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Lugares bíblicos

Festa de Pentecostes

Estudo de Ivete Holthmam, em 18/05/2013


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A FESTA DA COLHEITA

 

Assim como a Páscoa, a próxima das três festas bíblicas de Peregrinação,  é Shavuoth ou Festa das Semanas, era originalmente ligada à colheita, nesse tempo trigo, não cevada. Era intimamente relacionado com a Festa da Primavera, cinqüenta dias deviam ser meticulosamente contados todas as noites até o qüinquagésimo dia, o Pentecostes chegasse (em grego, qüinquagésimo). Então os primeiros feixes de trigo e o primeiro pão recém feito eram cerimoniosamente oferecidos nos santuários e só mais tarde no Templo. O rito tinha o mesmo significado que o da oferta de cevada na Páscoa, o reconhecimento de que a terra e seus frutos são de Deus. O homem dá graças e reconhece sua dependência da generosidade de Deus. Como aconteceu com a Páscoa, a festa agrícola também se transformou e historicizou. Baseado em uma passagem bastante vaga no Livro do Êxodo (19: l-2), assumiu-se que cinqüenta dias depois do Êxodo, que é comemorado a Páscoa, o acontecimento do Sinai, aconteceu a entrega da Tora.

 


PASCOA E PENTECOSTE

Há uma razão lógica e profundamente religiosa para esta ligação, embora provavelmente não fosse explicitamente formulada até uma data muito mais tarde, possivelmente, nos últimos séculos antes de Cristo. Israel foi libertado da escravidão do Egito para uma finalidade específica. As várias tribos tiveram que ser reunidas em uma comunidade com uma missão específica: para ter um relacionamento peculiar, único com Deus e para servi-lo sempre..
A narração deste evento, no Livro do Êxodo é apenas parcialmente compreensível historicamente. Ele descreve em termos simples, uma história de Teofanias, que é em si mesmo humanamente inexplicável. O que aconteceu no Sinai foi, no entanto, tão cheio de significado e eficácia que os seus efeitos continuam para o povo judeu até os dias atuais. Eles experimentaram o poder e o amor do Deus Criador, pois eles foram escolhidos, como uma comunidade, a entrar em um relacionamento de aliança com ele; eles receberam uma lei a qual tinha de ser observada por causa deste compromisso particular de cuidados de proteção da Sua parte e de obediência amorosa por parte do povo. Um corolário da aliança foi a promessa condicional de uma terra para esses andarilhos do deserto. Por causa da experiência do Sinai, a Casa de Israel veio a existir e que se manteve viva até os dias atuais. Os rabinos explicam o significado da aliança, referindo-se a Shavuoth como o dia do casamento de Israel, a Torá é o Ketubah (contrato de casamento) entre Deus e o seu povo.


DESENVOLVIMENTO POSTERIOR

Tanto a continuidade como a adaptação pode ser observada na festa de Shavuoth. Hoje a sinagoga é decorada com plantas verdes e flores que lembram a origem agrícola da festa, mas a liturgia, com suas orações, leituras e famosas peças poéticas, é organizada de modo a re-apresentar e chamar a atenção para a entrega da Torá e renovação da aliança. A porção da Torá lida pela manhã no culto é a narração da Teofania do Sinai (Êxodo 19,1-20,26), que inclui os Dez Mandamentos. Estes são recitados em um canto solene, enquanto a Congregação está de pé, recebendo de novo a primeira Revelação dada a seus antepassados na montanha O impressionante
relato da majestade divina, que ainda não se dignou a fazer a Israel, seu povo, é enfatizada pelas leituras das Teofanias descritas em Ezequiel, capítulo um, e pela oração de Habacuque, capítulo três. Em contraste, o Livro de Rute é recitado por várias outras razões. O principal evento desta novela acontece no momento da colheita do trigo. A fidelidade de Rute a Noemi reflete a fidelidade de Israel à aliança com Deus, mesmo em pequenas coisas Boaz observa a lei, deixando as beiras do campo ficar para os pobres. Tão grande é a atração do Deus de Israel que a mulher gentia se reúne ao Seu povo, o que faz ela se tornar a ancestral de Davi, o modelo de servo ungido de Deus. Supõe-se que Davi tenha nascido e morrido em Shavuoth.


TORAH

Para ser justo em relação à festa judaica e cristã de Pentecostes é importante clarificar o termo "Torá". Seu significado foi distorcido ao longo dos tempos, sendo traduzido como "lei". Este tem sido um erro fatal pois Torá significa "ensino", "guia para o caminho", "o caminho certo", no qual o homem caminha para o seu objetivo final, o próprio Deus. Os cento e setenta e seis versículos do Salmo 119 expressam isso, por exemplo, no versículo 105 "A tua palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho." A Torá é para ser amada e mostra o amor de Deus para com o ser humano - é a "árvore da vida para aqueles que aderem a ela" (Liturgia do Sábado), ela dá sentido à existência, tanto no relacionamento do homem com sua comunidade como porque o liga a Deus, permitindo-o viver em sua presença protetora. A Torá pode ser comparada ao Espírito, que cumpre a mesma tarefa para os seguidores de Jesus.


ESPÍRITO

No Novo Testamento a Ressurreição, a Ascensão e o dom do Espírito Santo estão intimamente relacionados. Isto é enfatizado no último Evangelho, o de João, que é parte factual, em parte a interpretação dos fatos e acontecimentos como "sinais". O Ressuscitado sopra seu Espírito sobre os apóstolos reunidos no primeiro dia de sua existência, agora glorificado (Jo 20,22). João já havia antecipado a necessidade do Espírito em 3,5 "Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus." De certa forma até mesmo 20,22 já antecipa: o Espírito é dado neste caso em particular, somente aos apóstolos, embora sua função fosse a de criar uma nova comunidade maior. Sua "vinda" teve de ser um evento público, vivido por uma assembléia-geral, semelhante à que aconteceu no Sinai. Como a Torá, o Espírito uniria uma multidão (At 2,5), até então estranha uns aos outros e a Deus: "Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e, Cappodocia, Ponto e Ásia, da Frígia e da Panfília, Egito e ... Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, cretenses e árabes "(Atos 2:9-11). Essa multidão heterogênea, reunida em Jerusalém para a Festa das Semanas, não era diferente das tribos heterogêneas que tinha se encontrado há muitos séculos atrás no deserto do Sinai.

 

TEOFANIAS

Para o judaísmo. Pentecostes está relacionado com o evento do Sinai onde Israel recebeu a Tora. Enquanto que, para o cristianismo, Pentecostes é onde acontece o dom do Espírito. Como as teofania de antes, assim, o dom do Espírito é precedido por um período de preparação, de purificação e de oração (cf. Ex 19,10-11; At 1,12-14). Mesmo a estranha substituição de Judas por Matias  pode ser entendida como parte do processo de uma separação clara do pecado e da preparação para uma nova fidelidade. Os eventos registrados em Atos 2 não deveriam ser interpretados de forma literal. Como os autores do Êxodo, o escritor de Atos tem de lidar com a dificuldade de descrever uma experiência muito real do que está além da realidade cotidiana em linguagem humana. Desde os tempos pré-históricos, elementos como fogo, trovão, o vento, que não estão sujeitos ao controle do homem, têm sido usados para descrever a intervenção do divino na história. No Sinai, há "trovões e relâmpagos e uma espessa nuvem sobre o monte" (Êx 19,16) "fumaça e fogo"(19,18), "a aparência da glória de Deus (era) como de um fogo devorador" (24,7). A teofania de Ezequiel descreve "um vento tempestuoso" e "um relâmpago no meio do fogo" (1,4); algo "como tochas" (1,13); as quatro criaturas iam "onde o espírito ia" (1,12).
Os livros do Êxodo, Ezequiel e Habacuc (3,4) usam fogo, nuvens e vento - fenómenos naturais dos quais o homem tem medo - para transmitir a experiência do Espírito. Estas mesmas imagens, por isso, são utilizados quase como uma questão de rotina por Lucas em sua descrição de Pentecostes: "Um som vindo do céu como uma rajada de vento forte ... e lhes apareceram línguas como de fogo" (Atos 2,3). O português "como" tradução do grego "como de", indica a tentativa desajeitada de colocar em palavras o que desafia a descrição exata. A palavra grega para “ruído”: "um som como sendo transportado por um vento" também mostra a dificuldade de traduzir o puramente espiritual em termos concretos. Lucas, escrevendo séculos após os autores do Êxodo, Ezequiel e Habacuc, é no entanto mais sofisticado. O fenómeno em si mesmo - justamente - de importância secundária, o que importa é o efeito: "Todos ficaram cheios do Espírito Santo"(Atos 2, 3). A ênfase está em um evento de natureza sobrenatural, o impacto do que é mostrado de imediato nas suas consequências.

O "falar em outras línguas"(At 2,4) pode ser literalmente verdadeiro ou ter um significado simbólico. A realidade que está por trás é uma inversão do que aconteceu em Babel (Gn11,1-9), quando os homens estavam dispersos e não entendiam a língua um do outro. No Sinai e em Jerusalém, o Espírito Santo reúne uma multidão e transforma-os em uma comunidade. O importante para a comunidade é a possibilidade de comunicação, simpatia, empatia, a faculdade de "falar" a língua um do outro, seja literal ou metaforicamente.


O SIGNIFICADO DO DOM

De muito maior importância é o efeito profundo e de longo prazo do evento. Lucas interrompe habilmente sua conta, enquanto Pedro, que há poucos dias tinha medo de uma copeira, na casa do Sumo Sacerdote, agora sem medo enfrenta uma multidão hostil. Este (o texto quer dizer), é o que o Espírito faz quando transforma o coração e a  mente do homem. O torna capaz de fazer aquilo que vai contra sua natureza, agora que chegou o momento dos apóstolos assumirem a missão definida por seu mestre. A missão dos discípulos de Cristo é de ser testemunhas, é proclamar e anunciar a amizade de Deus com toda criatura, a mensagem de perfeita reconciliação, tendo manifestado sua misericórdia visivelmente em Jesus. O Espírito é o selo, a garantia da aliança. No Sinai também há um sinal – as tábuas de pedra dos Dez Mandamentos - era uma evidência da aliança de Deus com Israel. A reação humana nos dois eventos não tem muita diferença: a multidão no Pentecostes está cheia de medo, assim como os israelitas no Sinai. Segue-se a pergunta "O que devemos fazer?" (Atos 2,37). No Sinai as pessoas não responderam de forma diferente: "Vamos agir e vamos ouvir" (Ex. 24, 7). As duas vezes a comunidade experimentou um pedido para o qual  devia ser dada uma resposta, não apenas em palavras mas em ação. Foi dito o que era esperado deles: fazer a vontade de Deus tal como foi interpretado pelos seus representantes, Moisés no Sinai, Pedro e os apóstolos em Atos.
O discurso após a Última Ceia, no Evangelho de João, que frequentemente menciona o Espírito (14,16; 15,26, 16,7.12-15), contém muitas frases semelhantes: "Se me amais, guardareis os meus mandamentos "(Jo 14,15-21, 15,10). Esta é a grande prova de amor, discernir e seguir a vontade de Deus. Durante a liturgia da Festa das semanas a passagem central da Torah, os Dez Mandamentos, é lida. Aqueles que ouviam Pedro foram aconselhados a se arrependerem e serem batizados. Através deste duplo ato, um interior, e outro visível, uma nova comunidade, a Igreja (qahal) dos seguidores de Cristo, foi criada. Assim, em ambos os eventos a intervenção de um poder da experiência ordinária humana atua dinamicamente na separação para o seu serviço de um grupo escolhido para servir a Deus de uma forma particular. Este serviço inclui, desde o início, o seguimento.


COMUNIDADE

No Sinai o povo de Israel se tornou existente. Desde então, já não eram mais indivíduos, ou tribos separadas mas uma nação para a qual foi prometida um terra, uma pátria. Em Atos, quando o Espírito foi derramado, “mais ou menos 3000 vidas” (2,41) constituíram a Igreja Cristã primitiva que “tinha tudo em comum” (2,44), e que “perseveravam na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na partilha do pão e nas orações”(At 2,42)
Importa pouco se a descrição de Lucas da primeira comunidade é verdadeira em todos os detalhes. Talvez não seja, vida de comunidade se desenvolve gradualmente e somente aos poucos estabelece suas estruturas. O ponto importante é como a Igreja agiu e continua agindo, pelo menos idealmente. Se os seus membros são animados pelo mesmo Espírito, então – apesar de toda diversidade de expressões de estilos de vida – haverá fidelidade ao “ensinamento” que deve ser sempre aquele de Jesus, interpretado diferente em momentos distintos, mas sempre fiel ao núcleo. Deve haver o amor de Deus, a partilha do pão e a oração,  amor ao próximo, comunhão e partilha.

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Traduzido do texto Pentecost
Publicado pelo “Centro de estudo judeu-cristão
Chepstoow Villas, 17
Londres W11 3DZ

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3 comentários

Postar um comentário

  • RAFAEL MARCOS GARCIA (RIO DE JANEIRO) - 16/09/2014

    A vocação profética da Igreja e a necessidade de haver rearticulação da pregação do Evangelho no cotidiano do mundo tem que ser restaurada nos dias de hoje.

  • ad (aracruz) - 20/05/2013

    E depois quem guarda a lei de Deus é acusado de viver no antigo testamento...

  • Cleber (Belo Horizonte) - 01/01/2012

    Muito bom comentário. O mais completo hitórico do pentecostes original judaico, os fenômenos ocorrido na Igreja primitiva e uma crítica a Igreja pós-moderna está no livro: Israel a Igreja e o Pentecoste, do prof. Marcelo Magalhães. Brilhante teólogo, reeditado pela editora ágape.