Uma janela sobre o mundo bíblico

Quem são as duas testemunhas do Apocalipse? Alguns dizem que pode ser alguém do nosso meio...



  • Pergunta de Juarez, Duque de Caxias
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  • 06/08/2008
Ombretta Pisano

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A citação sobre as duas testemunhas se encontra em Apocalipse 11,3-12. Trata-se, sem dúvida, de personagens extraordinários. As suas ações são descritas em 3 fases: a pregação acompanhada pela capacidade de realizar prodígios; a sua perseguição e morte por parte daqueles que se sentiam atingidos pela pregação; a sua ressurreição e assunção aos céus, onde os inimigos lhes contemplavam. Trata-se, como se pode logo intuir, de um esquema típico que encontramos também na vida de Jesus. Por isso poderíamos dizer que o autor pretende que imaginamos que estas personagens são semelhantes ao próprio Cristo. É exatamente por isso que provavelmente são chamadas de “testemunhas”, pois encarnaram em suas vidas o objeto de seus testemunhos, isto é, o ensinamento e o mistério pascoal de Cristo.

O fato de serem dois tem a ver com a autenticidade de seus testemunhos. Nos processos era necessário que as testemunhas de acusação fossem ao menos duas ( cf. Números 35,30; Deuteronômio 17,6; 19,15; Mateus 18,16; Gv 8,17; Hebreus 10,28). Da mesma forma, aqui nesse texto, o número dois indica a credibilidade das suas palavras.

Outro elemento que dá autoridade a eles é o fato que lhes são atribuídos alguns poderes típicos dos profetas Elias (não fazer chover) e Moisés (transformar a água em sangue e infestar o território com pragas) e que da boca deles sai fogo, como daquela de Jeremias, a quem o Senhor diz “Porquanto disseste tal palavra, eis que converterei as minhas palavras na tua boca em fogo, e a este povo em lenha, eles serão consumidos” (Jeremias 5,14). Diz isso para indicar o poder divino e ‘destruidor’ da palavra divina que sai da boca dos profetas (trata-se da ‘potência destrutiva’ que esta palavra opera quando entra em contato com a vida das pessoas e que pode provocar uma tremenda oposição que leva a matar ao profeta).

Por último, temos o elemento de credibilidade por excelência que é a ressurreição/assunção aos céus das testemunhas, que – como na morte – têm o mesmo destino de Cristo também na glória, uma realidade que aparecerá aos olhos de todos e que será ‘contemplada’ (com um sentido de reflexão sobre aquilo que se vê) pelos seus próprios perseguidores.

Agora abordemos especificamente a pergunta: ‘as duas testemunhas estão entre nós’? A resposta que dou em seguida dá a oportunidade de introduzir um princípio que é muito importante para compreender o mecanismo dos símbolos nas narrações bíblicas.

O aspecto simbólico das imagens usadas no Apocalipse (assim como em outros lugares na Bíblia) nos permite poder sempre identificá-los com pessoas e acontecimentos do nosso tempo. O Apocalipse, que é – como se traduz o grego apokalypsis – ‘revelação’, nos fornece chaves e critérios que nos ajudam a distinguir, dentro duma realidade, algo de negativo ou positivo e nos auxilia no discernimento diante de pessoas e suas ações e da história. Para poder ter esse efeito, porém, o símbolo deve também transcender a realidade que temos diante de nós. Deve valer agora e no futuro. Não podemos dar nome e sobrenome para as duas testemunhas (como também não podemos dá-lo à Besta ou a outras imagens simbólicas do Apocalipse), pois, se fizéssemos isso, anularíamos o símbolo, transformando-o em algo não mais aplicável a ninguém no futuro. Uma pessoa, um reino, uma nação podem ter, na história, nomes diferentes, mas também aspectos positivos e negativos que reaparecem.

Falando em perspectiva inversa, no símbolo temos características típicas do bem – beleza, convivência pacífica, harmonia, amor, etc. – ou também do mal – confusão, violência, guerra, humilhação, etc. – que na história podem assumir traços físicos diferentes em períodos diversos. Aquilo que importa não é identificar anagraficamente isto ou aquilo, mas é ter em mãos os instrumentos para se comportar conforme a maneira que o Apocalipse nos ensina, que é típico do cristão: exercitar o nosso juízo crítico em relação à realidade em que vivemos e seus protagonistas, para permanecer atentos, para abraçar com confiança aquilo que é bom e, igualmente com confiança, afastar-se do mal.

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