Uma janela sobre o mundo bíblico

Uma passagem bíblica diz que Deus não é homem para que minta e nem filho do Homen para que se arrependa. Mas, quando a terra estava corrompida, Deus se dirrigiu a Noé e disse que a destruiria... Também Deus se dirigiu a Moisés e disse que destruiria o povo... E novamente houve o arrependimento de Deus. Como responder a um ateu nesta ocasião?



  • Pergunta de Victor, Itaquaquecetuba
  • 33843
  • 29/10/2008
Luiz da Rosa

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Realmente Víctor, como você diz, a Bíblia diz que “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa; porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria?” (Números 23,19). Apesar disso é evidente que Deus, segundo a narração bíblica, volta atrás em suas palavras e se arrepende. É importante notar que a Bíblia é Palavra de Deus escrita por homens; é uma fé que procura entender. Os autores sagrados usam imagens humanas, categorias típicas da linguagem nossa, para descrever as ações de Deus e a sua identidade. As imagens usadas exprimem o conceito, mas não são perfeitas e não descrevem na totalidade aquilo que Deus é. Portanto poderíamos dizer que aquilo que a Bíblia diz sobre Deus é expressão de alguém que tem fé e, embora inspirado pelo Espírito Santo, é limitado pelas circunstâncias temporais nas quais vivia esse autor inspirado.

Além dessa consideração hermenêutica, é fundamental analizar o texto onde a passagem aparece. Cometemos um grande erro quando tiramos do seu contexto uma frase bíblica e usamos para fundamentar uma idéia isolada. A Bíblia deve ser interpretada dentro do seu contexto. O texto em Números fala do poder de Deus, que se manifesta através de Balaão, o célebre personagem que percorria a estrada com a sua jumenta, que foi capaz de ver a presença de Deus primeiro que o próprio Balaão (Números 22). A partir de Números 22 a Bíblia conta como Balac, rei de Moab, inimigo de Israel, pede que Balaão amaldiçoe a Israel para que o seu exército de Moab possa vencê-lo. Depois do encontro com o Senhor, no episódio da jumenta, Balaão, invés de amaldiçoar, abênçoa a Israel, seguindo a ordem de Deus. Isso suscita a fúria do rei de Moab. Por isso Balac o repreende dizendo: ”Que me fiseste! Eu te chamei para amaldiçoar os meus inimigos e tu pronuncias bênçãos sobre eles!” (Números 23,11). É então que Deus comanda a Balaão de dizer a Balac:
Levanta-te, Balac, e escuta,
Inclina o teu ouvido, filho de Sefor.
Deus não é homem, para que minta,
Nem filho de Adão para que se retrate.
Por acaso ele diz e não o faz,
Fala e não realiza?
Recebi ordem de abençoar,
Abençoarei e não o revogarei.
(Números 23,18-20).

As palavras de Balaão servem para sublinhar um conceito clássico da literatura profética, ou seja, o profeta deve ser instrumento da vontade de Deus e não pode absolutamente seguir a própria inclinação; deve anunciar o que Deus comanda e não aquilo que os governantes querem ouvir.

Para um ateu, com certeza, não devemos afirmar que Deus mente, mas podemos com muita clareza frisar que Deus se arrepende. Repito que é um antropomorfismo, uma categoria humana, que talvez não seja adequada para Deus, mas é necessário usá-la, se quisermos falar dEle. O ser humano foi criado e como dom recebeu a liberdade. Por isso a história não está escrita, mas graças ao livre arbítrio o ser humano a contrói. As escolhas da humanidade são, por isso, imprevisíveis e Deus pode, dependendo da escolha humana, “ arrepender-se”. E por isso que Deus, vendo, por exemplo, a conversão do povo de Nínive volta atrás e decide não destruir a cidade, como também teria feito se em Sodoma e Gomorra existisse alguém que fosse justo e fiel a Deus.

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