Uma janela sobre o mundo bíblico

Como e por que o Diabo surgiu no céu, visto que, segundo a Bíblia, Deus é o Eterno Bem?



  • Pergunta de Regia, Salvador
  • 24297
  • 17/12/2008
Luiz da Rosa

Leia mais sobre Demônio |


Não é fácil dar uma resposta à questão que você põe. De fato pensamos que o mal não vem de Deus, visto que é o eterno e sumo bem, como transparece sobretudo na teologia medieval (Pedro Aberlado, Francisco de Assis: “... que és o Sumo Bem, todo o Bem, cada bem, que só tu és bom”). E as respostas que encontramos sobre Satanás vão de um extremo ao outro: para alguns é um deus, que contrapõe o Deus bom, para outros não existe. Por isso ficamos perdidos e não sabemos bem como organizar nossas idéias sobre esse argumento.

Há várias nomes para designar o inimigo de Deus: Satanás, Diabo, Belzebú, Demônio... Generalizando, são sinônimos de uma mesma realidade. Na verdade “Satanás” é uma palavra hebraica, cuja correspondente em grego é “diabolos”.

Primeiro de tudo é preciso dizer que se trata duma presença que não podemos ignorar. No Novo Testamento aparece 80 vezes (36 satanás, 37 demônio e 7 como Beelzebul). Etimologicamente ‘Satanás’ significa ‘adversário’, ‘acusador’ e, conforme se deduz do livro de Jó, era uma figura pública, quase um ministério, que se julgava fazer parte da corte celeste onde tinha a função de denunciar os pecados das pessoas. O termo grego, Diabo, invés tem um outro significado: ‘aquele que divide’. O termo grego tem, portanto, somente sentido negativo: é aquele que tenta, que procura, com todos os meios, separar o homem de Deus. Na nossa concepção predonima esse significado grego e esquecemos do outro sentido dado a esta personagem.

Ao contrário do que se pode imaginar, na Bíblia não existe um ensinamento sistemático em relação a Satanás e nem se diz qual é a sua origem. Às vezes, sobre esse argumento encontramos menção de textos como Isaías 14,12-14 ou Ezequiel 28,12-19, mas é preciso sublinhar que esses textos não falam de “anjos caídos”, mas sim são mensagens dirigidas a reis, Nabucodonosor de Babilônia e o rei de Tiro, respectivamente. Apesar disso, das Escrituras podemos encontrar elementos que nos ajudam a entender a natureza dos inimigos de Deus. Normalmente trata-se de seres que têm vontade e inteligênsia e si opõem resolutamente a Deus, embora seja verdade que às vezes não se sabe exatamente se o mal é pensado em sentido abstrato ou pessoal, como em Mateus 6,13.
O poder do maligno, primeiro de tudo, consiste na capacidade de se dissimular. É por isso que Paulo aos Coríntios diz: “Satanás se mascara de anjo da luz” (2Coríntios 11,14). Além disso, como podemos deduzir lendo Jó (veja Jó 1,6-12; 2,1-7), Satanás tem acesso às realidades celestes de Deus e è desta participação que ele tira sua força de atração.

Ora se Satanás é uma realidade pessoal, então temos por acaso uma oposição entre duas realidades metafísicas de igual força e igual direito, ou seja, um dualismo a carácter pessoal? Essa tese, defendida pelos maniqueus, não encontra fundamento na Bíblia. Satanás é uma criatura e depende de Deus. Satanás e os demônios não têm poder divino e em seu agir são subordinados a Deus. Não existem, portando, duas divindades que encarnam o princípio de bem e do mal no mundo. A soberania de Deus sobre Satanás é confirmada em Apocalipse 20,2-3: “Ele agarrou o Dragão – que é o Diabo, Satanás – acorrentou-o por mil anos e o atirou dentro do Abismo, fechando-o e lacrando-o com um selo para que não seduzisse mais as nações...

Fica claro que a partir da Bíblia não podemos dizer que Satanás é somente uma alegoria do mal, mas sim um espírito angélico, que escolheu, com liberdade, de não servir a Deus e usar contra Ele os dons que recebeu (veja 2Pedro 2,4; Judas 6). É também evidente que a Bíblia não fala das realidades satânicas para satisfazer as nossas curiosidades. Oferece, invés, indicações que nos mostram como se comportar diante das suas insídias. O exemplo último e fundamental vem de Cristo, do seu sofrimento, que foi tentado como nós e permaneceu sem pecado. Por isso Satanás perdeu o direito sobre aqueles para os quais Cristo morreu.

Entender a existência do mal é um desafio. Acredito que elementos para a reflexão devem ser tirados da característica de Deus, que doa a liberdade às suas criaturas. Como criatura, Satanás tem a liberdade, graças à inteligência e à vontade, de escolher se estar a serviço de Deus ou não. Ele escolher agir contra o Sumo Bem.

24297 visitas



Comentários

Os comentários são possíveis somente através da sua conta em FaceBook