Nesta experiência de elaboração e iniciação científica na área bíblica, consideramos que o aprendizado da teologia é uma arte de guiar o espírito na investigação da verdade.

O tema a ser instigado e apresentado de modo sum√°rio, ser√° desenvolvido sob o t√≠tulo ‚??E o Verbo se fez carne‚?Ě (Jo 1, 14a): auto-comunica√ß√£o de Deus na categoria de ‚??Palavra‚?Ě, querendo ser uma reflex√£o sobre a Palavra de Deus, enquanto projeto-Palavra-a√ß√£o. A Palavra de Deus entendida pela sua terminologia hebraica ‚??dabar‚?Ě desde sua concep√ß√£o no Antigo Testamento, significa que a Palavra de Deus √© ao mesmo tempo Palavra e A√ß√£o.

A partir desta concep√ß√£o religiosa vamos estudar o termo grego ‚??Logos‚?Ě, que apresenta a id√©ia da dabar divina, usado pelo Evangelista do Quarto Evangelho, para expressar a m√°xima da Revela√ß√£o de Deus em Jesus Cristo. Vamos considerar o alcance, as implica√ß√Ķes e os limites desta pesquisa sobre o termo Logos dentro do contexto hist√≥rico-religioso do Quarto Evangelho. Trataremos de compreender o Pr√≥logo como um todo, dedicando mais aten√ß√£o ao Logos no vers√≠culo 14a do Pr√≥logo do Quarto Evangelho.

O que desperta para a intrigante pesquisa do termo Logos no Prólogo é saber o porquê do Evangelista ter usado esta terminologia para falar sobre a Encarnação do Filho de Deus. Outro problema que emerge desta situação é a origem do termo Logos e qual o seu significado para o Evangelista.

Dada as limita√ß√Ķes pr√≥prias de quem inicia uma pesquisa, o trabalho est√° dividido em tr√™s partes:
O primeiro cap√≠tulo fala de alguns aspectos para a compreens√£o de ‚??Palavra‚?Ě, no caminho feito pelo Povo de Israel do Antigo Oriente, pois foi nesse caminhar e dentro de um contexto, que esse povo compreendeu a Palavra de Deus. A inten√ß√£o √© fundamentar o sentido e significado de Palavra de Deus, em seus aspectos de Palavra Criadora, Libertadora, enquanto Alian√ßa entre Deus e o povo, como portadora da Sabedoria divina e Salvadora.

No segundo cap√≠tulo, o termo ‚??Logos‚?Ě vai ser contextualizado em seu ambiente hist√≥rico-religioso. Como pano de fundo sustenta-se a hip√≥tese do Evangelista ou a comunidade joanina ter sido influenciado por pensamentos externos ao da comunidade crist√£. Por isso, este cap√≠tulo abordar√° sobre as rela√ß√Ķes do Logos no Pr√≥logo do Quarto Evangelho com a filosofia e a cultura greco-romana, com o Juda√≠smo e com a Literatura Crist√£ Primitiva.

Por fim, o terceiro cap√≠tulo trata sobre a estrutura liter√°ria que envolve a elabora√ß√£o do texto original do Pr√≥logo e a teologia que o Evangelista quer apresentar atrav√©s deste texto, com √™nfase no esc√Ęndalo do Logos divino e eterno fazer-se fr√°gil carne humana (v. 14a).

Com o objetivo de apresentar algumas pistas de como ser√° desenvolvido o trabalho, podemos dizer que no Pr√≥logo do Quarto Evangelho, o ‚??Logos‚?Ě √© a Palavra de Deus Encarnada, o pr√≥prio Jesus, o Messias que saiu do seio da Trindade para assumir a condi√ß√£o humana. Com a express√£o ‚??E o Verbo se fez carne‚?Ě (Jo 1,14a), o Evangelista inova a terminologia na linguagem primitiva das Comunidades Crist√£s.

Tal express√£o vem mostrar, al√©m da capacidade teol√≥gica e intelectual do Evangelista, o amadurecimento na f√© das comunidades. Em sintonia com outras culturas e costumes aprofundam a compreens√£o e o sentido teol√≥gico do termo ‚??Logos‚?Ě.

O objetivo da pesquisa √© refletir sobre o ‚??Logos‚?Ě numa compreens√£o dentro do Pr√≥logo do Quarto Evangelho, destacando a inten√ß√£o-id√©ia do Evangelista, tomando como meta a auto-comunica√ß√£o de Deus na categoria da ‚??Palavra‚?Ě e as sugestivas influ√™ncias no pensamento do escritor sagrado.

Para a comunidade acad√™mica, um estudo que pensa num aspecto bem delimitado tema, principalmente na √°rea b√≠blica, como √© o caso do Pr√≥logo do Quarto Evangelho, tem relev√Ęncia, pois ajuda a aprofundar e buscar as ra√≠zes da quest√£o que a pesquisa envolve. Al√©m de contribuir para um desenvolvimento pessoal, formativo e teol√≥gico, levando √† pr√°tica do trabalho de pesquisa.

Este trabalho conta com as linhas de pensamento de especialistas, como R. Bultmann, C.H. Dodd, A. Feuillet, R. Schnackenburg. A pesquisa segue o m√©todo hist√≥rico-cr√≠tico, apoiando-se na reflex√£o dos comentadores que trataram com mais profundidade o assunto, almejando buscar a id√©ia original do Evangelista ao utilizar o termo ‚??Logos‚?Ě, como express√£o m√°xima da revela√ß√£o da Palavra e anunciar o Cristo como Verbo Encarnado.

A pesquisa sobre o Logos no Pr√≥logo do Quarto Evangelho se mostrou realmente em concord√Ęncia ao que Or√≠genes (+ 253), um dos ‚??pais da Igreja‚?Ě, no s√©culo III, disse: ‚??... os Evangelhos s√£o a parte escolhida da Escritura, e que o Evangelho de Jo√£o √© a prim√≠cia dos Evangelhos‚?Ě. Ao passo que no Pr√≥logo, encontramos o Logos como a medula do Quarto Evangelho.

A auto-comunica√ß√£o de Deus na categoria de ‚??Palavra‚?Ě, com seu √°pice revelador no vers√≠culo 14a ‚??E o Verbo se fez carne‚?Ě, realmente revelou a caracter√≠stica pr√≥pria de um olhar de √°guia no infinito. Neste sentido, o Pr√≥logo atua como uma conjun√ß√£o entre as antigas constru√ß√Ķes da m√≠stica do Juda√≠smo e as premissas teol√≥gicas do Cristianismo Primitivo.

Este estudo nos provocou a perceber as dificuldades enfrentadas e as tens√Ķes existentes no per√≠odo em que o Pr√≥logo foi composto, apresentando a genialidade com que o Evangelista trabalha com os termos propostos. Uma leitura superficial sobre o Pr√≥logo deixaria de trazer presente, algumas quest√Ķes cruciais para a compreens√£o do que o Evangelista e a comunidade querem apresentar no Evangelho.

De maneira maravilhosa o Evangelista atribui o título de Logos ao próprio Cristo Messias, esperado e anunciado pelo Batista. O termo Logos na época do Evangelista, reveste-se de um alcance ecumênico, porque integra também a cultura grega.

Com o emprego do termo Logos como express√£o m√°xima da Revela√ß√£o de Deus, o Evangelista foi capaz de impulsionar a comunidade crist√£ a um amplo campo reflexivo. Principalmente por favorecer a conjun√ß√£o de tradi√ß√Ķes do Antigo Testamento com a nova experi√™ncia crist√£.

Desde o início do trabalho foram levantadas e concluídas algumas idéias para compreensão do sentido de Palavra de Deus que norteou toda a reflexão. A Palavra de Deus que foi compreendida e assimilada pelo povo semita antigo, e se tornou um alicerce para todos os escritos neotestamentários, que não deixou de considerar seu significado, mais recebeu um aperfeiçoamento, ou melhor, recebeu a consumação e a Plenitude com a vinda do Verbo Encarnado.

Depois percebemos que o termo Logos atribu√≠do √† Encarna√ß√£o do Messias Filho de Deus, foi escolhido com genu√≠na habilidade, pois o Evangelista soube articular com a comunidade crist√£ que recebia influ√™ncia de outras culturas e religi√Ķes, causando uma falsa compreens√£o do Mist√©rio de que eram anunciadores. As religi√Ķes mist√©ricas, como o gnosticismo, o hermetismo que influ√≠am no pensamento dos primeiros crist√£os confundiam a verdadeira ess√™ncia do Logos feito carne. O Evangelista percebe a necessidade n√£o de elaborar um texto que narrasse √† vida de Cristo, mas de um Evangelho que atendesse √†s necessidades da comunidade. Sendo ao mesmo tempo um testemunho vivo e aut√™ntico de f√© no Cristo Ressuscitado, e uma catequese que respondesse aos anseios e questionamentos que surgiam mediante as situa√ß√Ķes que a comunidade enfrentava.

O termo Logos √© trabalhado pela filosofia grega antes mesmo de Cristo. Mas da forma como o Evangelista apresentou no v. 14 do Pr√≥logo do Quarto Evangelho n√£o p√īde ser encontrado, at√© recentes pesquisas, em nenhum escrito anterior que influenciasse de maneira a prejudicar incisivamente a especificidade do termo no mesmo. No entanto, √© compreens√≠vel que o Evangelista tenha feito uso deste termo, para melhor apresentar e defender a ess√™ncia de um Mist√©rio Crist√£o, que √© a Encarna√ß√£o do Logos.

Destaca-se, portanto, que se o autor buscou relacionar o termo Logos j√° existente no pensamento contempor√Ęneo em seu contexto hist√≥rico-religioso, este procedeu de um ambiente religioso judaico e crist√£o t√£o importante para a sua vida. Sem deixar de articular com os precedentes greco-romanos.

Assim, o presente trabalho n√£o pretende ser o ponto conclusivo das quest√Ķes apresentadas, mas apenas o ponto de chegada para outras pesquisas. Particularmente serviu como um intrigante vislumbre sobre a problem√°tica, provocando interesse em aprofundar cada hip√≥tese apresentada.

Nesta conclus√£o, a √ļltima palavra est√° longe de ter sido pronunciada, porque diversos pontos est√£o em desacordo entre os comentadores. Propomos um caminho para refletir sobre o Logos no Pr√≥logo do Quarto Evangelho. Com certeza alguns questionamentos foram esclarecidos ou pelo menos, compreendido a sua raiz.

O caminho proposto para o desenvolvimento deste tema bíblico foi o do método histórico crítico, seguindo pressupostos exegéticos. Mas vários outros caminhos poderiam ser escolhidos para a apresentação do Logos Encarnado. Propomos abrir à sugestão para uma reflexão espiritual, pastoral e cristológica do Prólogo.

O trabalho nos deixa intrigados, porque ao mesmo tempo nos inquieta e interpela a descobrimos no Prólogo, através de sua forma cristalina, todo o Projeto de Deus em favor da humanidade. Sabendo que o Logos encarnou-se entre nós e continua presente por meio de seu Espírito Santo, nos perguntamos: acolhemos o Logos em nossa vida? Anunciamos sua Encarnação, como verdadeiramente Deus e verdadeiramente Homem? Testemunhamos sua Boa Nova? Como retribuímos o amor ágape do Deus Encarnado, na prática de nossa vida?


Este artigo foi extra√≠do e compactado com o intu√≠do de divulgar a pesquisa teol√≥gica realizada para a monografia, no curso de Teologia, da Faculdade Jo√£o Paulo II. Apresentamos uma s√≠ntese do que foi desenvolvido na monografia. Qualquer quest√£o em aberta ou para melhores esclarecimentos, entrar em contato: [email protected].