Para todo mundo que lê a Bíblia essa questão fica como pano de fundo e tenta-se encontrar uma resposta. Várias pessoas manifestaram aqui no site essa dificuldade e já dissemos bastante sobre isso. Apesar das explicações, as perguntas continuam aparecendo. Isso revela que não somos muito eficazes em transmitir uma explicação que convença, que mostre a verdade. É um limite dos biblistas, mas também trata-se de uma questão de abertura do leitor da Palavra de Deus.

 

A violência na Bíblia

É evidente que no Antigo Testamento há muita descrição de violência, muitas histórias onde parece que a morte seja decretada a partir da vontade de Deus (veja uma lista aqui nesse artigo). Ao lado dessa evidência colocamos a certeza de que toda a Bíblia, Antigo e Novo Testamento, é inspirada pelo Espírito Santo, é Palavra de Deus, E acrescentamos o modo de ser de Jesus, que sublinha que Deus é amor.

Dessa situação é normal que apareçam algumas interrogações: Pode o amor matar? É claro que não, dizemos. Então o nosso Deus é só aquele mostrado por Jesus e não o Yaweh, do Antigo Testamento? Que diferença existe entre Deus, que em Gênesis manda matar os filhos primogênitos do Egito e Herodes, que depois do nascimento de Cristo, comanda uma matança das crianças na Judeia? São os dois igualmente atrozes?

 

Uma questão de revelação

Para entender bem esse tema é imprescindível passar pelo tema da revelação, muito frequente na catequese e na formação cristã e teológica. Sinteticamente se poderia definir a revelação como um processo através do qual Deus revela ao ser humano certas verdades religiosas e morais. Seria como um processo doutrinal através do qual a mente humano é enriquecida.

Essa concepção de revelação na verdade não é exatamente correta. Na verdade Deus não revela verdades, mas se revela. Ou seja, trata-se de um encontro entre pessoas: Deus encontra o ser humano e si mostra, se faz conhecer, apresentando o projeto salvífico que tem para o mundo.

Para nós, no contexto da pergunta do nosso leitor, é importante todavia sublinhar um outro aspecto da revelação: a auto-revelação de Deus acontece na história. Ou seja, Deus sai do mistério da sua pessoa e se comunica não em maneira mística, como se o ser humano fosse arrebatado, tirado fora do seu mundo, da sua casa. Invés, Deus entra na casa das pessoas, nas suas histórias e nesses momentos históricos se revela. Em poucas palavras, o "lugar" da revelação não é um lugar celeste, mas um lugar humano.

 

Deus se revela na história humana

Conscientes do lugar em que Deus se revela, precisamos entender que história é o reino da liberdade das pessoas. Isto é, existe história só onde existem pessoas que escolhem, que decidem, que escolhem um caminho e não outro, de acordo com uma decisão individual. Portanto, história é o local das mudanças, onde as coisas acontecem sempre de maneira diferente, onde pode aparcer a novidade.

 

Deus e o povo do Êxodo

No mundo bíblico, a primeira revelação de Deus, acontece na história do Êxodo, na ocasião dramática em que um grupo de pessoas oprimidas conseguem fugir do Egito e se dirigem na direção da terra. Essa é a ocasição em que, pela primeira vez, como povo, Israel encontra o seu Deus, que se torna o Deus do Êxodo e a carta de indentidade do povo fica marcada como "povo do êxodo".

Depois da saída, no deserto, o povo reflete sobre o que aconteceu e Deus aparece como solidário com os escravos no Egito, que tentam sair da opressão. Deus está presente, escondido. É Moisés que evidencia a presença divina no processo de libertação do povo, sentindo-se face a face com Yahweh: "hoje Deus ti libertou da escravidão no Egito".

Portanto existem duas realidades: Deus escondido age na história e o profeta revela e sintetiza a ação divina. Na revelação da presença divina, quando a comunidade crê, acontece o encontro entre Deus e o seu povo. Portanto, o processo de revelação culmina na fé da comunidade que toma consciência da presença de Deus na história.

 

Do êxodo até Jesus Deus se revela para todos

A revelação de Deus na história é uma realidade limitada no tempo. Começou a manifestar-se na história do êxodo. Continuou na história de Israel (entrada em Canaã, Davide, exílio, volta do povo da Babilônia) e teve um auge na vinda de Cristo. Terá um final na revelação escatológica, no fim dos tempos, quando Jesus aparecerá com clareza. É uma história limitada. Mas nessa história, do êxodo a Jesus Cristo, aparece o modo com o qual Deus está presente em toda a história humana. Em outras palavras, Deus está presente na história do Brasil, da Europa, mas de modo escondido. Invés, na história de Israel e na vinda de Cristo aparece toda a imagem de Deus, a sua face. E quando, na nossa história, acolhemos esse Deus do Êxodo, Deus de Jesus, se realiza, hoje, na nossa história o processo de revelação, como no Sinai e em Jesus.

 

Aplicando a revelação às histórias de violência

Tendo colocado essas bases teológicas, tentemos chegar a uma conclusão que nos ajude a compreender as histórias de violência na bíblia.

Visto que a revelação acontece na história, que o ser humano é responsável por aquilo que acontece, pois Deus não o tira do seu ambiente, é evidente que o destino humano não é algo já estabelecido, mas uma coisa que ele precisa construir.

Nessa linha precisamos ler quanto dito em Deuteronômio: "eu coloco, hoje, Deus diante de ti". Quer dizer que Deus entra na história do homem, colocando diante de si o caminho da vida e o caminho da morte. É o homem que tem que escolher, decidir. O destino de vida ou de morte o ser humano cria com suas decisões, com suas escolhas, com a sua prática. Deus acompanha as suas criaturas, mas é um Deus "escondido".

É por isso que as histórias de guerra do Antigo Testamento são história de guerras das pessoas, não de Deus. São releituras feitas das decisões tomadas por pessoas, em determinada época.

 

Jesus é a revelação definitiva

Jesus traz até nós a última palavra sobre Deus presente no mundo, na história, do início até o fim. É por isso que ele tem uma posição única, é o verdadeiro revelador. Mas revela um Deus que já está presente na história, talvez silencionso, escondido; uma palavra ainda não dita.

Ele não prega a violência, mas o respeito e amor pelas pessoas. E por isso revela como as atitudes violentas nas histórias contadas nos primeiros livros são uma visão limitada, humana, do verdadeiro rosto divino.