Carisma: dom pessoal concedido por Deus para ser utilizado em prol do próximo

Estudo de Dino Magalhaes Soares, em 26/11/2007


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Para receber um carisma ou uma graça é necessário seguir Jesus Cristo. Esse seguimento exige mudança. Paulo Apóstolo define a mudança como uma renovação pessoal, que rejeita a corrupção e paixões enganadoras. É preciso ser homem novo, criado segundo Deus na justiça e na santidade que vem da verdade (Ef 4,22-24).

Seguir Jesus é objetivar o Reino dos Céus. A conquista desse objetivo exige de cada pessoa opções concretas de escolhas e renúncias. Isto porque temos que ser capazes de realizar o que Jesus disse: em verdade, em verdade, vos digo quem crê em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas (Jo 14,12). Assumindo essa postura poderemos dizer “não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

Vivendo a pessoa de Cristo estaremos amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (Mt 22,37-39). A prática desses dois mandamentos tem que ser total e contínua, para não se cair no erro, pois aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor (Lc 7,47). O amor, portanto, é expressão e sinal do perdão recebido.

A vida nova em Cristo, ou seja, ser merecedor de receber um carisma é fazer morrer aquilo que nos liga à terra: fornicação, impureza, paixão, desejos maus e a cobiça de possuir, que é uma idolatria, pois do contrário estaremos sendo desobedientes a Deus (Col 3,5-6).

O objetivo desse trabalho foi de demonstrar que na sagrada Escritura o carisma é dom concedido por Deus, através do Espírito Santo, para ser utilizado em prol do próximo.

Existem duas definições de carisma, o laico e o religioso. Na definição laica a palavra carisma amplamente utilizada para definir o dom de influência e fascinação que um artista, político, empresário, etc., que está exposta às massas ou multidões, exerce sobre o público. Alguns exemplos: presidente Lula; Chico Buarque; Bete Carvalho, empresários do Instituto Católico de Desenvolvimento Empresarial e Social – IDES (criado em Goiânia em 2005), torcidas de times de futebol, vendedor de churrasquinho, de salgadinho e outros.
Na definição religiosa o carisma é relacionado à graça ou dom divino, que é um conjunto de temas que aparecem distintamente na Bíblia como amor, batismo, corpo, espírito, eucaristia, salvação, vida e artigos correlatos. Nesses artigos têm termos em hebraico que significam: demonstrar favor; favor e charisma (McKENZIE, 1983).

As graças são diversas, mas podem ser ordenadas como: a. Habituais: dons estáveis e divinos para aperfeiçoar a própria alma e torná-la capaz de viver com Deus; b. Sacramentais: dons próprios de cada sacramento; c. Especiais ou carismas: que têm como fim o bem comum da Igreja: são os ministérios eclesiais e as responsabilidades da vida em nome de Deus.

A Bíblia traz muitos exemplos de carisma. Dentre esses têm: Rm 11,19, diz que carismas no Antigo Testamento são todos os dons de Deus a Israel; Rm 1,11, Paulo deseja comunicar algum carisma espiritual aos romanos; 1Cor 1,7, é observado que os coríntios estão privados do carisma espiritual; Rm 6,23, o carisma de Deus é a vida eterna em Jesus Cristo; 1Cor 7,7, Paulo informa que o celibato e o casamento são frutos do Espírito Santo; Rm 12,6, menciona que cada pessoa tem dons diferentes, conforme a graça concedida.

Precisamos compreender que a graça antecede, prepara e suscita a livre resposta do ser humano ao Criador, pois Deus nos criou à sua imagem e semelhança (Gn 1,26).
No Antigo Testamento, o texto básico sobre o carisma é do profeta Isaías (11,2-3) que faz menção aos dons do Espírito Santo: sobre ele pousará o espírito de Iahweh: espírito de sabedoria e inteligência, espírito de conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e temor de Iahweh. Ele não julgará pelas aparências, nem dará a sentença só por ouvir. Isaías indica a justiça, a verdade e o amor. Nessa passagem também pode estar a premissa dos sete dons do Espírito Santo.

No Novo Testamento, os capítulos 12, 13 e 14 da 1Cor, expressam o alicerce do carisma. As passagens a seguir sintetizam esse dom Divino: Jesus é o Senhor (1Cor 12,1-3): o primeiro critério para discernir os verdadeiros dons do Espírito é reconhecer Jesus como Senhor. A Trindade gera a comunidade (1Cor 12,4-11): a ação provém do Pai, todo serviço provém de Jesus e todos os dons ou carismas provêm do Espírito Santo. Portanto, um dom que uma pessoa recebe é para o bem de todos; quem recebe deve colocar-se a serviço de todos gratuitamente. A comunidade é o Corpo de Cristo (1Cor 12,12-31): o cimento da vida comunitária é a solidariedade, que faz todos voltar-se para cada um, principalmente para os mais fracos e necessitados, partilhando os sofrimentos e alegrias.
O hino ao amor cristão (1Cor 13,1-3). Apresenta a essência da fé. Entre os versículos, menciona-se: Ainda que eu tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que eu tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse o amor, eu não seria nada (v. 2); O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (vv. 4-7); O amor jamais passará (v. 8); Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor (v. 13).

Na Bíblia de Jerusalém, perícope 1Cor 13,1-13, utiliza o termo caridade e não amor. No entanto, o significado de caridade tem a dimensão de amor utilizado nas Bíblias Sagrada e do Peregrino (SCHÖKEL, 2002), conforme vv. 1-3 (superioridade da caridade); vv. 4-7 (suas obras), vv. 8-13 (sua perenidade), principalmente no v. 13 que revela o amor para com Deus na ligação de fé e esperança.

O amor, portanto, é a fonte de qualquer ação humana. As expressões dos dons dependem do dom do amor. O amor não pode ser substituído e sem ele nada significa. O amor é a força de Deus e também a força da pessoa aliada a Deus.

Carismas e bem comum (cf. 1Cor 14,1-25): os carismas são dons especiais do Espírito Santo concedidos para pessoa de fé, para as necessidades do mundo e da Igreja, cujo magistério cabe discerni-los. A ordem nas reuniões (1Cor 14,26-40): todos são iguais uns aos outros, inclusive os que têm dons especiais. Portanto, é necessário saber ouvir, para calmamente refletir e depois agir (SOARES, 2006, p. 1-2).

Os dons são concedidos por Deus através do Espírito (VATICANO, 2000, p. 527 [CIC 1999-2000]). Esses dons são inúmeros, mas normalmente são mencionados sete dons. Como no contexto bíblico o número sete significa universidade, totalidade e perfeição, podemos dizer que recebemos os dons para estarmos em comunhão com Deus Pai.
Os sete dons do Espírito Santo são: Sabedoria; Inteligência; Conselho; Fortaleza; Ciência; Piedade; Temor de Deus. Paulo Apóstolo em Gl 5,22s menciona os frutos do Espírito Santo: capacidade, alegria, paz, paciência, longanimidade, bondade, benignidade, mansidão, fidelidade, modéstia, continência e castidade.

O carisma ou dom divino é fortaleza espiritual, pois se o mundo nos quer com posse, poder e prazer o Amado Criador, o Pai de Bondade, nos convida a partilhar, servir e renunciar (ÁVILA, 2002, p. 147-156).

Cada um vive de acordo com a graça recebida, mas deve colocar-se a serviço dos outros, pois o fiel é bom administrador das muitas formas da graça que Deus concedeu (1Pe 4,10), porque é necessário ser perfeito como Deus é perfeito (Mt, 5,48).

Aquele que permanece em mim, e eu nele, esse produz muito fruto (Jo 15,1-8 – A Videira).

BIBLIOGRAFIA

ÁVILA, Geraldo do Espírito Santo (bispo). Você em oração e catequese pastoral: Ofício da Imaculada. Brasília: Catedral Militar, 2002.
BÍBLIA de Jerusalém. ed. rev. amp. São Paulo: Paulus, 2002.
BÍBLIA Sagrada – Edição Pastoral. Petrópolis: Vozes, 2001.
McKENZIE, J.L. Dicionário Bíblico. São Paulo; Paulus, 1983
SCHÖKEL, Luís Alonso. Bíblia do peregrino. São Paulo: Paulus, 2002.
SOARES, Dino Magalhães. Jesus Cristo, Filho de Deus, reza e sua missão é divina. Goiânia, 2006. (apostila).
VATICANO. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.

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