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Bíblia A compreensão bíblica acerca da criação: Algumas notas

1. A guisa de introdução: uma presença plural


Na tradição Vétero e Neotestamentária há inúmeros relatos que aludem a criação. historicamente,contudo, tendeu-se a restringir essa questão aos capítulos inicias do livro do Gênesis. Alguns teólogos, 1 defendem uma multiplicidade de narrativas criacionais ou de textos que aludem a essa idéia. Destarte, tanto no Primeiro como no Segundo Testamento, nas diversas tradições literárias, é perceptível a presença de escritos que remetem a noção de criação. Essa pluralidade de narrativas permite conceber uma acepção específica acerca desse conceito.


Acerca dessa temática que  este artigo  busca versar. Num primeiro plano será apresentado a concepção vétero-testamentária da criação, apontando seu ambiente de origem e sua ligação com outros temas da fé Israelita. Num segundo momento, se  apresentará a concepção neotestamentária da criação que  tem como principio e fim o Cristo. Na conclusão, brevemente, será  fará um paralelo entre as  Duas.


2. Criação no Antigo Testamento


Consoante o renomado biblista da Escola Francesa, Paul Beachamp 2, há uma gama de termos que denotam a acepção de criação. Todavia, essas palavras não exaurem a amplitude do sentido bíblico desse conceito. Assim, seguindo o raciocínio do teórico em pauta, o termo, no Antigo Testamento, empregado de maneira mais adequada para explicar o sentido bíblico de Criação é Bara’. Essa expressão encontra-se nas duas narrativas da criação( Gn 1,1.21.27; Gn 2,3.4); nos escritos deuteronomistas( Dt 4,32); Na tradição do saltério( Sl 51,10) e No trito Isaías (Is, 40,26)3


Esse termo, nas citações acima descritas é sempre empregado em referência a Deus –desde que esteja no qal 4. Assim, portanto,  o sujeito da oração constituída por esse verbo é o transcendente, que no universo do Antigo Testamento, para os Israelitas, é o Deus da Aliança( Ex 19,1ss.).Vários dicionários bíblicos, 5 no verbete criação trazem como afirmação magna a reflexão de que esse vocábulo é atribuído a Deus porque trata-se de uma ação inatingível por um agente humano, somente passível à divindade. Assim, a priori “criar” no universo bíblico é uma atividade Divina.


 Esse Verbo, de per si, não da cabo da teologia que subjaz a acepção de criação no Antigo Testamento.Isso implica em dizer que ele está profundamente imbricado com outras temas da teologia veterotestamentária 6. Mais ainda, que ela não obedece a um único paradigma explicativo tampouco é um dado que possa ser compreendido de maneira segregada ou isolada. Sua compreensão, portanto, vincula-se a outros tópicos da fé Israelita tais como Salvação e Aliança. Para apreender a amplitude dessa afirmação faz-se necessário imiscuir-se no ambiente histórico ou, para usar um termo técnico, o “Sitz in labem” em que a reflexão  bíblica sobre a criação foi mais profusamente debatida, ou seja, no período do Exílio da Babilônia.


Para alguns críticos de teologia bíblica a reflexão sobre a criação não é anterior ao período do Exílio7 ­– o que não implica em dizer que a fé no Deus criador seja de uma data tão tardia na fé de Israel 8. Esse período histórico é registrado entre os  anos de 587 a.C 537 a.C. Pode-se situar sua origem remota  na concomitância da queda do Império Sírio e ascensão do Babilônico. O fim, por sua vez, justapõe-se ao domínio dos Persas.


A Invasão de Jerusalém em 587 a.C. é o epicentro do terremoto de degradação do povo Israelita. O templo, lugar visceral do culto, foi destruído(2Rs 25, 9). Várias pessoas, entre elas, os sacerdotes, os membros da corte, os cantores do templo, os comerciantes e os agricultores, são deportados para a Babilônia(2Rs 25,11-12). Todos esse fatos foram promovidos às expensas de uma violência sobre-humana, onde crianças, mulheres  soldados eram  cruelmente trucidados. Nessa fase da História de Israel, em que o povo estava flagelado, desolado, consternado pela humilhação de estarem subjugados a autoridades civis estrangeiras bem como tendo seu culto, sua identidade religiosa e suas tradições violados, que eles começam a refletir sobre suas origens  em forma de hinos, narrativas etc


As elucubrações sobre as origens, Conforme Lapple, tem raízes bem delimitadas. Os israelitas no afã de seu Exílio buscam resistir aos povos dominantes através de sua herança religiosa. Eles tentam reafirmar sua identidade de fé, certos que, diante do caos, Javé não romperia sua aliança. Nas palavras do próprio teórico:

A fé bíblica na Criação[...] visa claramente dar uma resposta às angústias e problemas cálidos e preocupantes, que eram vivos para o povo de Israel. Em um meio ambiente de caráter mítico, o povo de Israel tentou, fatigosamente e mais balbuciando que falando, exprimir sua fé na Criação9 .


Nesse  sentido, torna-se claro que a reflexão  sobre a criação é propugnada  efetivamente diante da  catástrofe  histórica do Exílio.Sua ocorrência incide na Idéia de que em momentos críticos da  história  da fé Israelita, entre o povo , crescia a confiança de que o Deus da Aliança(Ex 19,1ss), dos Antepassados(Ex 3,6), o Criador (Gn 1,1)não os abandonaria. Antes, Ele retificria sua aliança e estabeleceria  a ordem, frente o caos10 .  Assim poder-se-ia compreender, criação no universo veterotestamentário,  como restauração da Aliança, conservação da vida, e re-ordenamento da realidade. Nesse Espírito, Fohrer diz que a criação, em última análise, liga-se  preservação da vida11 e  Von Rad, assegura que o tema é entendido em vista da redenção(Salvação)12 .Em pouca palavras: criação é entendida como um evento salvifico.  Assim , passemos a reflexão no novo Testamento.


3. Criação no Novo Testamento


No universo  do Segundo Testamento não são poucos os  biblistas que consideram como esparsos   os textos que tratam da criação, particularmente nos sinóticos13 . Para eles a maior concentração de textos que aludem a (nova) criação estão radicados no mundo escrituristico do Judeu convertido,  oriundo de Tarso, conhecido dos cristão com o nome de Paulo, o apóstolo dos gentios. Existem, ainda, algumas noções nos escritos Joaninos, particularmente no Evangelho. Sendo  assim, neste pequeno espaço tentar-se-á delinear, sumariamente, assim como foi feito como o Antigo Testamento,  a acepção de Criação  alojado no bojo do Novo Testamento.


O Termo técnico empregado para  exprimir a noção de Criação no  Segundo Testamento é o verbo grego– e suas variações –   transliterada, kitzo’). Ele, a exemplo do verbo hebraico Bara’, é usada somente para  indicar a atividade divina14 . A ocorrência desse termo  é de 38 vezes de  acordo com o Dicionário Teológico Internacional do Novo Testamento15 . Ainda conforme essa  obra, pode-se dizer que, não obstante a  grande assunção desse termo no cenário bíblico, ele não exaure a   toda terminologia referente à criação. Existem outras  palavras, em menor escala, que atendem ao mesmo fim.


A criação no  Novo testamento, pressupõe a concepção veterotestamentária acerca desse tema 16 .  Nos Evangelhos sinóticos encontram-se algumas breves alusões à questão da criação. Em Mateus 19, 4  e Mc 10,4 o redator do texto, embora seja para justificar a  indissolubilidade do Matrimônio, coloca na boca de Cristo a  citação de Gn 1, 27 – Narrativa da criação.  Ainda  em Marcos nos capítulos 2, 27-28 e 13, 19. Este  refere-se  ao sábado como dia de descanso e benção, assim como foi feito na narrativa de Gn 2,1-3. O primeiro,  mesmo falando em um contexto de perseguição e tribulação, refere-se a  Deus que criou  no principio, tal como  aparece em Gn 1,1. Nessa passagens, em linhas gerais, aparecem menções à  criação. Essa sintética alusão é  compensada pelo extenso  testemunho e reflexão que os apóstolos propuseram acerca do tema.


São Paulo, herdeiro da tradição  judaica, refletiu de maneira  profunda a doutrina da criação. Nos seus escritos Jesus, filho do Deus criador, é o principio, a mediação e o fim da criação (1Cor  8,6). Seguindo o  raciocinio de Shelkle17 , para compreender essa cristologia (da criação)  que perpassa  o texto paulino precisa-se saber que: Primeiro ela está permeada  pela literatura judaica sapiencial; Segundo, que a essência de Deus, nesse contexto, pertence  a sabedoria e que nos escritos sapienciais a  sabedoria é personificada. Assim, aquilo que se diz no  primeiro testamento da Sabedoria, diz-se agora de Cristo(1Cor 1, 24-30). Esse fato facultaria concluir que do mesmo modo que a sabedoria está presente na criação, o Cristo também está. De igual forma ele é a mediação e o fim para qual  ela tende( Cl 1, 15-20). Nesse espírito Padilha afirma que nessa reflexão trata-se de aplicar o príncipio escatológico no qual  a criação só pode ser entendida e explicada em vista da soteriologia18 Assim, a largos traços, a criação no universo dos escritos atribuídos a Paulo, é entendida como salvação, propugnada por Cristo, presente desde o  principio de todas as coisa criadas.


Nos textos joaninos, sobretudo no Evangelho está  radicada o principal veio da  noção de criação. Para Shelkle 19 João, assim como   Paulo, articula  uma  cristologia à doutrina Israelita da  criação do mundo. As origens, consoante o prólogo do Evangelho de João, estão alocadas, desde sempre,  em Deus e no Cristo. Ele é o princípio de tudo(Jo 1,4), o mediador(Jo 17,24) e o fim(= plenitude) da criação(Jo 16-18). Nestes escritos também subjaz  o principio da aplicação do que é dito sobre a sabedoria no Primeiro Testamento  à figura de Cristo. Desse modo pode-se concluir que a criação na  perspectiva de João é um ato de Deus que tem seu cento  no Cristo.


Em linhas gerais, de acordo com o que foi exposto, a concepção de criação nos escritos do Novo  testamento (entenda-se Paulo e João) é compreendida como um evento Salvífico.  Ela pressupõe a doutrina da  criação do primeiro testamento. Reafirma a força Criadora de Deus, mas vincula o cristo em todo processo, desde o  principio até   o fim – escatologia.


4. Conclusão


Em síntese, do que foi apresentado, a conceituação acerca da criação nos dois testamentos pode-se extrair algumas notas conclusivas.


No Primeiro  Testamento a criação e entendida em vista da Salvação propugnada   pelo Deus  da aliança(Ex 19, 1ss)Ele,  que criou o seu povo, não o abandona, preserva sua vida e conserva a aliança. No segundo testamento, particularmente em Paulo e João a criação é entendida numa leitura cristológica. Cristo é o principio, a mediação e o fim de toda Criação. Esse fato não exclui o ato criador de Deus, antes assegura a presença do filho de Deus na criação desde toda eternidade.


Em comum, as duas concepções trazem a  idéia de Salvação. No antigo Testamento  por causa da  primeira Aliança feita com Moises(Ex 24,8)e no Novo testamento em vista da nova e definitiva Aliança firmada no sangue do Cordeiro(Mt 26, 28a; Mc 14, 24b e Lc 27,20).


Referências


Bíblia de Jerusalém.São Paulo: Paulus.2004.

Bíblia TEB. São Paulo. Paulus


BEACHAMP. ‘Criação’ In: LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário Critico de Teologia. São Paulo: Paulinas-Loyola, 2004

Bile Works 7.0

BRIGTH, Jonh história de Israel.4ª ed. São Paulo: Edições Paulinas.1980

CENTRO BIBLICO VERBO.Deus viu que tudo era muito bom:Entendendo o livro do Gênesis 1-11. Paulus: São pulo. 2007.

ESSER, Hans-Helmut. “Criação”. In: BROWN, Colin; COENE, Lothar. Dicionário Teológico Internacional do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova. 2000

FOHERER, Georg: Estruturas Teológicas fundamentais do Antigo testamento. São Paulo: Paulinas,1982

LAPPLE, Alfred. Bilia: interpretação atualizada e catequese. V.1(O antigo testamento -1).São Paulo: Paulinas. 1978.( col: da Exegese à Catequese )

MCKENZIE, Jonh L. “criação” In__: Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulinas. p197:

NELLIS. J “Criação” In: BORN, A. Van den. Dicionário enciclopédico da bíblia 1. ed. Petrópolis-RJ : Vozes, 1971

PADILHA, Alyson Augusto. Alguns aspectos para leitura do conceito de criação no Antigo Testamento.REVISTA DE CULTURA TEOLOGICA. v 14.n 54. Jan/mar 2006.p

RAD, Von Gerard. Teologia do Antigo Testamento. 2ª ed. v 1 e 2. São Paulo: Aste/TARGUMIM. 2006
SCHEIKLE, Karl Hemam. Teologia do Novo testamento: a criação – o mundo – o tempo – o homem. v.2. São Paulo Loyola




Notas


1 cf BEACHAMP. ‘Criação’ In: LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário Crítico de Teologia. São Paulo : Paulinas-Loyola, 2004.p.369
2ibid.idem.p.369
3 cf. Bile Works 7.0
4 cf.HARRIS, laird R(org) Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova. 1998. p212:A palavra é  usada  no  qal somente com  referência  a  atividade  de  Deus , sendo,  portanto,   termo puramente  teológico.  Este uso distinto   da   palavra  é  especialmente apropriado de criação por meio de   fiat divino
5 cf MCKENZIE, Jonh L. “criação” In__: Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulinas. p197: No antigo Testamento, esse termo[Bara’] tem por sujeito somente a Divindade. cf BEACHAMP. ‘Criação’ In: LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário Critico de Teologia. São Paulo: Paulinas-Loyola, 2004.p369: [Barah] nunca esse termo é usado a não ser para Deus. CENTRO BIBLICO VERBO.Deus viu que tudo era muito bom:Entendendo o livro do Gênesis 1-11. Paulus: São pulo. 2007. p.50: No primeiro testamento[...] o verbo criar, Bara’ em Hebraico, é usado somente para ação criativa de Deus.
6 Cf.PADILHA, Alyson Augusto. Alguns aspectos para leitura do conceito de criação no Antigo Testamento.REVISTA DE CULTURA TEOLOGICA. v 14.n 54. Jan/mar 2006.p.66
7 cf.NELLIS. J “Criação” In: BORN, A. Van den. Dicionário enciclopédico da bíblia 1. ed. Petrópolis-RJ : Vozes, 1971. p. 316: A partir do cativeiro, a idéia de criação, formulada de diversas maneiras, constitui elemento Importante no pensamento religioso do povo Judaico.
8 cf. RAD, Von Gerard. Teologia do Antigo Testamento. 2ª ed. v 1 e 2. São Paulo: Aste/TARGUMIM. 2006.p. 135:[...]Entretanto, é bastante duvidoso explicar esse fenômeno, que seguramente chama a atenção, dizendo que, antes do século VII e VI, Javé nunca tenha sido venerado como criador do Mundo. Custa-nos acreditar que, em meio ao mundo cananeu, em cuja a atmosfera religiosa, prenhe de mitos de criação, vivia, Israel até então não tenha motivo para atribuir a Javé a Criação, quer dizer, o céu, a terra, os astros, o mar, os animais. É provável que a razão somente consistiu em que Israel levou relativamente bastante tempo para dispor a fé na criação, que realmente terá existido desde antigamente, numa relação teológica adequada com a tradição das verdadeiras obras salvificas de Javé, que são históricas.
9 LAPPLE, Alfred. Bilia: interpretação atualizada e catequese. V.1(O antigo testamento -1).São Paulo: Paulinas. 1978.( col: da Exegese à Catequese )p.59.
10 ibid.idem.p. 59-60.
11 cf.FOHERER, Georg: Estruturas Teológicas fundamentais do Antigo testamento. São Paulo: Paulinas,1982 p.222: Não obstante a variedade de concepções, permanece ainda, a estreita relação do conceito de Criação com a vida e o destino do Homem.
12 cf. RAD, Von Gerard. Teologia do Antigo Testamento. 2ª ed. v 1 e 2. São Paulo: Aste/TARGUMIM. 2006.p. 135-137
13 cf MCKENZIE, Jonh L. “Criação” In__: Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulinas. p198/199 Cf.PADILHA, Alyson Augusto. Alguns aspectos para leitura do conceito de criação no Antigo Testamento.REVISTA DE CULTURA TEOLOGICA. v 14.n 54. Jan/mar 2006.p.75; Cf BORN, A. Van den “ Criação” In: _______: Dicionário de la bíblia. Barcelona:Editora Herder, 1966.p.390
14 cf.NELLIS. J “Criação” In: BORN, A. Van den. Dicionário enciclopédico da bíblia 1. ed. Petrópolis-RJ : Vozes, 1971 p.318
15 Cf. ESSER, Hans-Helmut. “Criação”. In: BROWN, Colin; COENE, Lothar. Dicionário Teológico Internacional do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova. 2000.p461.
16 Cf. ESSER, Hans-Helmut. Op. Cit. 461
17 SCHEIKLE, Karl Hemam. Teologia do Novo testamento: a criação – o mundo – o tempo – o homem. v.2. São Paulo Loyola. p.30-32
18 Cf.PADILHA, Alyson Augusto. Op .Cit..p.75.
19 SCHEIKLE, Karl Hemam. Op. Cit. 41
 
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