Uma janela sobre o mundo bíblico

Livrai-nos do mal



  • Estudo
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  • 03/11/2018
Luiz da Rosa

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No final da oração do Pai-Nosso, encontramos a frase que é o título desse pequeno artigo (Mateus 6,9-13):

Vocês devem rezar assim: Pai nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia. Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.

De que mal se trata. E por que em alguns momentos encontramos esse “mal” com a letra maiúscula (lecionário litúrgico)?

É fácil de constatar como os sistemas de pensamento humanos têm dificuldade de tratar desse tema. Às vezes é até difícil de falar dele, explicá-lo, fazer raciocínios, pois se corre o risco de justificá-lo. O mal é, antes de tudo, um mistério.

 

Primeira reflexão

No capítulo 3 do livro do Gênesis, lemos a história do conhecimento do bem e do mal. O bem é apresentado como obediência a Deus, sendo uma adesão voluntária da criatura, ao plano de Deus criador. O profeta Miquéias nos lembra as condições do bem, dizendo: 

O Senhor já nos mostrou o que é bom, ele já disse o que exige de nós. O que ele quer é que façamos o que é direito; que nos amemos uns aos outros com dedicação; que vivamos em humilde obediência ao nosso Deus (6,8). 

Na verdade, a natureza humana é frágil, é sujeita às quedas e recaídas, mas pode contar com a graça que nos foi dada em abundância, com a vinda de Jesus ao mundo. E por que Jesus veio ao mundo? Porque o mal já havia plantado na terra as suas raízes. Ele veio para sanar esse mal e restaurar as relações. São Paulo, reconhecendo que é humano e fraco, diz: 

Mesmo tendo dentro de mim a vontade de fazer o bem, eu não consigo fazê-lo. Pois não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero fazer é que eu faço. Mas, se faço o que não quero, já não sou eu quem faz isso, mas o pecado que vive em mim é que faz (Rm 7,14-25).

Essas duas reflexões são muito profundas e se baseiam na bíblia, mas ainda não nos dão uma resposta que nos satisfaz. Falam da existência do mal, mas não nos mostram claramente o que ele seja.

 

O mal é uma coisa ilógica

Em 1985, Paul Ricoeur deu uma conferência onde tratou do tema da morte dos inocentes no tempo do nascimento de Jesus, por ordem de Herodes. Dentro desse contexto ele analisou a dificuldade em entender o mal. Ele acredita que o problema reside no fato da impossibilidade de entender de maneira lógica essas três afirmações:

  • Deus é todo poderoso;
  • Deus é bom;
  • O mal existe.

Se Deus é todo poderoso e infinitamente bom, por que Ele permite a existência do mal, por que Ele deixa que o mal se manifeste no mundo e, dentro do contexto que aborda, como Deus deixa que inocentes sofram por questões completamente alheias a eles?

“Diante do mal, normalmente acusamos sem reagir. Se procuramos justificá-lo ou nos desesperamos diante dele, ele se multiplica. Quem vive apesar dele, sem justificá-lo e nem se desesperar, faz com que ele regrida” (Bertrand Vergely, “O Silêncio de Deus diante dos Maus do Mundo).

 

Mal como ausência do bem

A metafísica, quando fala do mal, diz que ele existe e não existe. Ele existe na medida em que vejo o sofrimento ao meu redor, o mal que me toca, etc. Por outro lado, a metafísica diz que ele não é uma coisa no mundo, no sentido que não é uma substância.

Os padres da igreja, especialmente Santo Agostinho, constatam que o mal é a ausência do bem. O mal é a constatação de uma falta, de um não ser. De maneira mais exata, poderíamos dizer que se trata de uma privação. Usando uma metáfora, poderíamos dizer que o mal é como um buraco: como descrever um buraco se em relação ao todo que o buraco representa. O buraco em um tecido só existe na medida em que é uma falha do tecido.

Aplicando essa imagem ao mal, ele existe somente na medida em que é ligado ao bem, isto é: ele é uma privação do bem. Por isso, poderíamos dizer que ele vem sempre em segundo lugar.

O contrário nunca é a mesma coisa: o bem não pode ser definido em relação ao mal, mas em relação a si mesmo. O bem tem uma primazia sobre o mal. Fica evidente se compararmos o cego com a visão. O cego sofre a privação da vista, sendo essa o bem primeiro, que permite definir o mal através do contraste.

Nos ajudam a pensar as palavras de Santo Irineu de Lyon:

"A visão não seria tão desejável para nós se não soubéssemos que grande dano é a cegueira; a saúde também se torna mais preciosa pelo julgamento da doença, assim como a luz pelo contraste entre a escuridão e a vida pela morte. Assim, o reino celestial é mais precioso para aqueles que conhecem o da terra; e quanto mais precioso for, mais vamos amá-lo. "

 

O mal no Pai-Nosso

A metafísica sem dúvida nos ajuda a entender o mal de maneira genérica e também em relação à religião. Mas o mal do qual pedimos que Deus nos livre na oração do Pai-Nosso é bem conhecido das Escrituras: é o Maligno, com letra maiúscula, o demônio, uma realidade mais forte que o homem, que está na origem do mal. A potência dessa criatura é a razão pela qual, às vezes, parece que o mal vence a humanidade.

Jesus, através de sua cruz e sua ressurreição, nos livra desse mal.

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