Campanha para a Evangelização na época de Jesus e dos Apóstolos

Estudo de Odilo Pedro Scherer, em 07/12/2006


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Jesus e os apóstolos levavam vida muito simples mas, no anúncio do Evangelho, havia necessidades bem concretas: transporte, alimentação, hospedagem, locais de reunião... Jesus tinha amigos generosos e aceitou a ajuda de muita gente, que oferecia seu barco para atravessar o lago, casa para acolhê-los, hospedagem e alimentação. Lemos no Evangelho de São Lucas que algumas pessoas do grupo de Jesus e dos discípulos “os ajudavam com seus bens” (Lc 8,3). Jesus e os apóstolos tinham sua “caixa comum” e Judas era quem devia administrá-la (cf Jo 13, 28-29); São João observa que ele era ladrão e roubava o que nela se depositava (cf Jo 12, 4-6). Jesus envia os 72 discípulos em missão dizendo que “o trabalhador é digno do seu salário” (Lc 10,7).

A primeira comunidade cristã, em Jerusalém, viveu uma experiência extraordinária de partilha de bens, que até hoje faz sonhar com aquilo que seria possível, se a comunidade humana tivesse a coragem de viver a solidariedade e a fraternidade : “Ninguém considerava suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum. (... ). Entre eles ninguém passava necessidades” ( cf. At 4, 32.34). Mais adiante, os Atos dos Apóstolos registram mais uma vez: “aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro e o depositavam aos pés dos apóstolos. Depois era distribuído conforme a necessidade de cada um” (At 4,34). Foram momentos de grande entusiasmo e generosidade e isso atraía a atenção das outras pessoas (cf At 3,42-47; 4,32-37).

Não sabemos por quanto tempo durou esse ideal de vida comunitária e de partilha de bens. O fato é que o egoísmo e vários tipos de discriminação social não tardaram a se manifestar. Os “estrangeiros” queixaram-se que “suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário” (At 6,1). Então os apóstolos instituíram os diáconos para cuidarem da atenção aos pobres e excluídos da comunidade (cf At 6,1-6).

Quando a comunidade de Jerusalém, por várias circunstâncias, começou a sofrer necessidades, S.Paulo organizou uma grande campanha de doações nas comunidades fundadas por ele (cf Rm 15,26), a qual bem poderia ser chamada “a primeira campanha da fraternidade”, ou a primeira “campanha para a evangelização”. Ele mesmo deu instruções sobre a maneira de organizar a campanha e a quem confiar o fruto da coleta para que chegasse aos seus devidos destinatários (cf 1Cor 8 e 9).

Interessante é observar que Paulo manda fazer a coleta no domingo: “Todo primeiro dia da semana cada um separe livremente o que tenha conseguido economizar” (1Cor 16,1-2). A recomendação revela que a coleta não era feita de maneira improvisada, nem significava pôr a mão no bolso de maneira irrefletida para “oferecer qualquer coisa”; devia ser um gesto bem consciente, realizado com aquilo que se punha “à parte” e se destinava para esse fim. Por outro lado, o fato de fazer a coleta “no primeiro dia da semana” aproximava-a da celebração da Eucaristia; o encontro da comunidade com o Senhor ressuscitado era também a ocasião da partilha fraterna.

Paulo não deixa de recomendar generosidade nas doações, fazendo alusão a passagens da Escritura: “É bom lembrar: Quem semeia pouco, também colherá pouco; e quem semeia com largueza, colherá com largueza (cf Pr 11,24). Que cada um dê conforme tiver decidido em seu coração, sem pesar nem constrangimento, pois Deus ama a quem dá com alegria (cf. Pr 22,8). Deus é poderoso para cumular-vos de toda sorte de graças, para que em tudo tenhais sempre o necessário e ainda tenhais de sobra para empregar em alguma boa obra” (2Cor 9,6-9).

A partilha fraterna também deve ser sinal de gratidão a Deus e a quem realiza o serviço da evangelização: “Irmãos, pedimos que tenham consideração para com aqueles que se afadigam em dirigi-los no Senhor e admoestá-los” (1Ts 5,12). Quem anuncia o Evangelho comunica e partilha uma riqueza inestimável; por isso, o missionário torna-se também merecedor das atenções e da colaboração da parte de quem recebeu o Evangelho. “Aquele que recebe o ensinamento da Palavra torne quem ensina participante de todos os bens. Não vos iludais, de Deus não se zomba; o que alguém tiver semeado, é isso que vai colher. (...). Portanto, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, principalmente aos da família na fé” (Gl 6,6-10).

São Paulo não faz referência apenas à partilha generosa dos bens materiais mas também recomenda a oração e todo o apoio ao evangelizador: “Irmãos, certamente vos lembrais dos nossos trabalhos e fadigas. Foi trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós, que proclamamos entre vós o Evangelho de Deus” (1Ts 2,9). A oração é uma maneira de associar-se ao trabalho do evangelizador: “Rezem por nós, irmãos, a fim de que a Palavra de Deus se espalhe rapidamente e seja bem recebida, como acontece entre vós” (2Ts 3,1).

Estes poucos textos do Novo Testamento, portanto, mostram que a obra da evangelização e o trabalho da Igreja, desde o início, contaram com o apoio espiritual e material de todos os batizados. Motivados pela preciosidade da fé recebida e pela gratidão a Deus, todos os membros da Igreja são chamados a colaborar, de várias formas, para que o dom do Evangelho também chegue a outras pessoas. Pela Campanha para a Evangelização, a Igreja no Brasil pede aos batizados que apóiem o trabalho dos evangelizadores, a fim de que muitos, recebendo o dom da fé, nele se alegrem e encontrem a vida.

Tirado do boletim da CNBB “Notícias Dia-a-Dia” - Brasília, 23/11/06

D.Odilo Pedro Scherer
Bispo Auxiliar de S.Paulo
Secretário-Geral da CNBB

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