Prezado Eliezer, não é simples responder a sua pergunta. Não devido à dificuldade em si de dar uma resposta, mas porque toca a doutrina da justificação, tema com grande carga emotiva. No século XVI, a interpretação e a aplicação de modo diverso da mensagem bíblica sobre a justificação dos cristãos foram uma das principais causas da divisão da Igreja ocidental.

Em poucas palavras, a doutrina da justificação diz que Cristo é nossa justiça, da qual nos tornamos participantes através do Espírito Santo segundo a vontade do Pai. Ou seja, como pecadores, devemos nossa vida nova unicamente à misericórdia perdoadora e renovadora de Deus, misericórdia que nos é dada gratuitamente, como presente, e que só podemos receber na fé, mas que nunca podemos fazer por merecer. Cristo, através da paixão, morte e ressurreição, nos redimiu uma vez por todas. O ser humano, para a salvação, depende completamente da graça de Deus.

O confronto em torno dessa doutrina existe porque os católicos sublinham a cooperação humana na justificação e os protestantes, em geral, o princípio da sola fide, isto é, Deus justifica o pecador somente na fé.

 

Essa doutrina se baseia, obviamente, sobre elementos bíblicos. Sublinho aqui sobretudo a carta de Paulo aos Romanos, onde se enfatiza a justificação do pecador pela graça de Deus na fé (cap. 3). Jesus foi entregue por causa de nossas transgressões e ressuscitou por causa de nossa justificação (cap. 4). A justificação, diz o apóstolo dos gentios, será dada a todos os que, como Abraão, confiam na promessa de Deus. Em Efésios 2,8 ele diz: Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras.

 

A partir desta breve explanação nascem espontâneas perguntas como a que você nos coloca: a que servem nossas obras? E muitos afirmam: Basta a fé em Cristo e somos salvos... Basta “aderir” a Cristo e a nossa salvação está garantida... O Batismo nos coloca no céu... Há igrejas que defendem essa doutrina. A igreja católica, invés, sublinha que, para a salvação, as obras têm um peso imprescindível, em base a Tiago 2,17 que diz que a fé sem obras é morta.

 

Em 1999, na Alemanha, os católicos e luteranos assinaram uma declaração conjunta sobre a doutrina da justificação, com um ampla abordagem das passagens bíblicas (veja o texto completo).Trata-se de uma pedra milhar no caminho do ecumenismo! Essa declaração nos ajuda a compreender com clareza o tema e a responder sua pergunta.

 

Eis aqui algumas pontos tirados dessa declaração que nos ajudam a dar uma resposta à nossa pergunta:

  1. Quando os luteranos dizem que a graça de Deus é amor que perdoa (favor de Deus), não negam com isso a renovação da vida do cristão.
  2. Quando católicos enfatizam que ao crente é presenteado a renovação da pessoa interior pelo recebimento da graça, querem assegurar que a graça perdoadora de Deus sempre está ligada ao presente de uma nova vida, que no Espírito Santo se torna efetiva em amor ativo.
  3. No batismo o Espírito Santo une a pessoa com Cristo, a justifica e realmente a renova. Não obstante, a pessoa justificada durante toda a vida permanece incessantemente dependente da graça de Deus que justifica de modo incondicional. Também ela está continuamente exposta ao poder do pecado e suas investidas, não estando isenta da luta vitalícia contra a oposição a Deus. Também a pessoa justificada precisa pedir, como no Pai Nosso, a cada dia, o perdão de Deus; é chamada constantemente à conversão e ao arrependimento e recebe continuamente o perdão.
  4. O cristão é ao mesmo tempo justo e pecador: justo porque Deus lhe perdoa o pecado e lhe concede a justiça de Cristo, mas continua ao mesmo tempo totalmente pecador, porque o pecado ainda habita nele, pois reiteradamente confia em falsos deuses e não ama a Deus com aquele amor indiviso que Deus como seu criador dele exige.
  5. O ser humano é justificado na fé no evangelho independentemente de obras da lei. As boas obras se seguem à justificação e são frutos da justificação. Não são méritos próprios, mas “sinais” da justificação.