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Lugares bíblicos

A Parábola do rico insensato: Lc 12,16-21

Estudo de Bernardo Correa d’Almeida, em 13/08/2005


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A Parábola do rico insensato: Lc 12,16-21

Introdução

O nosso estudo parte do texto canónico – tendo por base o texto Novum Testamentum graece editado por E. Nestle – K. Aland e outros (Stuttgart 271993) – e do princípio que o Evangelho de Lucas (Lc) é uma obra literária entendida no seu conjunto e no seu contexto histórico. Esta é orientada programaticamente pela apresentação que o evangelista faz de Jesus anunciando a Boa Nova aos pobres, proclamando o ano favorável do Senhor e acolhendo os pecadores arrependidos na sua especial predilecção pelos humildes.
Nesse sentido, começamos por apresentar o texto grego da parábola (Lc 12,16-21), as razões da sua delimitação e o modo como este se enquadra na respectiva secção e no Evangelho. Depois analisaremos a forma, a história e a historicidade do texto para, seguidamente, considerarmos as suas palavras chaves em vista à compreensão da sua unidade e do valor hermenêutico da parábola.


Texto: Lc 12,16-21

16Ei=pen de. parabolh.n pro.j auvtou.j le,gwn\ avnqrw,pou tino.j plousi,ou euvfo,rhsen h` cw,raÅ 17 kai. dielogi,zeto evn e`autw/| le,gwn\ ti, poih,sw( o[ti ouvk e;cw pou/ suna,xw tou.j karpou,j mouÈ 18 kai. ei=pen\ tou/to poih,sw( kaqelw/ mou ta.j avpoqh,kaj kai. mei,zonaj oivkodomh,sw kai. suna,xw evkei/ pa,nta to.n si/ton kai. ta. avgaqa, mou 19 kai. evrw/ th/| yuch/| mou( yuch,( e;ceij polla. avgaqa. kei,mena eivj e;th polla,\ avnapau,ou( fa,ge( pi,e( euvfrai,nouÅ 20 ei=pen de. auvtw/| o` qeo,j\ a;frwn( tau,th| th/| nukti. th.n yuch,n sou avpaitou/sin avpo. sou/\ a] de. h`toi,masaj( ti,ni e;staiÈ 21 ou[twj o` qhsauri,zwn e`autw/| kai. mh. eivj qeo.n ploutw/nÅ






Delimitação de Lc 12,16-21

Em 12,16-21 não encontramos locuções temporais que determinem o momento exacto da ocorrência da parábola, porém sabemos que se aproximavam os dias de Jesus ser levado deste mundo e que este se encontrava a caminho de Jerusalém com os discípulos e rodeado por uma multidão (9,51; 12,1.13). O auditório para o qual Jesus se dirige não se altera nem antes nem depois da parábola e, no seio desse, uma disputa entre dois irmãos motiva Jesus a contar a parábola (12,13). Jesus é o sujeito dos verba dicendi nos vv.12,16.18.20. Outros motivos internos e externos favorecem a nossa opção de delimitação:

a) internos: o v.16a introduz a parábola e anuncia algo de novo à narração; predomínio da 1.ª Sing., do Fut. e de pronomes possessivos; relação entre vv.16.21 (o sujeito é Jesus – no v.16a as suas palavras introduzem e no v.21 concluem a parábola); esta ligação é acentuada por ou[twj e pelo paralelismo entre VAnqrw,pou tino,j – o` qhsauri,zwn e`autw/| e plousi,ou – ploutw/n que envolvem a parábola:

12,16 - Ei=pen de. parabolh.n pro.j auvtou.j le,gwn( VAnqrw,pou tino.j plousi,ou
euvfo,rhsen h` cw,raÅ
12,21 - ou[twj o` qhsauri,zwn e`autw/| kai. mh. eivj qeo.n ploutw/nÅ

b) externos: os vv.13-15 antecedem formal e logicamente a parábola e servem de ocasião para que Jesus a conte; o v.22 começa dum modo idêntico ao v.16 (Ei=pen de. pró,j…); a conjunção de,, (v.22) e a temática decorrente introduzem novidade na acção:

12,13-15 Disputa entre dois irmãos acerca das suas heranças
12,16-21 Parábola do rico insensato
12,22-34 Ensinamento de Jesus sobre as preocupações e o essencial da vida






Assim a parábola forma uma unidade própria acerca do fundamento da vida. Jesus apresenta-nos um homem rico com uma terra produtiva e numa situação de vida favorável que o conduz a um monólogo. O seu nome é desconhecido e no decorrer da parábola não surge nenhuma outra personagem até à intervenção de Deus.


Enquadramento do texto na secção e no Evangelho

No contexto da secção, a parábola surge, por um lado, em continuidade à interpelação de um dos irmãos acerca das suas heranças (12,13-15). Jesus, sem se envolver directamente na discussão, serve-se da pergunta para instruiu-los: “guardai-vos de toda a ganância...a vida não depende dos bens” (v.15); e, seguidamente, conta a parábola. Por outro lado, as palavras finais de Jesus (v.21) são complementadas pelos vv.22-34: a expressão dia. tou/to (v.22) segue a aplicação da parábola; o v.24 Jesus alude à primazia da vida sobre as despensas e celeiros; e, seguidamente, vários verbos [merimnw/n (v.25)  merimna/te (v.26)  mh. zhtei/te (v.29)  mh. metewri,zesqe (v.29)  zhtei/te (v.31)] confirmam a primazia do Reino dos Céus, pois aí está o verdadeiro tesouro (vv.33-34).
O modo como a parábola se insere na secção ajuda-nos a compreender a importância que esta assume no contexto da missão de Jesus expressa em Lc. A vida de Jesus foi uma constante doação ao Pai no anuncio do seu Reino. Jesus alerta para os perigos de perder o horizonte do Reino de Deus: “Ai de vós, os que estais agora fartos, porque haveis de ter fome!” (6,25). Estas e outras palavras de reprovação ou de incentivo inserem-se na sua missão de conduzir os homens ao Reino do Pai.
Um caminho que se distancia do auto-sustento e do acumular para si (6,30), antes é percorrido na gratuidade de quem encontra o tesouro maior. Apenas quem confia em Deus (11,3) pode experimentar a alegria e verdade do projecto de Jesus. Aqueles que vivem apenas das suas preocupações são incapazes de viver a lógica de Jesus (11,46). Esta é a situação do rico em 12,16-21.
Jesus alerta que a vida não depende dos bens. O tesouro está nos céus. A alegria é encontrá-lo e viver dele como fez aquele que cumpriu a vontade do Senhor dando fruto a seu tempo (12,42), aquele que não trocou o seu Senhor para ir vender um terreno (14,18), ou aquele que soube calcular até onde podem chegar as suas obras (14,28ss). Pois ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro (16,13). Jesus insiste que a riqueza, a aparência, a inquietação daquilo que se come, bebe e veste (12,29-30) podem dificultar a recepção do Reino de Deus e levar ao esquecimento da sua misericórdia (19,24).
Já nos dias de Noé e Lot os homens comiam, bebiam, compravam, construíam...sem olharem a Deus (17,22ss). Estes que procuram salvar a vida, perderam-na! Aqueles que a perderam, conservaram-na! (17,33). Estes encontram Deus (18,19), fazem do céu o seu tesouro (18,22) e herdam mais que todos (18,30). Essa foi a experiência de Zaqueu (19,1ss) e da pobre viúva (21,1ss) que ao encontrarem Jesus partilharam aquilo que tinham. Estas duas personagens vivem no horizonte do Reino de Deus, outras na devassidão, na embriaguez e mergulhados nas suas preocupações ao ponto dos seus corações se tornarem tão pesados (21,34ss) que se propõem vender o próprio Deus (22,5).


Forma do texto

O autor lucano é o evangelista que maior uso faz das parábolas. Uma das suas preocupações foi integrá-las no quotidiano das suas comunidades recorrendo a formas literárias do seu tempo de modo a potenciá-las para a concretização da sua mensagem. O nosso texto apresenta um monólogo iluminado pareneticamente pela sabedoria da época e com uma questão significativa: Ti, poih,swÈ Entre o momento que Jesus pronunciou a parábola e aquele em que esta foi redigida passaram-se pelo menos cinquenta anos, ou seja, as situações alteraram-se e o próprio entendimento de Jesus foi aprofundado.
Jesus ter-se-á servido da parábola para lembrar os seus ouvintes da verdadeira condição do homem, esclarecendo que as opções da vida do homem, apenas a partir de Deus fazem sentido. A parábola apresenta dois procedimentos opostos: um insensato, aquele do homem, e o sensato, o de Jesus. Jesus como sábio desvela as dificuldades que as riquezas levantam para aceder ao Reino, recomendando a confiança em Deus, mesmo face às perseguições ou perda de seguranças materiais.
As primeiras comunidades terão recontado a parábola e favorecido a sua memória. O sentido parenético da parábola terá ajudado a comunidade a esclarecer que apenas no horizonte do Reino Jesus se compreendiam os problemas e as disputas pessoais. A própria dinâmica interna das comunidades, a diversidade sócio-económica dos catecúmenos e as exigências do seguimento de Jesus terão contribuído para que a parábola fosse recordada no seio da comunidade.
O evangelista ao compor a sua narrativa evangélica serviu-se da parábola inserindo-a no âmbito concreto da vida de cada um. Assim o falar de Deus insere-se na vida de cada homem onde a morte tem lugar e cada um é chamado à conversão como caminho para Deus. O evangelista exorta cada cristão assumir já o seu destino pessoal e presente, o qual se cumprirá definitivamente depois da morte.


História da tradição do texto

No que concerne à composição do texto possivelmente os vv.12,1-12.22-32, face aos paralelos de Mt 6,25-34;10,19, procedem da fonte Q. Os vv.13-21 dificilmente terão a mesma origem, pois Mt ignora-os e no seu estilo, género e conteúdo aproximam-se de Lc que terá feito uma adaptação duma unidade composta pelo seu próprio fundo. Os vv.13-14 e os vv.16-20 terão circulado de modo independente e, mais tarde, terão sido reunidos. Esta operação teria sido acompanhada por um esforço interpretativo de Lc donde resultaram os vv.15.21 (que não encontramos em Tm 72 e 63).
Este trabalho de Lc na composição do texto permite-nos destrinçar algumas das suas características literárias nele presentes: a construção pró>j seguido de acusativo com verba dicendi (pro.j auvtou.j le,gwn) – 99x em Lc; a expressão VAnqrw,pou tino.j; o uso frequente da expressão kai. dielogi,zeto evn e`autw/| le,gwn, ou semelhante, para expressar um monólogo; a raiz de ploutw/n que não surge em nenhum dos restantes Evangelhos; o uso de pa/j.
A parábola, ao mesmo tempo, esteve sujeita a um complexo conjunto de influências no seu processo de tradição e composição: de monólogos utilizados nas novelas antigas (Jenofonte de Efeso), nas comédias (Menandro e Terencio), nas tragédias (Sófocles e Antígona) e na retórica; no uso de maus exemplos, dentro ou fora dos monólogos, comum na época; do AT e NT.


Historicidade do texto

O perigo das riquezas e o erro que delas podiam advir eram tema na pregação de Jesus, inclusive, nas suas parábolas. Ainda que vários factores tenham contribuído para que as suas parábolas se emancipassem em respeito à sua origem, esta apresenta motivos que corroboram para sua historicidade: a disputa entre dois irmãos a propósito de heranças ou outra situação análoga poderia ter motivado que Jesus contasse a parábola; o seu modo de partir de ocasiões precisas para expor a sua mensagem; o facto de Jesus não se deter perante pormenores de disputas pessoais e jurídicas; o conhecimento e o modo como Jesus se servia da sabedoria bíblica e daquela do seu tempo para anunciar a sua mensagem; o facto de alguns, entre os quais os saduceus, não acreditarem na ressurreição.
É um facto que Jesus serviu-se de parábolas nos seus ensinamentos. Se algumas delas, quanto à sua forma e desenrolar, apresentam dimensões inovadoras, na nossa parábola tal não é tão evidente. Aqueles que a ouvem sentem-se capacitados, mesmo antes de ouvirem a voz de Deus, para avaliar a ilusão e o erro do homem. Trata-se pois duma história que pertence ao património comum da experiência humana, com a originalidade de Jesus falar em nome de Deus (v.20).
O facto da parábola se repetir com uma certa similitude com Tm pode favorecer a sua historicidade. As duas histórias apresentam uma certa analogia: ambas descrevem um homem rico, os seus projectos e a ideia de morte. Porém, as suas diferenças sugerem-nos que uma semelhante situação de vida tivesse sido orientada em dois sentidos diferentes: em Lc é próprio Deus que alerta para o risco de alguém enriquecer esquecendo-se de Deus e da morte; em Tm Jesus mostra o vazio dos projectos que avistam apenas aumentar as riquezas.
Em suma, sem que possamos tacitamente provar a historicidade da parábola nos discursos de Jesus, tudo indica que a tenha pronunciado, possivelmente, com ligeiras nuances próprias do evoluir da transmissão oral e escrita. A parábola integra perfeitamente o ensinamento de Jesus, surge na sequência da tradição da sabedoria de Israel e insere-se realidade social e histórica que Jesus conheceu.


Palavras chaves do texto

Em vista da compreensão da unidade e significado da parábola procuramos entender a interdependência das suas principais palavras e o valor que estas assumem na narrativa:
- dielogi,zeto ( evn e`autw/|) introduz o monólogo do homem: o verbo aparece 5x em Lc, aqui exprime o pensamento de alguém que pensa consigo e a partir de si.
- poih,sw: em 20,13 o senhor da vinha usa a expressão da parábola (v.17) para questionar-se a si mesmo (ti, poih,swÈ) mas, se esse sacrifica o seu próprio filho, o homem da parábola interessa-se apenas de seus bens; a maior parte das vezes em Lc o verbo tem Jesus como sujeito e, se surge na boca de homens está quase sempre em relação a uma acção ou inquietação provocada por Jesus, no v.18 expressa uma actividade virada sobre si mesma e sem referência a Jesus; desta actividade resultam um conjunto de acções (suna,xw – kaqelw/ – oivkodomh,sw – suna,xw) que associadas à palavra yuch, permitem ao homem idealizar (avnapau,ou( fa,ge( pi,e( euvfrai,nou).
- e;cw: ‘não ter’ (v.17) move o homem a agir para ‘um ter’ maior (v.19); o verbo reaparece 3x em Lc na 2ª. P. Sing.; o ‘ter’ na parábola começa por expressar incompletude (Conj. Pres.) passando a uma acção auto-determinada e continuada de ‘ter’ (Ind. Pres.); surge em Lc 2x no Fut. e, diversamente, dessas duas ocorrências, o homem da parábola está só, não reza, e guarda tudo para si, representando o momento em Lc em que o ‘ter’ mais se distancia de Jesus e onde o materialismo assume maiores proporções.
- :Afrwn: aquele que não pensa ou vive sem razão e, por isso, está afastado da razoabilidade; os livros sapienciais usam diversos termos para designar um insensato: nabal, Kesîl, ‘ewîl, e ba’ar; estes termos normalmente são traduzidos nos LXX por a;frwn; aqui o vocativo a;frwn ganha uma autoridade particular, pois é o próprio Deus que ‘fala’; se o discurso do homem apenas ilusoriamente altera a sua vida, o de Deus modifica completamente o destino e a vida do homem.
- yuch,: repete-se 14x no Evangelho, na parábola com dois significados: desejo ou aspiração de vida (v.19a.20); e pessoa na sua vitalidade global (v.19ab). A proposta da parábola é colocar a aspiração humana no justo sentido da vida, ou seja, conduzir a vida do homem ao ser (e;stai) em Deus (eivj qeo,n).
- ploutw/n: este verbo sintetiza a história do homem rico (plousi,ou ) na sua acção de entesourar (qhsauri,zwn ) e de não enriquecer em Deus (mh. eivj qeo.n ploutw/n).

A interdependência destas palavras permitem-nos compreender o movimento da história: um homem rico decide entesourar fazendo (poih,sw) dos seus haveres (e;cw) suporte da sua vida (yuch,,) e é chamado insensato (a;frwn) por não ser rico em Deus (eivj qeo.n ploutw/n). Para visualizarmos a interdependência das palavras chaves e compreendermos a unidade da parábola apresentamos o seguinte esquema textual:





avnqrw,pou plousi,ou

dielogi,zeto evn e`autw/| Ti, poih,sw o[ti ouvk e;cw
Tou/to poih,sw( kaqelw/ Ë oivkodomh,sw Ë suna,xw evkei/
yuch/| mou Yuch,( e;ceij polla. avgaqa. ! e;th polla Ê avnapau,ou( fa,ge( pi,e( euvfrai,nouÅ
:Afrwn( yuch,n ti,ni e;staiÈ

qhsauri,zwn e`autw/| // eivj qeo.n ploutw/n


Unidade do texto

O movimento da narrativa resulta da própria unidade textual de 12,16-21, e nesse sentido, apresentamos a sua estrutura em ordem à compreensão dos seus principais momentos narrativos e como estes se relacionam:







Parábola do rico insensato (12,16-21):
Jesus conta a parábola (12,16a)
1. Situação do homem (12,16b)
2. Monólogo do homem (12,17-19)
a. Dilema do homem (12,17)
b. Resposta do homem (12,18-19)
3. Intervenção de Deus (12,20)
Aplicação da parábola (12,21)

A parábola propriamente dita encontra-se nos vv.16b-20 e é envolvida pelas palavras de Jesus que lhe servem de introdução (16a) e concretizam a sua aplicação (v.21). A parábola (12,16b-20) está estruturada por três principais momentos que progressivamente tendem para o cume: a intervenção de Deus (v.20).
O primeiro momento corresponde à apresentação feita do homem rico e detentor dum campo muito produtivo. Através do v.16b conhecemos a primeira personagem da história e apercebemo-nos da sua situação.
Num segundo momento o homem entra num monólogo. O seu dilema e o modo como se propõe resolvê-lo acrescenta algo à sua situação, pois informa-nos acerca do modo como se relaciona com os bens. O seu monólogo é composto por dois actos:

a) o dilema (v.17): uma pergunta orienta todo o seu monólogo (Ti, poih,sw;); o homem fala consigo e vive o dilema de não ter onde guardar os seus bens;

b) e a resposta (vv.18-19): encontra uma resposta para o seu dilema (Tou/to poih,sw); o homem decide consigo mesmo destruir os seus armazéns e construir uns maiores para reunir todos os seus bens; esta decisão convence-o a descansar, comer, beber e alegrar-se por muitos anos sustentado pelos seus haveres; a sua resposta está virada para o futuro, centrada na sua vida e orientada apenas pelos seus bens e frutos.

Depois de responder ao seu dilema, inesperadamente, aparece uma segunda personagem: Deus. A sua intervenção corresponde ao terceiro momento. Deus não resolve o dilema do homem, antes age no seguimento da resposta por ele encontrada. Deus dirige-se ao homem, chama-o de insensato e questiona-o acerca da sua opção.
As palavras de Deus colocam em confronto a resposta encontrada pelo homem: este fala para si mesmo, Deus dirige-se a ele; o monólogo começa com um pergunta, Deus começa com uma afirmação; o homem termina o monólogo com uma auto-afirmação, Deus termina com uma pergunta; as palavras do homem centram-se na 1ª. P. Sing., as de Deus no Pl. ou dirigidas ao homem; a preocupação do homem está nos meus bens, a de Deus sobre a vida do homem; o homem julga ter muitos anos de vida, Deus nessa mesma noite reclama a sua vida.


Hermenêutica do texto

No seguimento do estudo realizado apresentamos o significado e sentido da parábola a partir das personagens e das suas acções. A análise será dividida segundo três enfoques: a atitude do homem, a proposta de Jesus (expressa nas palavras de Deus) e os destinatários e a razão pela qual a parábola terá sido contada.

Atitude do homem

O erro do homem não está no descansar, beber ou alegrar-se, nem sequer na vontade de construir e enriquecer, mas no modo como vive o seu dilema. O homem tenta resolver o seu problema sem considerar Deus, pois vive demasiadamente preocupado com os seus bens. Ainda que pudesse ser o mais religioso e cumpridor dos crentes não considerou Deus na sua opção. As palavras de Deus sugerem que o homem se tenha esquecido da morte e da sua própria condição.
As palavras do homem permitem-nos desenhar a sua atitude: um enorme egoísmo (de si para si - dielogi,zeto evn e`autw/), um activismo sem sentido (de fazer para fazer - ti, poih,sw para poih,sw) e um materialismo crescente (de ter para ter - e;cw para e;ceij). O homem em vez enriquecer em Deus pensa, age e entesoura para si mesmo.

A proposta de Jesus

A proposta de Jesus compreende-se na questão feita ao homem: tini e;staiÈ De que valerá a vida senão a orientarmos para Aquele que nos criou e deu a vida? Deus Pai não se desinteressa de seus filhos. Deus intromete-se, inesperadamente, no monólogo, relativiza as preocupações do homem e orienta-as para aquilo que é essencial: ser e ser em Deus. Deus questiona o Seu bem maior, o homem, acerca daquilo que ele é e do modo como ele é chamado a viver.
Será a pergunta de Deus um apelo à virtude? Mais que um apelo virtuoso, é uma chamada existencial e ontológica à condição humana diante de Deus. A proposta de Jesus é clara: ‘ser-se rico em Deus’. O que está em questão é a atitude que se vive no coração, o lugar onde o homem escolhe e vive a sua riqueza.

Destinatários e razão da parábola

Ainda que as palavras de Jesus sejam escutadas pelos discípulos e pela multidão e, na parábola, se dirijam a um homem rico, Lc não é explícito quanto aos seus personagens ou destinatários. As únicas personagens definidas são Jesus e Deus. Desse modo, o evangelista amplia a parábola para um âmbito universal e actualiza-a em cada homem (como aquele da parábola), em cada comunidade (como aos irmãos em disputa e aos discípulos) e em cada sociedade (como à multidão).
O texto esclarece-nos acerca da insensatez duma vida egoísta, materialista e indiferente a Deus e responde a uma questão essencial: qual é o fundamento da vida? O texto convida o ouvinte/leitor a confiar e viver em Deus. Jesus chama-nos à certeza confiante e geradora de comunhão de quem vive de coração enriquecido pela paz, pelo bem da Verdade e pelos frutos da sabedoria que apenas se encontram no Bem maior: em Deus.


BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

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