Uma janela sobre o mundo bíblico

Está escrito nos mandamentos que devemos guardar o sábado, só que são poucas as igrejas que pregam isso. Gostaria de saber: é pecado trabalhar no sábado?



  • Pergunta de Tatiana, São Paulo
  • 23407
  • 24/09/2007
Ombretta Pisano

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Tatiana, como todos os mandamentos do decálogo, aquele que fala da observância do Sábado não é sem importância. Apesar disso, os cristãos muitas vezes ignoram o seu significado e aquele de outros preceitos que são coligados com este.
O Sábado é um dos fundamentos do hebraismo. Os textos bíblicos que se referem à observância deste preceito (Êxodo 20,8-11; 31,16-17; Deuteronômio 5,12-15) falam desse mandamento de maneiras diferentes, mas com conceitos que se completam, que ajudam a entender o que ele significa e por quê é importante observá-lo.

A palavra Sábado, em hebraico, é ‘shabbat’. Vem do verbo ‘cessar’, ‘parar’ (de fazer alguma coisa). Isso que nós exprimimos com o verbo ‘guardar’ lembra o ‘cuidar’ e o ‘recordar’: recordar-se do Sábado é o sinal que é algo de muito precioso, como nos lembramos dos aniversários dos próprios familiares e amigos mais queridos, porque aquilo que eles são representa um grande valor para nós. A partir deste aspecto observamos que ricordar-se do Sábado não é uma constrição, mas uma alegria. Para os judeus o Sábado é uma alegria tão grande que é considerado como o amdo do Cântico dos Cânticos e lhe acolhem com um hino muito bonito, o ‘lekhah Dodi’, ‘vem, meu amado’.

O sábado deve ser ricordado/guardado para ‘santificar-lo’, ou seja, para transformá-lo em um dia diferente dos outros, um dia ‘a parte’, especial, durante o qual se vive em modo diverso, pois se renova a consciência que Deus agiu na história do homem. O fato de ‘parar’ em relação às ações cotidianas se transforma em ‘santificar’ cada aspecto do dia: o comer, o vestir, as relações sociais...

Os textos mencionados dão duas razões para a observância do Sábado: Deus criou o univrso em seis dias e no sétimo ‘fez Shabbat’ Ele também, ou seja, parou de criar. Êxodo 31,27 acrescenta também que ‘respirou’ (em hebraico ‘nefash’), que não só significa que descansou, mas que emitiu o seu respiro, o sopro da vida com o qual Ele dá vida a todos os seres viventes. Recordar o Sábado, portanto, significa fazer como Deus, que cria e pára de criar e tem o sentido também de lembrar que tudo, inclusive nós mesmos, vem dele e tem nele o seu significado e o sua meta.

O segundo motivo para observar o Sábado é indicado pelo texto do Deuteronômio: Deus não só fez tudo que existe e no sétimo dia repousou, mas interveio na história concreta do seu povo, libertando-o da escravidão no Egito. O povo era escravo, porém, libertado, pode finalmente servir o Senhor da liberdade. Observar o Sábado é lembrar de Deus que cria e que participa ativamente na história, é lembrar da própria liberdade, da própria ‘soverenidade’ sobre tudo aquilo que apresenta possibiliade de escravizar o ser humano. Por isso é necessário parar de fazer todos os trabalhos dos servos, parar de fazer tudo aquilo que manifesta a necessidade e o limite do ser humano. É o momento no qual não se submete às ‘leis’ que inclusive são necessárias para a sobrevivência, para apreciar e experimentar a semelhança com Deus.

A observância do Sábado tem também um aspecto social, que a estende a todos os familiares e aqueles (inclusive os animais) que trabalham para nós: não só é proibido trabalhar, mas não se pode também fazer com que outros trabalhem para nós, pois todos têm direito ao repouso. Naturalmente isso não exclui a solidariedade.

O Sábado não é apenas repouso, nem um mandamento estéril ao qual se deve observar e pronto, mas uma missão que Deus confia ao homem, uma aliança eterna. Trata-se de um dom que Deus dá aos homens, que deve acrescentar algo à vida e não tirar o seu sentido.

Este é o sentido que Jesus quis dar ao Sábado: ele o guardou sempre, como também as primeiras comunidades cristãs de origem judaica e, claramente, disse que “o Sábado é feito para o homem” (Marcos 2,27). Também a tradição judaica se expressa em modo parecido: “o sábado foi colocado nas vossas mãos e não vocês em suas mãos” (Yoma 85b). Jesus sublinhou a primazia da celebração da vida no Sábado, que se caracteriza na solidariedade e no dom de si mesmo. Em tal sentido deu uma interpretação mais amplia ao mandamento. A proibição de não trabalhar não pode excluir a caridade e não deve fazer com que se esqueça a caridade, os gestos de amor.

As primeiras comundiades cristãs, mesmo observando o Sábado, o sétimo e último dia da semana, aos poucos começaram a celebrar também o dia da ressurreição de Jesus (Atos 20,7), aquele que se transformará no domingo, o ‘oitavo dia’, o primeiro dia da nova criação em Cristo, que coincide com aquele da sua volta (1Coríntios 11,26).

Quando o cristianismo se difundiu no Império romano e se tornou a religião de estado, englobou no domingo a funçaõ do dia de descanso, a memória da criação e da libertação e também o anúncio da nova criação inaugurada pela ressurreição de Cristo.

Tornando à sua pergunta, ‘é pecado trabalhar no Sábado? ’, considerando os fundamentos expostos nesse texto, a resposta é positiva, se pensamos em pecado como um desperdício de um dom. A vida humana precisa de uma ‘fratura’ que é colocada na nossa vida como um ‘sinal’ dentro da sua quotidianidade que lembre a eternidade. A missão de santificar o dia de Sábado mostra que Deus reconhece à sua criatura humana a legitimidade e a importância desta necessidade, oferecendo a chance de realizá-la.

Como vimos, para os cristãos o sentido do Sábado passou para o domingo, que observam com o mesmo espírito.

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