Jesus e a sua relação com o Espírito Santo no Evangelho de Lucas

Estudo de Eurides Vaz, em 29/03/2005


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1. Jesus e o Espírito Santo

Ao analisarmos a passagem que trata sobre a visita de Jesus à Nazaré (4,16-30), nós ressaltamos a importância da expressão: «o Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres» (4,18a; cf. 1,35; 3,22; 4,1.14)(1). Expressão esta que designa a presença do Espírito Santo sobre Jesus, o qual tem como uma das finalidades de sua missão «evangelizar os pobres» (cf. 6,20; 7,21) (2).
A partir disso, a meta da presente seção consiste em aprofundar um pouco mais sobre o significado de tal expressão, bem como a sua importância para a inteira narrativa evangélica. Assim sendo, verificaremos quando é que Jesus foi ungido pelo Espírito Santo, bem como em que momentos ele está sob o influxo do mesmo. Nosso objetivo é saber se esta temática tem um caráter programático para o Evangelho de Lucas(3).


1.1. Jesus sob o influxo do Espírito Santo

A expressão «o Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu» (4,18a), indica que Jesus não está sozinho quando fala ou age, mas suas palavras e ações revelam que o Espírito Santo está com ele(4). Deste modo, até o presente momento da narrativa lucana ele age e fala sob a condução de tal Espírito. Com efeito, Lucas já prepara esta temática indicando a presença do Espírito Santo durante o nascimento de Jesus (1,35), seu Batismo (3,22), as tentações (4,1) e no início da sua missão galilaica (4,14).
A partir de agora, passaremos a verificar como o mesmo Espírito está sobre Jesus ao longo do referido Evangelho. Para tanto, nos restringiremos a três seções do mesmo, onde a referência a Jesus em agindo sob o influxo do Espírito Santo aparece de modo explícito: na preparação do seu ministério público (3,1–4,13) (5); no exercício de seu ministério público na Galiléia (4,14–9,50) e na sua subida para Jerusalém (9,51–19,27).


1.1.1. Na preparação do seu ministério público (3,1–4,13)

Na perícope em questão, o próprio Jesus ensina que o Espírito do Senhor está sobre ele, porque o ungiu com a finalidade de realizar diversas atividades (4,18). Unção que se deu durante o seu Batismo: «e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corporal, como pomba» (3,22a; cf. 1,35). A cena da descida do Espírito Santo sobre Jesus também recorda a profecia de Isaías (11,1-2; 42,1). Cena esta que é inserida por Lucas logo após a prisão de João Batista (3,19-20) (6). Depois que todo o povo recebeu o batismo e no momento em que Jesus, também batizado, achava-se em oração, o céu se abriu (v.21) (7). É neste momento que acontece a sua unção messiânica, sendo que o Espírito Santo ou do Senhor, desce sobre ele (v.22a) (8). Trata-se de uma unção que vem do céu (sobrenatural; cf. At 4,27) (9). Unção esta realizada por Deus, onde o Espírito Santo desce sobre ele e passa a conduzi-lo(10).
Durante a unção batismal de Jesus na qual ele se torna o Messias e, além disso, uma voz do céu (sobrenatural) revela sua identidade filial como sendo Filho de Deus, não são reveladas quais são as tarefas que ele veio desempenhar (3,21-22) (11). Na verdade, tal unção era ainda a preparação para a realização de seu ministério público. Contudo, na sinagoga de Nazaré (4,16-30) ele confirma sua identidade messiânica e revela qual é a sua missão (vv.18-19).
Depois que Deus ungiu Jesus por meio do Espírito Santo, é lógico que tal Espírito começa a conduzí-lo e não se separará mais dele durante sua vida neste mundo. Assim, o Espírito Santo passa a conduzir Jesus seja quando ele profere palavras, seja quando realiza ações. Após o Batismo, a primeira constatação explícita de que Jesus continua a agir sob o influxo do referido Espírito ocorre por ocasião das tentações.
Já no início das referidas tentações constata-se duas referências ao Espírito Santo que está sobre Jesus. A primeira delas é assim narrada por Lucas: «Jesus, pleno do Espírito Santo, voltou para do Jordão» (Lc 4,1a; cf. 1,35; 3,22). O Espírito Santo, neste caso, plenifica Jesus(12). Já tendo sido ungido por Deus por meio do referido Espírito no Batismo, o mesmo agora passa a plenificá-lo (cf. At 4,31; 6,3; 7,55; 13,9.52) (13). É a partir desta plenificação que ele volta do Jordão depois sua unção (3,21-22). Mas não permanece só nisso. Lucas faz uma segunda referência ao Espírito Santo no mesmo versículo.
A segunda referência à ação de Jesus sob o influxo do Espírito Santo dentro do contexto das tentações no deserto (4,1-13), é constatada da seguinte maneira: «e foi conduzido pelo Espírito através do deserto» (4,1b) (14). Jesus é conduzido através do deserto pelo referido Espírito(15). Tal «condução» indica que o mesmo orienta as suas ações. Sua condução para o deserto se dá durante um tempo estabelecido: quarenta dias. Durante estes dias, ele é tentado pelo demônio (v.2). Mas se o Espírito Santo o plenifica (v.1a) e conduz durante suas ações (v.1b), também exercerá um influxo durante suas palavras. Isto porque ao ser tentado pelo demônio (vv.3.6-7.9-11) ele responde com Sabedoria (vv.4.8.12), comprovando sua autoridade messiânica e filiação divina(16). Deste modo, Jesus não cai diante das tentações de Satanás, porque o referido Espírito que o ungiu (3,22) e do qual ele está pleno (4,1a), o conduz e orienta (4,2b).


1.1.2. No exercício de seu ministério público na Galiléia (4,14–9,50)

O Espírito Santo, depois de ter descido sobre Jesus durante sua unção batistmal (3,22a), o plenifica (4,1a) e o conduz através do deserto (v.2a). Em seguida, constata-se novamente Jesus sob o influxo do mesmo Espírito: «Jesus voltou então para a Galiléia, pelo poder do Espírito» (4,14a; cf. 1,35) (17). Estamos diante da introdução sumarizada (4,14-15) (18) à perícope em questão, a qual pode servir também de introdução para todo o ministério público de ensinar de Jesus exercido na Galiléia. A volta de Jesus tem como procedência o deserto, depois que o demônio o tenta naquele lugar (4,1-13) (19). Assim, «é o “poder” do Espírito que está sobre ele e o acompanha no seu ministério na Galiléia (4,14) antes de chegar na sinagoga de Nazaré»(20). A preposição «para» indica a direção para onde ele vai: «para a Galiléia»(21). A finalidade da volta do deserto para a Galiléia é o início de seu ministério público naquela região.
Assim como ele não estava sozinho durante as referidas tentações, o mesmo acontece durante sua volta para a Galiléia. A mesma é realizada «pelo poder do Espírito»(22). Mesmo que o termo «Espírito» não seja qualificado, sabe-se pelo contexto anterior (3,22a; 4,1ab) que se trata do Espírito Santo. É o mesmo Espírito que o impulsiona de volta para a Galiléia para começar sua vida pública (4,14a) (23). E é o fato de estar sob o influxo do mesmo que faz com que sua fama se espalhe por toda a região (v.14b) (24). Além disso, Jesus ensina(25) nas sinagogas e é louvado por todos (4,15) (26). O que também confirma que, mesmo que ele até agora não esteja na companhia de nenhuma outra pessoa humana, o Espírito do Senhor o conduz em tudo aquilo que ele faz e diz(27).
Até aqui é o poder sobrenatural (céu) que revela Jesus sob o influxo do Espírito Santo, confirmando sua identidade messiânica e filiação divina (3,22b) (28). É também o narrador que revela que tal Espírito o plenifica (4,1a), o conduz através do deserto (4,1b), sendo que sob seu poder ele volta de tal lugar rumo à Galiléia para começar seu ministério público (4,14a) (29). Assim, «o evangelho de Lucas coloca o início da missão história de Jesus na Galiléia sob o poder do Espírito Santo que desce sobre ele em forma pública visível depois do Batismo»(30). Já em seguida, na perícope em questão (4,16-30), é o próprio Jesus que ensina aos seus que o Espírito Santo está presente sobre ele (4,18a) (31). Com isto, ele tem a autoridade necessária para revelar aos seus sua identidade messiânica e que, agora, Deus está disposto a dar-lhes os benefícios que ele veio trazer (4,18-19).
Por assim ser, Jesus mesmo por meio de palavras confirma tudo aquilo que tinha sido dito sobre ele até aqui, seja pelo céu (transcendente), seja pelo narrador (imanente). Tudo isso nos faz constatar que ele, até o presente momento da narrativa, não está em companhia de nenhuma pessoa humana, mas somente sob o influxo do Espírito Santo. E se a presença de tal Espírito não é explicitada quando ele diz alguma coisa ou realiza alguma ação, isso não quer dizer que ele não está mais sob o seu poder durante seu ministério. O que quer dizer que o Espírito Santo recebido em sua unção continuou presente sobre ele ao longo de sua missão. Sendo que no final da mesma, ele promete aos seus apóstolos que lhes enviará o mesmo Espírito que os orientarão em suas palavras e ações, para que possam dar continuidade à sua obra salvífica (24,49a). E a promessa de Jesus se cumpre nos Atos dos Apóstolos, quando os mesmos são revestidos pela força do Espírito Santo (At 1,4ss; 2,33.39; Gl 3,14.22; 4,6; Ef 1,13). E para o recebimento do mesmo é indispensável o arrependimento. A partir deste se pode ser beneficiado com o Batismo e o perdão dos pecados (At 2,38) (32).


1.1.3. Na sua subida para Jerusalém (9,51–19,27)

Até aqui vimos que Jesus ensinou aos seus na sinagoga de Nazaré que está sob o influxo do Espírito Santo, tendo sido ungido e enviado para desempenhar as atividades próprias do Messias (4,18-19; cf. 3,21-22) (33). Depois disso encontramos somente mais uma ocorrência direta ao longo do Evangelho de Lucas que manifesta explicitamente a relação entre ele e o referido Espírito. A mesma se dá durante a sua subida para Jerusalém: «naquele momento, ele exultou de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse» (10,21a; cf. 1,35; 3,22; 4,1.14.18) (34). Jesus ensina neste contexto (10,21-22) que o Evangelho é revelado aos simples e indica qual é sua relação com o Pai (35). No contexto anterior (10,17-20), os setenta e dois discípulos retornam alegres de sua missão (10,17), e Jesus indica-lhes qual deve ser o motivo da alegria dos mesmos: «vossos nomes estão inscritos nos céus» (v.20). Agora, é Jesus que exulta de alegria. O que o faz exultar é a ação «do Espírito Santo».
O motivo da exultação de Jesus está no conteúdo daquilo que ele diz logo a seguir: «eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos» (10,21b) (36). A exultação de Jesus confirma que o Espírito Santo está sobre ele, sendo que foi ungido e enviado para executar diversas tarefas (4,18-19) (37). Jesus já tem executado parte de tais tarefas durante o seu ministério público (cf. 7,22) e agora percebe o resultado positivo das mesmas, principalmente depois da volta dos setenta e dois discípulos (10,17-20). Por isso, Jesus sob a ação do mesmo Espírito Santo que desceu sobre ele no Batismo e continua sobre ele em tudo o que tem feito e dito, exulta reconhecendo que a missão para a qual ele tem sido enviado, tem sido cumprida (4,18-19; cf. 7,22) (38).


1.2. Sumário

Durante essa seção procuramos demonstrar que a expressão «o Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres» presente na perícope em questão, revela que Jesus não está sozinho quando vai ao encontro dos seus em Nazaré (4,18a; cf. 1,35; 3,22; 4,1.14; 10,21a). O que indica que a presença do Espírito Santo sobre ele é um tema dominante dentro do nosso texto, bem como ao longo do Evangelho de Lucas (39).
Jesus, já na preparação para o seu ministério, está sob o influxo do Espírito Santo, pois é a partir do Batismo que o mesmo desce sobre ele confirmando sua identidade messiânica de modo sobrenatural (Lc 3,22; cf. At 10,38). Neste momento Deus (voz do céu), também confirma sua filiação divina (3,22). O mesmo Espírito plenifica Jesus e o conduz através do deserto (Lc 4,1; cf. At 4,31; 6,3; 7,55; 13,9.52). E uma vez sendo tentado pelo demônio durante quarenta dias, ele, protegido pelo Espírito Santo, confirma sua identidade resistindo às tentações de Satanás (4,4.8.12).
Logo depois das tentações, Jesus, conduzido pelo poder do Espírito Santo, voltou do Jordão tendo como direção a Galiléia, onde inicia seu ministério público (4,14). E o referido Espírito não o abandonará durante o exercício do mesmo. O mesmo faz com que sua fama comece a estender-se geograficamente e o inspira durante seu ensinamento, provocando a reação positiva de todos por meio do louvor que lhe prestam (cf. 4,14; 12,12).
O Espírito Santo também está sobre Jesus na sua subida para Jerusalém. É durante a subida para a cidade santa que ele exulta de alegria sob a sua ação (Lc 10,21; cf. At 13,52). E o motivo da mesma é porque o mesmo Espírito que desceu sobre ele no Batismo, também lhe mostra que a sua missão tem tido resultado (cf. 7,22). O que se revela principalmente depois que os setenta e dois discípulos manifestam sua alegria ao retornarem da missão, com a constatação de que até os demônios se submetiam em seu nome (cf. 4,34; 8,28.32).
A partir do exposto, podemos resumir dizendo que a pouca freqüência do Espírito Santo ao longo do ministério público de Jesus, não comprova que tal temática não seja programática para o Evangelho de Lucas. Na perícope em questão (4,16-30), a temática de «Jesus sob o influxo do Espírito Santo» é constatada explicitamente e revelada por ele próprio (4,18a). Deste modo, mesmo que a relação entre Jesus e o Espírito Santo não seja uma temática freqüente de modo explícito ao longo do seu ministério público como tal, isso não quer dizer que depois de sua unção o mesmo não está sobre ele em tudo aquilo que faz e diz.




Referências

1. Comentários
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Notas
1. Cf. R.C. TANNEHILL, «The Mission», 65, 69.
2. Jesus demonstra sua ação em beneficiar os pobres ao dizer que os mesmos devem ser convidados quando se dá um banquete (14,7-14), e na parábola do grande banquete, revela que os convidados são substituídos pelos mais necessitados (14,15-24). Neste último caso, os convidados são os hebreus para os quais ele veio, mas como não se dispõem a mudar de vida, os pobres, aqui entendidos também como pagãos, passam a substituí-los.
3. Segundo E.D. VAZ, A visita de Jesus à Nazaré, 06 a passagem que trata sobre a visita de Jesus à Nazaré é programática para o Evangelho de Lucas até o anúncio aos pagãos nos Atos dos Apóstolos.
4. Segundo R.C. TANNEHILL, The Narrative Unity, 57 o Espírito Santo tem um poder ativo sobre Jesus. R. KOCH, «Le Christ», 881 afirma que o mesmo exerce um influxo constante sobre ele.
5. Aqui não faremos referimento às narrativas da infância de Jesus (1,5–2,52) porque embora ele seja gerado pelo poder do Espírito Santo (1,35), não encontramos nenhuma referência explícita da sua ação sob o seu influxo durante as mesmas. No Templo, por exemplo, ele ensina entre os doutores (2,49), e embora possamos dizer que o faz já sob a condução do Espírito Santo, não existe nenhuma referência explícita ao mesmo. Por assim ser, partiremos do momento onde o referido Espírito desce sobre ele no batismo (3,22). Para maiores detalhes sobre as narrativas da infância de Jesus, cf. A. VALENTINI, «A propósito dei vangeli dell’Infanzia», 3-11.
6. Para um maior aprofundamento da perícope que trata sobre o batismo de Jesus, cf. R. FABRIS, «Lo Spirito Santo sul Messia», 99-101; F. MARTIN, «Le baptême dans l’Esprit», 23-28; B. PRETE, «Il battesimo di Gesú», 67-72.
7. O Espírito Santo também desce sobre os apóstolos enquanto estes se encontravam reunidos em oração (At 2,1).
8. Cf. R.C. TANNEHILL, The Narrative Unity, 56. Nos Atos, tendo orado, os apóstolos que estavam reunidos também recebem o Espírito Santo (cf. At 4,31).
9. Cf. R. KOCH, «Le Christ», 880.
10. Aqui não estamos de acordo com PLUMMER que diz que Jesus foi batizado por João. Cf. A. PLUMMER, The Gospel According to S. Luke, 98. Afinal de contas, Lucas já narrara anteriormente que João se encontrava preso (3,19-20). Para maiores detalhes, cf. também R. BULTMANN, Die Geschichte der synoptischen, 263-270, E. KÄSEMANN, New Testament Question, 112. Nos Atos Pedro explica na casa de Cornélio que foi Deus quem ungiu Jesus Cristo com o Espírito Santo (cf. At 10,38).
11. Assim sendo, durante o Batismo Jesus é revelado como Messias e Filho de Deus. Cf. R. MEYNET, Il Vangelo di Luca, 131.
12. Nos Atos dos Apóstolos o termo plh,rhj (pleno) é usado pelos discípulos (6,3.5; 7,55; 11,24), o que significa que o Espírito Santo não está somente sobre Jesus. Cf. também E. SCHWEIZER, «pneu/ma», 404ss.
13. De acordo com I.H. MARSHALL, The Gospel of Luke, 168 Jesus, desde o Batismo, passa a estar continuamente «pleno» do Espírito Santo. Efetivamente, «estar pleno do Espírito Santo» é uma das idéias básicas da concepção teológica de Lucas. Cf. J.A. FITZMYER, The Gospel, 513.
14. Cf. A. SISTI, «Il tema del giubileo», 15.
15. Esta frase, segundo a comparação sinótica, não está presente em Marcos e Mateus. A mesma pode ser uma alusão ao AT, quando Israel é enviado ao deserto por Deus para ser tentado (Dt 8,2). O significado da preposição («no» Espírito) pode ser levemente distinto do instrumental («por»). Mas «por» pode ter também sentido instrumental, como em Lc 11,15; At 17,31 (cf. BDF n. 219). Porém, alguns comentaristas a interpretam no sentido de um influxo interno do Espírito Santo. Cf. J. DUPONT, Les tentations de Jésus, 50. Segundo H. CONZELMANN, Theology, 28 Jesus não é «levado» pelo Espírito, mas atua «no Espírito». Se o verbo está no passivo, mesmo interpretando a referida preposição como indicativo de agente ou como referência a um influxo interno, Lucas afirma seguramente a sujeição de Jesus ao Espírito. Porém, o mesmo não deve ser visto como a causa da tentação ou prova.
16. Cf. R. MEYNET, Il Vangelo di Luca, 134; É. SAMAIN, «Le discours-programme Lc 4,16-21», 26; R.C. TANNEHILL, «The Mission», 69.
17. Aqui é interessante ressaltar que o Espírito Santo também é presente na vida de Jesus já desde seu nascimento, sendo que ele foi gerado no ventre de Maria pelo seu poder (1,35). Outras pessoas que têm tudo a ver com o evento messiânico, também são repletas do mesmo Espírito: João Batista (1,15); Isabel (1,41); Zacarias (1,67); Simeão (2,25.26.27).
18. Para maiores detalhes sobre esta introdução em forma de sumário, cf. J. DELOBEL, «La rédaction de Lc», 203-207; H. SCHÜRMANN, «Der “Bericht vom Anfang”», 242-248.
19. Segundo J.A. FITZMYER, The Gospel, 523 tanto em Lc 4,1 como em 4,14a, acontece uma mudança de cenário sob o influxo do Espírito Santo.
20. A. SISTI, «Il tema del giubileo», 14-15 (a tradução é minha).
21. Segundo I.H. MARSHALL, The Gospel of Luke, 176 Lucas, depois de ter narrado sobre o batismo de João (cf. Mc 1,14a), se contenta com a descrição do retorno de Jesus para a Galiléia. De acordo com R. FABRIS, «Lo Spirito Santo sul Messia», 99 a missão de Jesus na Galiléia começa sob o influxo do Espírito Santo.
22. Segundo a teologia lucana, a («poder») de Jesus se manifesta não somente para realizar curas e expulsar demônios, mas também está intimamente ligada ao Espírito que o guia em sua atividade de ensinar, interpretar a Escritura e agir. Cf. W. GRUNDMANN, Das Evangelium, 118.
23. Cf. A. SISTI, «Il tema del giubileo», 14-15.
24. Este estribilho é característico de Lucas e ocorre em outros versículos, mesmo que não se constate nos mesmos a presença explícita do Espírito Santo (4,37; 5,15; 7,17). Nos Atos dos Apóstolos encontram-se também estribilhos análogos (2,41; 6,7; cf. Lc 1,80).
25. Conforme vimos anteriormente, o verbo «ensinar» é freqüentemente usado para indicar a atividade de Jesus em todos os Evangelhos, e tem a ver com o mesmo sentido de «anunciar» (Mc 1,14). Cf. J. VINCENT, «Didactic Kerygma», 262-263. Segundo J.A. FITZMYER, The Gospel, 523 esta referência inicial ao ensinamento de Jesus introduz um dos temas favoritos de Lucas que consiste em apresentá-lo como «Mestre» (cf. Lc 4,31; 5,3.17; 6,6; 11,1; 13,10.22.26; 19,47; 20,1.21; 21,37; 23,5).
26. Mesmo não se constatando uma referência explícita ao Espírito Santo, a fé em Jesus demonstrada por meio da admiração e louvor das massas comparece em outros versículos do Evangelho de Lucas (8,25; 9,43; 11,27; 13,17; 19,48; cf. 4,22). Constata-se também uma ligação entre estes temas e os temas do louvor de Deus (2,20) e do temor religioso (1,12).
27. Contra C.J. SCHRECK, «The Nazareth Perícope», 441 que diz que o Espírito Santo não está presente sobre ele no resto de sua missão.
28. No sentido cristológico, durante o Batismo os títulos de «Messias» e «Filho de Deus» estão presentes. Cf. A. SISTI, «Il tema del giubileo», 11. Segundo R. FABRIS, «Lo Spirito Santo sul Messia», 104 no Batismo se dá a investidura messiânica de Jesus.
29. Cf. A. SISTI, «Il tema del giubileo», 15.
30. R. FABRIS, «Lo Spirito Santo sul Messia», 99 (a tradução é minha).
31. De acordo com A. SISTI, «Il tema del giubileo», 15 durante a visita aos seus, é o próprio Jesus que ensina que o Espírito Santo está sobre ele, o que indica a sua identidade messiânica e divina.
32. A temática da conversão é muito freqüente nos Atos (2,38; 3,19; 5,31; 11,18; 13,24; 17,30; 19,4; 20,21; 26,20).
33. R.C. TANNEHILL, The Narrative Unity, 58 diz que Jesus revela diante dos seus quais são as finalidades de sua unção batismal.
34. Nos Atos os discípulos também estavam cheios de alegria e do Espírito Santo diante da missão de Paulo e Barnabé (cf. At 13,52).
35. Cf. I.H. MARSHALL, The Gospel of Luke, 430.
36. Uma das tarefas realizadas por Jesus a partir de sua unção messiânica, é o anúncio da Boa Nova aos pobres (cf. 4,18a; 7,22).
37. Cf. R.C. TANNEHILL, The Narrative Unity, 58.
38. Uma outra referência ao Espírito Santo durante o ministério público de Jesus, é quando ele ensina que o Pai dará o mesmo a quem lhe pedir (11,13). Jesus também ensina que todo pecado contra ele será perdoado, mas o pecado contra o Espírito Santo jamais terá perdão (12,10). Pecado este que indica a indisposição em reconhecer a ação salvífica do Ungido de Deus (cf. 11,15). Ele que foi ungido por meio do Espírito Santo (4,18a; 3,22), para realizar diversas tarefas, só pode agir se encontrar a disposição em mudar de mentalidade. Por fim, ele ensina que o Espírito Santo revelará aos seus discípulos o que se deve dizer e fazer diante da perseguição dos adversários (12,12), assim como lhe tem revelado (cf. 4,4.8.12.30; 6,3-5; 11,17-22 etc). Porém, a diferença entre a presença do Espírito Santo sobre Jesus e seus discípulos, é que ele está sempre em comunhão com o mesmo.
39. Cf. R.C. TANNEHILL, The Narrative Unity, 57.

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  • RAFAEL MARCOS GARCIA (RIO DE JANEIRO) - 16/10/2014

    A vocação profética da Igreja e a necessidade de haver rearticulação da pregação do Evangelho no cotidiano do mundo tem que ser restaurada nos dias de hoje.

  • RAFAEL MARCOS GARCIA (RIO DE JANEIRO) - 11/09/2014

    “filho eis a tua mãe. Mãe, eis o teu filho”. Jesus nos deu sua mãe como prova de amor pela humanidade. Se despojou de tudo até na morte nos deixou sua mãe como nossa intercessora. Ela que pediu a ele fazer o primeiro milagre de transformar a água em vinho pede tambem por nós. Amém