina é a chave para entender bem a questão da violência na Bíblia. Deus não apareceu a uma pessoa e revelou sua vontade da noite para o dia. A Bíblia não é um ditado de Deus feito em questões de horas. A revelação divina, presente na Bíblia, é lenta e acontece paulatinamente, no decurso da história. Como uma criança que para caminhar precisa de ao menos um ano de vida, o povo de Deus também precisou de muito tempo para entender o que é o amor de Deus, revelado plenamente em Jesus Cristo. E a Bíblia não conta só a plenitude do amor, mas narra todo o processo que conduz à revelação da plenitude. Usando a imagem da criança que aprende a caminhar, não conta só os primeiros passos da criança, mas conta também a primeira vez que ficou sentada, o engatinhar, os tombos, as batidas de cabeça, etc.

O povo de Deus aprendeu o que é o amor aos poucos. É a pedagogia divina, difícil de entender. Como um pedagogo, ele tomou seu povo pela mão e mostrou qual é o seu modo de ser.

Para entender essa lógica, poderíamos tomar um exemplo emblemático tido como violência, no Antigo Testamento, que é a Lei do Talião, expressa pela máxima “olho por olho, dente por dente”, que encontramos em Levíticos 24,19-20. Para nós isso é simplesmente uma rigorosa reciprocidade do crime e da pena. Embora aplicada ainda em alguns países, com a pena de morte, nós a encontramos de particular violência. Todavia, historicamente estamos falando de um avanço, de um passo importante em termos legislativos: ela quer frear a vingança desproporcionada, impedindo que as pessoas façam justiça causando um dano maior do que aquele sofrido. Isto é, considerando a análise do informático australiano, a Lei do Talião deve ou não ser considerada como violência? É claro que para nós é algo violento, mas não para o contexto daquele tempo.

Esse exemplo mostra como é importante separar a história contada na Bíblia, contextualizando aquilo que se diz, da nossa realidade. Isso graças a Deus foi feito, principalmente com a ajuda das ciências das quais se serve a exegese. E não foi algo alcançado só pelo cristianismo; também o judaísmo chegou a essa conquista. De fato, os judeus, que têm o Antigo Testamento, sem o Novo, em sua Bíblia, são um povo pacífico, capaz de difundir o amor, afastado de toda violência.

Sem um percurso exegético, chegaremos a conclusões como as apresentadas pelo estudioso australiano, mas para alguém que lê a Bíblia dentro da tradição da interpretação do texto, a Bíblia não é violenta. Nela encontramos somente um percurso de revelação, onde, aos poucos, o povo vai descobrindo o que é o amor, que substituiu toda ação violenta.